Post extraído de O Tempora O Mores, postado originalmente por Mauro Meister.

Na verdade, meu alvo neste post é falar da chamada “igreja emergente”, mas não resisti a mencionar no título “neo-ortodoxia” por duas razões: (a) dar continuidade ao tema e (b) por que a igreja emergente tem tudo a ver com as conseqüências finais da neo-ortodoxia!

Há alguns meses atrás, se ouvisse a expressão “igreja emergente” certamente pensaria que se tratava de algum estudo sobre a igreja neotestamentária nos primeiros séculos de nossa era. Hoje, depois de pensar que estive fechado em um quarto sem receber notícias do mundo por uma década, sei que a “igreja emergente” é um movimento crescente dentro da igreja evangélica nas duas últimas décadas. Já existe um bom número de livros escritos sobre o assunto assim como dezenas de sites e blogs emergentes ao redor do mundo (ver leituras ao final). Como o material é extenso e “confuso”, vou tentar demonstrar, com definições próprias dos emergentes, exemplos do que é este movimento.

Primeiro, a definição:

[sic] A igreja emergente é um movimento da Igreja Protestante, iniciado por americanos e ingleses, com a finalidade de alcançar a Geração Pós-moderna. Refletindo as necessidades e os valores percebidos desta geração, as igrejas emergentes enfatizam o autêntico, a expressão criativa e uma perspectiva sem julgamentos, procurando reavaliar as doutrinas (ecclesia reformata, semper reformanda…). Igreja emergente é simplesmente um termo usado para denominar as igrejas que nasceram ou que foram [re]estruturadas para um contexto pós-moderno, pós-cristão de ser Igreja no Mundo de hoje. (http://igrejaemergente.blogspot.com/
2006_01_01_igrejaemergente_archive.html
)

Uma sintese da definição acima seria:
a. um movimento da igreja protestante;
b. tem a finalidade de alcançar a geração pós-moderna;
c. ênfase: o autêntico, a expressão criativa e uma perspectiva sem julgamentos, procurando reavaliar as doutrinas;
d. origem: igrejas que nasceram ou que foram [re]estruturadas para um contexto pós-moderno, pós-cristão de ser Igreja no mundo de hoje.

Tendo lido um bom número de livros sobre a igreja emergente, tanto de emergentes quanto de analistas do movimento, me aventuro a dizer que a descrição é uma boa tentativa de se definir o movimento emergente. Digo “tentar definir” em razão de que a “igreja emergente”, sendo característicamente pós-moderna, é quase indefinível. Outro post, no mesmo blog, confirma a idéia:

[sic] As igrejas emergentes não possuem sistemas ou fórmulas, são variáveis conforme o contexto cultural, interdominacionais, não podem ser copiadas, não possuem uma doutrina definida e sim procuram expressar Deus em diversas formas, tentando desconstruir as barreiras que as denominações impuseram. Existe uma variedade de Igrejas Emergentes com diferentes interpretações teológicas em que elas acreditam. Somente porque você ouviu dizer que uma Igreja é “Emergente “, não significa que elas possuem os mesmos valores ou praticam as mesmas coisas. (http://igrejaemergente.blogspot.com/
2006_01_01_igrejaemergente_archive.html
)

Observa-se a ênfase à que “não possuem posição doutrinária definida”, não possuem fórmulas, e, até mesmo, a “igreja emergente” evita qualquer idéia de um credo ou confissão. No site emergent-us, um dos links na página inicial é “Declaração de Fé(?)”, onde é explicado pelo coordenador nacional, Tony Jones, que a idéia de ter uma declaração de fé é “descer por uma estrada na qual não queremos andar”.[i] Logo, estamos diante de algo que existe como um movimento, mas, ao mesmo tempo, pela sua fluidez de suas propostas, é essencialmente caracterizado pela ambigüidade. Podemos dizer que a “igreja emergente” é, na verdade, uma filosofia que não quer se definir. Isto não implica, no entanto, que não se possa entender o que está por trás do movimento.

Uma primeira característica do movimento emergente é o seu PROTESTO contra os modelos tradicionais de igreja do período moderno. Dizem os emergentes que a igreja evangélica deste período é marcada por características que a fazem incompatível com a pós-modernidade. Uma das marcas do protesto é a aversão ao absolutismo, ou seja, a forma de pensar do modernismo, que admite o conceito de verdade absoluta com bases fundacionalistas. Deduz-se que a primeira forma de oposição encontrada no discurso de vários líderes emergentes é a antítese ao pensamento bíblico da verdade revelada por Deus nas Escrituras e até então compreendida pela igreja. Na visão de vários destes líderes, a igreja da era da modernidade foi marcada pela cultura “inautêntica”. Mike Yaconelli, outro expoente emergente, editou Stories of Emergence: Moving from Absolute to Authentic (Estórias de Emergência: movendo-se do absoluto para o autêntico).[ii] No livro encontram-se narrativas de vários líderes emergentes batendo na seguinte tecla: a autenticidade não esta presente na igreja; é necessário que a igreja se torne autêntica.

