Algumas coisas são muito interessantes quando lemos com um certo cuidado o livro de Ezequiel capítulos 2, 3 e 4.

Nessa parte inicial do livro de Ezequiel, Deus chama seu profeta e dá uma série de revelações e profecias sobre o presente e o futuro de Israel, pátria desse profeta, e faz uma promessa para ele. Aqui é interessante nitar que foi uma promessa de “fracasso” no trabalho que Deus estava mandando que ele fizesse:

Cap 3:7 Mas a casa de Israel não te quererá dar ouvidos, porque não me querem dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel é de fronte obstinada e dura de coração.
8 Eis que fiz duro o teu rosto contra os seus rostos, e forte a tua fronte contra a sua fronte.

Que promessa estranha não? Nesse mundo pós-moderno hedonista onde o importante é “ser feliz” e se dar bem a qualquer preço; onde muitos procuram a Teologia da Prosperidade; e os que se dizem diferentes disso vão atrás das falsas “graças” que vendem ou distribuem para downloads gratuítos pela internet, ensinando que Jesus é um cara descolado, um “hippie paz e amor” que gosta de tudo, menos dos outros crentes “inferiores” (segundo o que insinuam) lá da prosperidade e dos “tradicionais” religiosos, numa rivalidade que não consigo entender, buscando a satisfação numa auto-afirmação maligna; que o Evangelho visa o bem estar humano e o “amor”, só que um amor fictício, onde tudo é só prazer e “mimos”, mais parecido com o amor da novela do que com o amor de Deus, que não nos poupa de amadurecer, mesmo que com o sofrimento. Ou seja, tudo hoje gira em torno do ser-humano e seu bem-estar, sua “felicidade”, inclusive a maior parte das teorias religiosas do evangelicalismo brasileiro. E Deus chega num profeta dEle, alguém que irá fazer o trabalho dEle e ainda promete “fracasso”? Coisa doida, não?

Ezequiel reagiu a isso como qualquer outro ser-humano reagiria: com tristeza de coração em receber uma missão tão dura desse jeito. E quando Deus mandou ele comer fezes, então? Ele clamou, se enojou, mas não teve jeito. Teve que comer para dar a profecia que o Senhor mandou ele entregar (Ez 4:12,14).

Bom, todos sabemos das dores e perseguições que Ezequiel sofreu, dos livramentos que Deus deu para ele e das penas que Deus não livrou. Mas em tudo ele glorificou ao Senhor e se mostrou grato, até mesmo pelo sofrimento.. E ainda cobrou essa gratidão do povo de Israel.

Essa mesma promessa que Deus fez a Ezequiel, Jesus fez a Sua Igreja:
Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. (João 16:33)

Jesus ainda disse que nEle é que temos paz, não nas circunstâncias desse mundo.

Bom, mas voltando ao assunto.. Alguns testemunhos e considerações atuais sobre esse assunto merecem consideração. Philip Yancey me apresentou ao pensador G.K. Chesterton, que considerava muito sobre um grande problema que temos na humanidade – O problema do prazer.

Chesterton considerava que já havia gente demais considerando sobre o problema do sofrimento, da dor, então ele considera o problema do prazer como uma saída para entendermos o problema da dor. Como diz aquela antigo hino luterano: “Deus nos dá a cada dia nossa porção suficiente de dor e prazer”. Mas ninguém quer dor, só quer o prazer, então todo mundo reclama com Deus pela dor e nem se lembra de agradecê-lo pelo prazer.

Será que uma das grandes causas de nossa intolerância em relação ao sofrimento não é a nossa estupidez na maneira como nos utilizamos das nossas porções diárias de prazer e dor?

Quanto ao prazer, não sabemos a hora de parar e queremos sempre mais, achando, mesmo que involuntariamente, que Deus nos deve isso. Afinal, não somos tão bonzinhos? E quanto a dor, nunca a vemos como disciplina, como ensino, como oportunidades nessa vida também, assim como o prazer, nem como presentes de Deus, mas queremos eliminar a dor de nosso meio, não só a nossa própria dor, mas a de quem amamos também, achando que assim estamos fazendo bem a pessoa, sem considerar que podemos estar tirando a oportunidade de superação, amadurecimento, reflexão, relacionamento com Deus (por que não?), aquisição de sabedoria através dessa dor, crescimento pessoal e vitória na vida dessa pessoa. Achamos o sofrimento algo cruel e uma ameaça a ser extirpada! Será que é assim mesmo que devemos pensar como cristãos que dizem servir a um Deus soberano sobre todas as coisas?

Você já teve a chance de ler o livro “O Peregrino”, de John Bunyan? Se não leu, pelo menos já ouviu falar, não é mesmo? Você sabia que John Bunyan escreveu esse livro dentro de uma prisão? Você se lembra que boa parte da Bíblia foi escrita em prisões, esconderijos, cavernas e refúgios em períodos de grande sofrimento para seus autores? Você se lembra que o Deus do cristianismo, o Messias que veio nos desvendar a Palavra do nosso Pai celestial e nos aproximar dEle sofreu enquanto viveu e terminou sua passagem pela Terra com muito sofrimento e morte? Então Ele triunfou sobre tudo e nos prometeu alegria eterna com Ele no céu. Mas Ele sofreu!

Muitos de vocês sabem que sou portador de Espondilite Anquilosante, uma doença degenerativa muito complicada que acaba com minhas articulações e provoca muita dor. Hoje entendo que até mesmo isso é porção de Deus para meu crescimento e dou glórias a Ele por me amar e se utilizar até mesmo disso para mostrar Seu amor por mim, me ajudando a superar gradualmente. Mesmo Ele tendo todo o poder para me curar de uma vez, Ele não faz assim, me ensinando a confiar nEle todos os dias para superar essa doença tão ruim e assim usá-la como oportunidade para confiar nEle em todas as áreas da vida..

Voltando ao John Bunyan, ele também sofreu muito. Ele tinha uma menina que era cega e isso ampliava muito o sofrimento dele por estar preso, apenas por pregar a Palavra de Deus sem a ordenação da Igreja estatal britânica (anglicana). Na cadeia ficou 12 anos. E assim ele escreveu:

Eu tenho, em poucas palavras, lidado com isto .. para mostrar que nossos sofrimentos são ordenados e preparados por Ele, para que vocês possam sempre, quando tiverem problemas por causa do seu nome, não cambalear ou ficar incertos, mas ficar controlados, calmos, quietos em sua mente, e digam, “Seja feita a vontade do Senhor”. Atos 21.14… Quão amavelmente o Senhor procede para conosco, quando escolhe afligir-nos por um pouco de tempo, para que, com bondade eterna, possa ter misericórdia de nós. Isaias 54.7-8. (John Bunyan, citado em “O Sorriso Escondido de Deus”, do John Piper)

Ouvi uma frase uma vez que resume bem a atitude correta diante de tudo isso: “Oro para que eu e outros possamos ir ao próprio enterro hoje: Morreremos para nós mesmos e para esse fracasso (como cristãos) que vivemos.”

Que o Senhor nos ajude, e Ele prometeu ajudar, e que creiamos nisso. Amém.

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