Jesus – o nosso Absoluto

 

O Absoluto por Baixo do Relativo, o título de um dos livros do Prof. Stanley Jaki é muito sugestivo. A fé evangélica apresenta vários exemplos. Cremos que a Bíblia, nos autógrafos originais, foi inspirada por Deus (2 Tim 3.16). Consequentemente confiamos na absoluta veracidade da Palavra, mas algumas interpretações de alguns textos não merecem mais do que uma confiança relativa. A compreensão varia de acordo com a visão do exegeta, bem como do contexto histórico. Dogmatismo acerca do relativo tem de ser encarado com suspeita.

Os reformadores corretamente questionaram a elevação a elevação da tradição eclesiástica acima da autoridade das Escrituras. Sola Scriptura! é o brado até hoje daqueles que crêem na palavra de Jesus (Mt 5.17-18). O absoluto tem de ser buscado, reconhecido e abraçado, tal como o Deus invisível e absoluto que criou o mundo visível e relativo, pode ser percebido por meio das coisas por Ele criadas (Rm 1.19-20. A ordem bíblica é para nós buscarmos o absoluto por meio do relativo.

O grão que tem de morrer para multiplicar infinitamente a vida relativa que desapareceu (Jo 12.24), também ilustra esta verdade. Sendo o grão relativo, morre, mas a nova vida por ele gerada não morre jamais. O absoluto emana do relativo em demonstração do absoluto contido no corpo humano, mortal de Jesus. Foi assim que o Senhor mandou os judeus destruir “este templo” e em três dias refazê-lo sem mãos em forma indestrutível (Jo 2.19).

O mesmo ocorre nas decisões e sofrimentos desta vida que produzem a glória sem fim da vida eterna. Nossa leve e momentânea tribulação produz o intocável peso da glória (2 Cor 4:17). Dentro do temporal e visível se produzem galardões de absoluto valor e infindável duração. Aí então estaria o valor do relativo nesta vida. Tudo que praticamos, construímos, tratamos e entregamos será aprovado ou rejeitado em função do absoluto. O fogo do julgamento destruirá o relativo e o absoluto permanecerá (1 Cor 3:13-15). O autor de hebreus apresenta a mesma visão escatológica… “Ainda uma vez por todas farei abalar não só a Terra, mas também o céu. Ora esta palavra: Ainda uma vez por todas significa a remoção das coisas abaladas como tinham sido feitas, para as coisas que são permaneçam” (Heb 12:27)

Fazemos um lembrete: o relativo tende a ficar absoluto na ausência da revelação da Palavra de Deus. O vazio continua, mesmo nas mais conceituadas cátedras da sabedoria humana. Só quem experimenta a paz de Deus, como Agostinho, reconhecerá o absoluto por baixo do relativo. “O homem vive inquieto até descobrir em Deus o seu descanso”. Assim, a paz de Deus que excede todo o entendimento guarda o coração daquele que radicado no absoluto pela fé, convive com o relativo e todos os problemas que este último traz.

[…] Isto significa, portanto, que há muitas crenças e ensinamentos que não são heréticos; não pertencem ao fundamento absoluto, e sim ao relativo.

Defender a fé não quer dizer procurar marginalizar crentes que solidamente mantêm a convicção do absoluto, mas diferem em suas interpretações do e opiniões de textos e ensinamentos que não são essenciais à salvação. Heresia separar cristãos de não cristãos e regenerados dos que ainda não nasceram de novo. Paulo acusou os falsos mestres que perturbaram as igrejas da Galáxia de propagarem outro Evangelho (Gal 1:8-10). Não era possível encaixá-los no absoluto. Certamente o apóstolo não teria de ser considerado relativo (adiaphora – isto é, não pertencer ao cerne essencial da fé). Sempre devemos ficar claros em nosso posicionamento doutrinário, distinguindo cuidadosamente o absoluto do relativo.

Texto por Russel Shed, originalmente publicado na revista Defesa da Fé

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