Este texto não é de minha autoria. É de um rapaz de velhos tempos de internet que sumiu, mas consegui resgatar nos meus arquivos este texto que ele deixou. O que ele escreveu retrata bem o avivamento que eu também vivi e foi protagonizado por uma igreja e que hoje se desfigurou totalmente do que já foi um dia, está totalmente irreconhecível.

Lembro da minha época de CMF – Christian Metal Force. Eu ficava encantado com a molecada amando Jesus e se abraçando em nome dEle. Góticos, Punks, Sinkinheads, Headbangers, Comunistas, Anarquistas, Capitalistas, todo mundo junto adorando a Jesus, colocando as diferenças abaixo do amor a Deus e ao próximo..
A gente era feliz e sabia..

Mas, como todo movimento humano, o neopentecostalismo também foi corrompido. É uma pena.

Tínhamos o movimento gospel, distorcemos. Tínhamos facilidade de pesquisar e aprender teologia e nos aprimorar em outras ciências, ficamos arrogantes. Temos as redes sociais para nos abençoarmos mutuamente, ficamos fúteis e agressivos.

O que merecemos diante de Deus? Recompensa é que não.
Ainda bem que Ele nos ama e é misericordioso e ainda se levanta sobre a Terra par anos abençoar e perdoar de toda a iniquidade pela fé.. Vamos ao texto:

Era uma vez um povo…

No começo eram quase revolucionários. Um povo feliz que, sem culpa, sabia que sua maneira de vestir, cantar ou falar, não implicava naquilo que era por dentro. Ser, valia mais do que ter. Ninguém se importava com os olhares, críticas e questionamentos moralistas que sempre vinham. O recado daquele povo era explicito: Seja feliz, sirva a Jesus com simplicidade, porque pra Ele, só importa o que você é… Ouviam uma fita cassete amarela que dizia na capa “O som que te faz girar”. Ao som dela, cantavam: “Ninguém pode comer vinte pratos por dia, ninguém pode dormir em vinte camas numa noite, tanta gente passando fome e a justiça pede sua cabeça…”. A mesma fita falava de viagem: ” …caminho profundo, viagem de oração”… Reuniam-se em uma galeria com tacos de madeira, ao som de bandas cheias de gente louca em todos os sentidos sendo que a principal loucura era a vontade incondicional de louvar a Deus. Cantavam! E cantavam muito“Ser humano, deixa de ser, sepulcro caiado“… Reuniam-se as segundas feiras e, por lá, via-se todos os estilos de gente: “Bleianas” com saião e cabelão, cabeludos tatuados, gente de grana e gente da periferia. Eram noites quentes e abafadas, mas abençoadas e verdadeiras. Quando o sujeito gordo de camisa florida ou jaqueta da Imprensa Gospel aparecia no palco, todos sentavam para ouvi-lo. Ele dizia que a maior viagem não eram as drogas, era se entregar para o doador da vida que os amava do jeito que eram.

Aquele povo era feliz… Livres, soltos, caminhando na mesma direção….

Mas um dia as coisas mudaram. Nas noites de segunda feira, já não se viam os mesmos loucos. Agora gente de terno chegava para ouvir os ensinamentos de como prosperar no “culto dos empresários”. Aos poucos os loucos foram indos embora… Simeon, Tchu, Túlio, Manga, Rod, um a um… O sujeito gordo de camisa florida trocou as camisas por ternos caros e deixou de ser o irmão mais velho da moçada… Agora é líder, cheio de seguranças e dinheiro e é chamado de “apóstolo”.

O povo feliz, já não era mais o mesmo…

Um por um iam embora. Os que ficavam viraram Bispos primazes. Sujeitos bem vestidos com carrões, cheios de arrogância e sentimento de superioridade. No lugar dos loucos que ouviam o “som que te faz girar“, gente em busca de prosperidade e bem estar. Sentiam-se abençoados porque seu líder fala sobre ser “cabeça”, lucrar, ganhar, chegar na frente…

Tudo mudou… Já não andavam mais livres, já não ouviam mais o som do vento…

O calor das noites quentes de segunda-feira cedeu espaço ao ar gelado do ar condicionado das reuniões de empresários.

O povo feliz, virou povo apostólico…

Hoje, esse povo fala em espada. “Jhony Jhony, essa noite Jhony pedirão a sua alma” já não se ouve mais esse refrão. A viagem de oração virou marcha na paulista. Os jovens de segunda feira viraram bispos endinheirados. O sujeito da camisa florida virou milionário, ficou foragido da policia. E o povo feliz?

Ah! O povo feliz…

…Esse se espalhou como areia. Frutificam por onde passam e sentem saudade de um tempo feliz. Olham para os dias de hoje com nostalgia e um pingo de esperança de que esse temporal lave a sujeira e traga arrependimento. Eles continuam na viagem de oração e pedem a Deus que o povo que os substituiu, o povo apostólico, não se perca depois que as escamas caírem. O líder deixou de ser o que era, e o povo que andava com ele não aceitou que fosse assim. Os que vieram depois compraram sem saber e hoje vivem na defensiva. Talvez aquele sujeito da camisa florida ainda exista. Talvez , enquanto se esconde, lembre de onde veio. Sinta o cheiro das segundas feiras e o calor daquelas noites quentes. Talvez lembre dos amigos e dos jovens loucos quem andavam com ele.

Ainda estamos aqui.

Acompanhando a distância e orando pra que, em algum lugar do caminho, ele volte e seja acolhido, não como um megalomaníaco apóstolo, mas como alguém que um dia foi tocado por Deus e se perdeu em sua própria loucura. Quem tem ouvidos que ouça…e ore.

Texto de Angenor… Postado em 2006, em uma comunidade do Orkut, na época em que o “apóstolo” citado no texto estava preso nos EUA e era considerado foragido no Brasil, ainda na esperança que aquela situação toda fizesse o “apóstolo” lembrar de onde veio e voltasse a ser apenas servo..

Anúncios