Ainda é difícil de entender direito o porque, mas toda vez aparece na minha página “Calvino da Depressão” uma galera cheia de reações de repulsa, estranhamento, preconceito e até mesmo de agressividade, atacando os calvinistas e o calvinismo, só porque a página leva o nome deste reformador do século XVI. Eu nem sou calvinista, sou luterano, mas na página tem muitos calvinistas e eu tomo as dores do pessoal que é ofendido gratuitamente pelos “arminianos” que chegam dizendo que não são “nem calvinistas, nem arminianos, são de Jesus”, como se calvinistas não fossem de Jesus, apenas por estudarem a história da igreja cristã e se identificarem com as propostas da reforma calvinista que aconteceu no século XVI e se espalhou pelo mundo.. Os arminianos que geralmente fazem isso parecem ser totalmente desconhecedores do que é o calvinismo, pois se ser calvinista não é ser de Jesus, então a maior parte dos evangélicos no Brasil, inclusive os arminianos, pentecostais e etc, não são de Jesus também, já que usam elementos da reforma Calvinista e de calvinistas posteriores em suas atividades religiosas. Por exemplo, o Luteranismo, movimento protestante que faço parte, não alterou quase nada da liturgia da Missa. Nosso culto é muito parecido com uma missa. A santa ceia, para nós, é tão ou mais importante que o Sermão, por se tratar da presença real de Jesus nos elementos físicos da Eucaristia. A Reforma Calvinista, seguindo a reforma zuingliana, propôs novas formas de liturgia, que são as seguidas até hoje pela maioria dos evangélicos no Brasil, como tirar as imagens de Jesus e dos santos da Igreja, colocar o púlpito no centro da Igreja, substituindo o altar, priorizar o sermão em detrimento da eucaristia, rezas, orações e cânticos, foram calvinistas os primeiros missionários evangélicos transculturais e os evangélicos com maior influência no Brasil até a chegada dos pentecostais, que assumiram muito da cultura calvinista em seus usos e costumes litúrgicos e religiosos em geral, enfim, uma série de coisas que as igrejas evangélicas seguem que foram herdadas da reforma calvinista e seus adeptos. O próprio Armínio, que criou o movimento sinergista dentro do calvinismo e hoje todos os que pregam ou acreditam no “livre-arbítrio” como sendo parte do processo de salvação, dizendo que a pessoa precisa “aceitar” por sua própria vontade a graça de Deus, era pastor de uma Igreja Reformada (Reformados = Calvinistas e Zuinglianos) e mesmo após ter sido tirado da Igreja Reformada Holandesa no Sínodo de Dort, ele e seus seguidores permaneceram usando o título de Reformados e mantiveram muitos elementos do calvinismo em seu movimento remonstrante. Hoje os reformados não reconhecem mais os arminianos como reformados e os arminianos nem sempre prezam por este título, mas, para nós luteranos, tanto calvinistas como arminianos são a mesma coisa, para nós o arminianismo é só um movimento sinergista calvinista, por ter todos os elementos do calvinismo, exceto a soteriologia. Então um evangélico não-luterano, ou não-anabatista dizer que é contra o calvinismo é uma contradição que não consigo entender.

Parece que tudo se explica no pensamento popular, no senso comum desses dias que rejeita bandeiras e rótulos. As pessoas querem ser “descoladas”, “diferentes” e por isso se desprendem dos rótulos e nomenclaturas para se sentirem “melhor”, “superiores”, ou “diferentes” dos outros. Até aí, este tempo pós-moderno tem seus filhos mesmo, como todos os tempos têm os seus, mas parece que muitos se irritam ao ver pessoas que não seguem o senso comum e uma efetiva forma de se sentirem superiores é menosprezar a bandeira do próximo e invalidar o pensamento do outro, para assim se colocar acima dos outros. Parece que o simples fato de levantar qualquer bandeira hoje, nesses tempos pós-modernos onde relativismo é lei, inclusive entre cristãos, ofende qualquer “cidadão de bem”, geralmente resistente a qualquer diferença ideológica ou mudança de status quo social vigente. Não estou vitimando os calvinistas aqui, até porque não me importo muito com a aceitação ou não do calvinismo pela sociedade. Calvinismo é uma alternativa bíblica de pensar o cristianismo, mas lembremos sempre que a salvação é totalmente pela graça (Ef. 2:8-10) e que somos iguais perante o Senhor Deus (Atos 10:34/ Rom 3:23), então a tentativa de ser mais bíblico ou mais “santo” não torna ninguém mais agradável a Deus, nem superior a ninguém, pois todos precisamos da graça de Deus, distribuída a todos, e ninguém algum mérito no favor de Deus para que se possa comparar com outra pessoa e se afirmar diante dela com seu pensamento calvinista, arminiano, luterano, “independente”, ou o que for.

Eu vejo que hoje ser “calvinista” ou “neo-calvinista” é até uma moda entre evangélicos brasileiros, principalmente entre universitários que estão em plena efervescência acadêmica e se encantam com os argumentos dos teólogos calvinistas. Talvez por ser moda, muitos estão usando a fé reformada como forma de auto-afirmação, sendo arrogantes e agressivos com os outros, mostrando que eles estão certos e todos os outros estão errados. Vejo muito disso no Orkut, Twitter, Facebook, blogs, etc.. Confesso que isso me irrita muito também..

Muitos, querendo não tomar parte dessa briga inútil toda entre variantes teológicas que podem coexistir muito bem, mesmo tendo grandes diferenças entre si (o cristianismo encanta pela diversidade, não?), dizem que são “neutros” e usam a passagem bíblica onde Paulo repreende os coríntios, que conflitavam entre si sobre quem seria o melhor pregador e se diziam discípulos do que consideravam melhor, fosse Paulo, fosse Apolo. Segue abaixo a repreensão de Paulo:

Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; porventura não sois carnais?

Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? (1 Cor 3:4,5)

Dizem que ao tomar partido entre Calvinismo e Arminianismo, as pessoas se comportam como os coríntios que tinham este tipo de divisão. Bom, não é a verdade isso. Vejamos.

Nem “Calvinismo”, nem “Arminianismo”, são doutrinas baseadas nas pessoas “Calvino” e “Armínio” respectivamente. “Calvinismo” e “Arminianismo” eram xingamentos que que surgiram na época em que houve esse debate sobre salvação monergista ou sinergista e soberania divina total ou parcial. Os batistas, por exemplo, eles têm uma soteriologia aberta para calvinistas e arminianos, mas existem batistas estritamente arminianos, como Billy Graham, Martin Luther King e outros, que não seguem a linha wesleyana ou da remonstrância de Armínio, mas buscam uma teologia sinergista com características culturais mais particulares ou com influência de outros pensadores, e existem batistas estritamente calvinistas, como John Piper, John MacArthur, Spurgeon e outros, e estes discordam de Calvino sobre a Ceia do Senhor (que para o batista é um memorial, seguindo a linha de Zwinglio) e do batismo infantil por aspersão (os batistas batizam adultos por imersão), por serem batistas, que seguem uma linha bem diferente nestas questões do que Calvino ensinou. O modelo eclesiástico dos calvinistas congregacionais, batistas e Anglicanos também é diferente do acreditado por Calvino. Muitos aceitam para si o título de Calvinista por causa da nossa crença na fé reformada, muitos subscrevem total ou parcialmente aos catecismos e confissões de fé da época da Reforma pelo lado calvinista ou zuingliano, preferem o culto com uma liturgia reformada e preferem dispensar o legado cultural dos pais da igreja e dos cristãos medievais, aderindo à Reforma calvinista parcialmente ou em sua totalidade; na Europa isso é muito comum nas “igrejas Reformadas” de lá. Outros, como é o mais popular aqui pelo Brasil, se identificam como calvinistas pelo estudo da história dos puritanos e das doutrinas que eles pregavam, geralmente também se apegam à TULIP, que é um acróstico desenvolvido pela Igreja Reformada Holandesa no século 17, muitos anos depois da morte de Calvino, contra a remonstrância sinergista liderada por Armínio, que se propõem a resumir a soteriologia da Reforma Calvinista, que ficou conhecido como os 5 pontos da fé calvinista.

Sendo assim, a maioria dos calvinistas não pode ser chamada de “seguidores de Calvino”, nem mesmo os arminianos podem ser chamados, em sua grande maioria, de “seguidores de Armínio”, pois muitos pontos da Remonstrância não são nem sequer conhecidos pela grande maioria dos arminianos, este apelido é dado para os sinergistas do lado calvinista-zuingliano da Reforma, assim como o apelido de “calvinista” é dado para o lado monergista no meio evangélico. Acredito que, como cristãos, essa discordância com Calvino e Armínio em certos pontos é muito saudável, pois o cristão deve ser guiado pela Palavra de Deus, somente concordando com teólogos e reformadores até aonde eles não forem contra a Palavra de Deus, e tendo liberdade para propor coisas diferentes aonde a Bíblia não fecha o assunto. Os que os calvinistas costumam rotular como “arminianos” em sua maioria não têm nada a ver com a teologia arminiana histórica. Armínio, com certeza, teria xilique se visse os “arminianos” de hoje que são mais para Pelagianos, Paulícios e Montanistas do que para o que ele ensinou. O termo arminiano também foi cunhado como um xingamento contra os que criam na mensagem de salvação sinergista de John Wesley e Charles Finney, que usavam muitos textos de Armínio para corroborarem a pregação deles de salvação. Mas a maioria dos arminianos de hoje crêm em algo bem diferente do que foi ensinado por armínio, no geral.

Sendo assim, comparar essa situação atual com a situação que ocorreu entre Paulo e Apolo não condiz com a realidade.

Podemos ter nossas formas de entender muitos pontos teológicos aonde a Bíblia não é clara, ou onde temos dificuldades de entender e por isso temos diversidade na Igreja Cristã em muitas questões. Mas temos que tomar cuidado para não acrescentar coisas à Palavra de Deus, nos tornando legalistas em nossa teologia e querendo condenar quem não pensa como nós. A Bíblia é clara:
Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; (Apc 22:18).

Charles Spurgeon, célebre pregador calvinista inglês do século 19, dizia assim:

Não, eu não levanto a bandeira de Calvino. Eu só estou junto com ele balançando a bandeira do Verdadeiro Evangelho.

Então nossa bandeira maior deve ser a das Escrituras. Se alguém defende Calvino, Armínio, Lutero, qualquer u como sendo infalível ou inerrante, aí sim temos um idólatra que não segue a Cristo. Mas se alguém apenas entende que as reformas propostas num dado momento da história do cristianismo são boas para ele, então não podemos menosprezar a fé da pessoa, querer tirar Jesus dela, dizendo “Não X, nem Y, sou de Jesus (e você não, pq vc pensa diferente de mim)”, mas devemos filtrar o que a pessoa tem de bom, concordar e discordar de forma amigável, é sim lícito quer a gente expresse nossas discordâncias e concordâncias, mas não podemos maltratar as pessoas por pensarem diferente de nós.

Sola Gratia! Sola Fide! Sola Scriptura! Solus Christus! Soli Deo Gloria! C

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