*Atualmente sou luterano e este texto não me representa mais.

Muitos evangélicos me perguntam o porque sou *”calvinista” e não apenas me rotulo como “sou de Cristo” e pronto, como bom humanóide pós-moderno. Confesso que dá vontade de chamar o cidadão de burro quando ouço isso, mas eu nem sempre fui calvinista, já fui metido a ocultista (tb não me envolvi muito, era só revolta) penteca, neopenteca, “neo-ortodoxo”, “judeu-messiânico (só freqüentei “sinagogas” messiânicas, não era muito envolvido) e só depois de ouvir todo mundo xingando o calvinismo eu resolvi estudar isso e acabei entendendo que é a expressão mais bíblica do cristianismo e minha consciência me trouxe a esse grupo de cristãos, porém não menosprezo outros grupos, pois sei que o Senhor chama e usa da maneira que Ele bem entende e, se seguem a Bíblia (ortodoxia e ortopraxia em conjunto) não são “menos bíblicos” do que eu por serem de outra expressão cristã. Bom, indo direto ao assunto:

Calvinismo é um “xingamento” para quem não é Luterano, mas acredita nas “doutrinas da graça”, que eram o conjunto de doutrinas que foram defendidas (até a morte, por milhares de pessoas) na época da reforma protestante.

Para você entender as doutrinas da graça, segue um resumão:

Os reformadores eram pessoas que liam a Bíblia, mas discordavam de vários ensinos Igreja Católica, pois esses ensinos eram anti-bíblicos, porque ela ensinava salvação por obras, principalmente por dinheiro, através da venda de indulgências (era algo mais ou menos como as “Campanhas” que acontecem nas igrejas neopentecostais hoje), então eles gritavam Sola Fide (pois não é por obras, mas mediante a fé somos salvos);

a IC ensinava a mediação entre Deus e os homens através de Maria, santos e a própria Igreja (mais ou menos a “mediação” que os “apóstolos”, “artistas gospel”, pastores, padres, e muitos figurões religiosos no bagunçado cristianismo brasileiro hoje dizem ter entre homens e Deus), então os protestantes gritavam Solus Christos (Somente Cristo é nosso Deus e mediador);

a IC ensinava que a Tradição Católica e a palavra dos padres, do papa, a tradição da Igreja Católica em si eram de igual importância na teoria, porém mais importantes na prática que a Bíblia para conhecer a Deus e ler a Bíblia era bom, mas não era suficiente (igual o discurso da maioria dos evangélicos que aparecem na TV, mas falando de si mesmos e de suas palavras), então os protestantes gritavam Sola Scriptura (pois a Bíblia é suficiente como guia para essa vida com Deus);

a IC ensinava que para conseguir bênçãos, você devia obedecer seus sacerdotes em tudo o que eles mandavam (nada diferente do cristianismo popular brasileiro, evangélico e católico, de hoje, né?), então eles gritavam Sola Gratia (porque sabiam que qualquer coisa que recebessem, era imerecido e pela graça);

a IC dizia que os padres, bispos e o papa deviam ser honrados com pompas, elogios, bajulações e com dinheiro porque eram homens de Deus (igual ao “honra o profeta” de muitos pregadores gospel de hoje), mas os protestantes gritavam Soli Deo Gloria (A Deus somente a glória – porque dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas).

Nessa época, havia discordância entre alguns pontos sobre o que a Bíblia ensina, principalmente a Ceia do Senhor. Existiam 3 pessoas mais famosas, que eram consideradas os líderes da Reforma Protestante, que eram Lutero, Calvino e Zwinglio. Os 3 discordavam sobre o que era a ceia. Um (Lutero) dizia que o corpo de Cristo era real na ceia, e chamava isso de “consubstanciação”, pois acreditava que havia pão, carne, vinho e sangue na eucaristia. Outro (Zwinglio) acreditava que era só um memorial, e outro (Calvino) acreditava que existia uma presença espiritual na ceia, mas nada se transformava durante a Eucaristia. Isso fez com que os grupos de protestantes se dividissem e fosse rotulados de Zwinglianos, Calvinistas e Luteranos.

Os luteranos eram na maioria alemães e também eram populares entre os nódicos; eles se organizaram, depois da morte de Lutero, e fundaram a Igreja Luterana em seus países, por causa do apelido que tinham ganho. Os Zwinglianos era mais espalhados pela Suiça e Europa e andavam bastante entre uma seita da época chamada anabatistas, mas muitos foram para a Igreja Anglicana e Reformada Holandesa e depois, misturado com calvinistas, anabatistas e outros grupos, formaram a Igreja Batista. Zwinglio ficou obscuro na História e os batistas nem reconhecem a herança do pensamento dele em sua doutrina sobre a ceia. Os calvinistas não gostavam de ser chamados de “calvinistas”, preferiam o apelido de “reformados” e montaram igrejas reformadas pela Europa, mas muitos deles também se uniram aos batistas, aos congregacionais e aos anglicanos, denominações com propostas diferentes em certos aspectos da teologia de Calvino, principalmente no assunto “liturgia” e “governo eclesiástico” (maneira de organizar a Igreja). Na Escócia, os calvinistas resolveram levar mais a sério o que Calvino dizia sobre a maneira de organizar a Igreja (se conseguiram ou não, você decide.. Hehe) e montaram a Igreja Presbiteriana.

Algum tempo depois, um calvinista chamado Tiago Armínio, não concordava com o que os protestantes diziam sobre o processo de salvação. Todos acreditavam na predestinação, mas Armínio dizia que não, que a pessoa deveria escolher ser salva e poderia perder a salvação. Anos mais tarde, um cara chamado John Wesley levou a sério essa idéia e os que concordavam com ele montaram a Igreja Metodista, declaradamente arminiana (acredita no Livre arbítrio), de onde vieram os pentecostais, que hoje são a maioria dos protestantes no mundo.

Os arminianos se espalharam em denominações históricas, como a Anglicana e a Batista e negam a doutrina da predestinação, que era acreditada pela maioria dos protestantes antes deles. Eles “xingam” quem acredita na predestinação de “calvinista”, ou seja, o apelido não é mais por causa da Ceia, mas por causa da crença na predestinação como processo de salvação e nas doutrinas da graça que os primeiros reformadores gritavam, conforme expliquei acima. Esse apelido pegou e nós não nos importamos mais com isso há séculos, mas muitos ainda se sentem incomodados, pois “calvinista” pode parecer que somos seguidores de Calvino, o que não é verdade, a maioria dos calvinista nem nunca sequer leu nada de Calvino, aprenderam sobre predestinação na Bíblia mesmo, assim como o rótulo “arminiano” é um “xingamento” por parte dos calvinistas para quem crê no livre-arbítrio (outro rótulo é o de “pelagiano”, mas aí é outra história), sendo que a maioria dos “arminianos” nem sabe que Armínio existiu..

Nós não somos seguidores de Calvino, apenas balançamos junto com ele a bandeira do Evangelho, como diria o batista calvinista Spurgeon.

É isso.. Desculpe o post longo, mas hoje tem tanto mal-entendido sobre calvinismo que resolvi me alongar um pouco e explicar direitinho.

Deus abençoe..

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