Não devemos inventar regras, interpretando mal a Palavra de Deus.
Não devemos inventar regras, interpretando mal a Palavra de Deus.

Corbã?! Sim, Corbã. É uma palavra incrustada no texto de Marcos 7.11, explicada como sendo “oferta para o Senhor”. Mas o que era Corbã?

O que é Corbã?

1. Palavra antiga para coisa nova, ou seja, uma tradição que toma o lugar da palavra de Deus. Corbã é um termo antigo, que ocorre no Antigo Testamento. É o termo mais generalizado e vago para sacrifício. O equivalente português é oferta. O termo ocorre principalmente nos primeiros sete capítulos de Levítico e no livro de Números. Só que, no tempo de Jesus, veio a ser algo um tanto diferente.

Era uma fórmula de voto ou promessa, em que se oferecia algo a Deus. Este algo ou alguém era, por assim dizer, hipotecado ou transferido para Deus e não podia ser usado ou possuído por ninguém senão o próprio Deus. No fundo, essa questão do Corbã era parte da lei oral, descrita por Jesus como “tradição dos anciãos” (v.5), “tradição dos homens”(v.8), “vossa própria tradição” (v.9), palavra de homens (“vós dizeis”, v.11).

Jesus combate a teologia do Corbã, que consiste em fazer acréscimos à palavra de Deus e que resulta em anulação da palavra de Deus, com uma passagem do profeta Isaías (v.6). Aqui Isaías, como de resto os demais profetas, aparece como defensor da aliança. Como se isso não bastasse, Jesus fala do “mandamento de Deus” (v.8), afirma que “Moisés disse” (v.10), e contrapõe a palavra de Deus (v.13) ao que os homens dizem.

Jesus se opôs ao Corbã, em defesa do mandamento de Deus. Poderíamos dizer que Jesus saiu em defesa da lei de Deus. A mesma defesa se torna necessária em termos da outra parte ou metade da revelação de Deus, qual seja, o evangelho. Só que agora o acréscimo não vem da tradição judaica, mas da tradição cristã. Sempre de novo se quer acrescentar um “Corbã”, uma oferta ao Senhor, à oferta suficiente  e definitiva de Jesus. Minha índole é colocar o meu corbã, algo que eu faço, em lugar do Corbã de Cristo, a oferta que ele fez uma vez por todas por todos os pecados.

Portanto, qualquer “corbã”, qualquer  tentativa ou ato de ir além da revelação de Deus em lei e evangelho cai sob a condenação de Deus, anunciada por Isaías e repetida por Cristo: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens”.

2. Corbã é também uma palavra nova (aos nossos ouvidos, ao menos) para uma coisa antiga (tão antiga quanto o Éden): colocar o que nós dizemos como desculpa para não fazer o que Deus quer que seja feito.

No tempo de Jesus, um filho podia rasgar o quarto mandamento (aquele do “honra a teu pai e tua mãe”) alegando que tinha dito “Corbã”. Em outras palavras: os bens ou o dinheiro que eu precisaria para te honrar, isto é, cuidar de ti na tua velhice, estão empenhados. Eu fiz Corbã, isto é, eu os transferi ou hipotequei a Deus. “Sinto muito, fiz meu voto, não posso quebrá-lo, não posso defraudar a Deus. Sei que existe o quarto mandamento, mas que posso fazer, ele que se dane, fiz corbã!”

Existem paralelos, ou, ao menos, possibilidades de situações semelhantes também em nossa vida. Em nossa realidade a questão do corbã pode aparecer na forma de uma imunidade teológica ou eclesiástica. A gente poderia falar da isenção de impostos de que desfrutam as congregações, da dispensa de serviço militar que favorece os ministros de confissão religiosa. A gente poderia falar dos pastores que não ofertam por entenderem que toda sua vida é uma oferta ao Senhor. A gente poderia falar daqueles e daquelas que, alegando serviço ao Senhor, se esquecem de que são pai ou mãe, esposa ou esposo. Mas hoje eu quero entrar na discussão do voto na mordomia da oferta, já que o termo oferta traduz corbã.

Antes de mais nada é preciso dizer que não há nada de errado em se fazer um voto de oferta, desde que se saiba o que se está fazendo e o que não se está fazendo, e desde que não se queira impor isto a todos como se fosse a síntese da lei de Deus. Agora, existe o perigo, em toda essa questão do voto, de colocar o Corbã, o voto que eu fiz, acima do mandamento de Deus. Por exemplo: Se minha mãe precisa de uma ajuda extraordinária, mas dez por cento de meu minguado salário (e quanto menor o salário, mais representam aqueles dez por cento) estão comprometidos num voto de oferta, sou tentado a dizer: “Sinto muito, minha mãe, voto é voto. O quarto mandamento que espere!” Isto seria exatamente o que ocorria no tempo de Jesus. Querendo fugir do pecado da quebra do voto, a pessoa incorreria no pecado maior de quebrar o mandamento de Deus. Um exemplo análogo seria dizer: “Votei a Deus ofertar regularmente 7% de tudo que ganho”. Nada mal. Agora, se isto implica pensar que vida cristã se resume nisto e que o mandamento do amor ao próximo fica anestesiado, tal atitude merece a mesma censura que Cristo fez ao Corbã dos judeus.

Corbã. Corbã? Mil vezes não, se isto significa algo que toma o lugar da palavra de Deus em lei e evangelho.

Corbã.  Corbã? Mil vezes não, se isto serve como desculpa para deixar de fazer a vontade de Deus.

Corbã? Na verdade, a mentalidade por trás disso está impregnada em meu ser. Não consigo me ver livre da tentação de “corbanar”. E só tem uma saída: Reconhecer que sou assim, confessar que este é o meu mal, e recorrer ao verdadeiro korbãn, o único e definitivo sacrifício de Jesus.

Vilson Scholz

Fonte: Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB)

Anúncios