Carson expõe o protesto do movimento emergente em três frentes: o protesto contra a igreja evangélica tradicional, contra a forma que interpretam o modernismo e contra a igreja “seeker sensitive”, isto é, voltada para os interessados.[iii] Além dos três pontos observados por Carson, destaco o protesto contra os conceitos de autoridade e hierarquia. É comum encontrar nos relatos emergentes a noção de que as estruturas eclesiásticas do modernismo e suas hierarquias são anti-bíblicas. Em igrejas emergentes não se encontram pastores titullares, bispos, etc. As hierarquias são anátema.

Um dos mais reconhecidos líderes do movimento, Brian McLaren, com vários livros escritos, propõe que o cristianismo adote o que ele chama de ‘uma ortodoxia generosa’. Em seu livro com este título, Generous Orthodoxy, McLaren declara a essência de seu PLURALISMO:

Por que eu sou um cristão missional, evangélicos, pós protestante, liberal/conservador, místico/poético, bíblico, carismático/contemplativo, fundamentalista/calvinista, anabatista/anglicano, metodista, católico, verde, incarnacional, depressivo-mas-esperançoso, emergente e não-acabado.

Ser todas estas coisas ao mesmo tempo é a essência de sua proposta de “ortodoxia”. A expressão desconstruir é freqüente em seus escritos e inclui uma alta dose de INCLUSIVISMO, ilustrado na sentença “Pense em um corte transversal numa árvore. Cada anel representa, não a substituição dos anéis anteriores, não a sua rejeição, mas a sua adoção, a sua inclusão em algo maior”.[iv] Assim se forma o conceito da ‘ortodoxia generosa emergente’, uma espécie de pensamento inclusivista que nunca termina, está sempre emergindo em algo novo. Simon Hall, líder da comunidade Revive, em Leeds, Reino Unido, afirma: “Meu alvo para a comunidade não é ser ‘pós’ tudo. Nós somos evangélicos e carismáticos e liberais e ortodoxos e contemplativos e ligados a justiça social e ao culto alternativo”.[v]

Para Mclaren o que os evangélicos precisam é do novo cristão, de uma nova forma de seguir a Jesus que emerge dos escombros do cristianismo dividido por lutas teológicas, negligência das responsabilidades sociais e da tirania do capitalismo conservador da modernidade. Para ele, “Cada um desses novos desafios [da pós-modernidade] requer que líderes cristãos criem novas formas, novos métodos, novas estruturas – e requer deles que encontrem novo conteúdo, novas idéias, novas verdades e novo significado que sustente os novos desafios. As novas mensagens são incompatíveis com o evangelho do reino que Jesus ensinou. Não, elas são inerentes a ele, mas, previamente, não descobertas, não expressas, talvez não imaginadas”.[vi]

Segundo o pensamento emergente, o cristianismo do modernismo foi fundamentado no monoteísmo racional, religião proposicional, com uma sistemática local e uma verdade individualista. Já na era pós-moderna o cristianismo se fundamentará no pluralismo experimental, narrativa mística, fluida, global, e preferência comunal/tribal.

Essa é a redefinição ou desconstrução do conceito MISSIONAL. Segundo McLaren

. . . a fé cristã missional afirma que Jesus não veio fazer algumas pessoas salvas e outras condenadas. Jesus não veio ajudar algumas pessoas a serem corretas e enquanto deixa todas as demais erradas. Jesus não veio para criar outra religião exclusiva – o judaísmo sendo exclusivamente baseado em genética e o cristianismo sendo baseado exclusivamente na crença (o que pode ser um requisito mais difícil do que a genética).[vii]

Nesse sentido, ser missional é ser absolutamente inclusivista.

Como tudo isto pode ser relevante dentro da discussão da neo-ortodoxia e que relação todas estas coisas têm conosco? Um dos mecanismos fundamentais no pensamento emergente é, exatamente, recorrer às categorias da neo-ortodoxia para manter o linguajar bíblico e uma piedade escriturística aparente, negando, entretanto, o fundamento histórico da fé cristã bíblica. Compare as idéias acima com a tabela que Solano publicou em seu último post e você verá um retrato da neo-ortodoxia.

Anúncios