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Os novos legalistas tem se disseminado ultimamente e causado muita confusão. Pensando nisso, segue um estudo feito pelo Pastor Flávio L. Hörlle sobre os usos legítimos da Lei de Deus, conforme nos apresentdo por Martinho Lutero, para evitar algumas confusões sobre o assunto:

Usos da Lei

Ao dar a Lei no Sinai, de forma nenhuma foi propósito de Deus que o homem alcançasse e pudesse conseguir a salvação pelo cumprimento da lei. Temos, porém, três usos da lei.

a) Primeiro Uso da Lei
Este é o uso mais comum, acessível a todos, pois é a aplicação da lei natural ao convívio social humano. Por esta razão, é chamado de uso político, pois atende à vida social na polis, a cidade ou sociedade organizada. Como é o uso que evita a bagunça, o caos, alguns gostam de chamá-lo de freio. Dessa maneira a lei natural funciona na consciência dos homens, que muitas vezes deixam de praticar o mal por medo de punição, conforme Romanos 13.3: Somente os que fazem o mal devem ter medo dos governantes, e não os que fazem o bem. Se você não quiser ter medo das autoridades, então faça o que é bom, e elas o elogiarão.

(Um parêntese no texto: Lembrando que esse parágrafo fala da Lei de Deus, registrada nas Escrituras também, mas escrita naturalmente no ser humano (Rom 2:14,15), não está falando da parte jurídica da Torah, como erradamente defendem alguns que deveríamos cumprir a Lei judicial de Israel entre cristãos e exigir ao Estado a vigência e cumprimento dessa Lei Civil. Sobre isso a Fórmula de Concórdia das Igrejas Luteranas atesta:

“Sobre a destruição entre o reino de Cristo e de um reino político já foi bastante explicado [para o consolo extraordinariamente grande de muitas consciências] na literatura de nossos escritores, [ou seja], que o reino de Cristo é espiritual [na medida em que governa Cristo, pela Palavra e pela pregação], a saber, a partir do coração do conhecimento de Deus, o temor de Deus e da fé, a justiça eterna, e a vida eterna, enquanto isso permite-nos exteriormente usar legítimas ordenanças políticos de todas as nações que vivemos, assim como nos permite usar a medicina ou a arte de construir, ou comida, bebida, ar. O Evangelho não veio trazer novas leis sobre o estado civil, mas ordena que obedeçamos as leis atuais, se eles foram enquadrados por pagãos ou por outros, e que nesta obediência devemos exercitar o amor. É louco [quem queira] impor sobre nós as leis judiciais de Moisés.” – Artigo XVI: Da Ordem Política)

b) Segundo Uso da Lei
Este tem por função completar a Lei natural, é o uso próprio, principal, espiritual ou teológico da Lei. Sua finalidade é operar o conhecimento do pecado e pesar por causa dele. Quer quebrar no homem aquela auto-suficiência, aquela auto-justiça, aquele orgulho diante de Deus que se vangloria e confia nos próprios méritos, e despreza todas as ofertas de graça. Destina-se a humilhar o homem diante de Deus e encher-lhe o coração de terror e pânico – Rm 3.19: Nós sabemos que tudo o que a lei diz é dito para os que vivem debaixo da lei. Isso a fim de que todos parem de se justificar e a fim de que todas as pessoas do mundo fiquem debaixo do julgamento de Deus; (Dn 9.10-11). Este uso também é chamado de espelho, pelo qual o homem pode ter a clara noção de sua situação perante Deus. A Lei aqui tem uma função acusatória.
Por outro lado, o 2o. uso da Lei também tem uma função pedagógica, quando Deus mostra e ensina para a pessoa que dentro dela não há recursos para resolver o problema da Lei, a única solução é confiar em Deus que através de Cristo resolve este problema da Lei, ou seja, neste uso, a Lei faz com que compreendamos nossa condição de perdidos e a necessidade de um Redentor – Rm 7.24 e 25: Como sou infeliz! Quem me livrará deste corpo que me leva para a morte? Que Deus seja louvado, pois ele fará isso por meio do nosso Senhor Jesus Cristo!

c) Terceiro Uso da Lei
A Lei agora nos serve de guia ou norma para a vida. O cristão regenerado pela fé em Cristo, está livre da servidão da Lei- Rm 6.14. Esta é a nova obediência nascida da fé, a livre obediência de um filho que ama, não a obediência forçada de um escravo – Rm 12. 1 e 2: Portanto, meus irmãos, por causa da grande misericórdia divina, peço que vocês se ofereçam completamente a Deus como um sacrifício vivo, dedicado ao seu serviço e agradável a ele. Esta é a verdadeira adoração que vocês devem oferecer a Deus. 2Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele; (Mq 6.8; Sl 119.9).
É chamado de uso didático, pois ensina e mostra como servir a Deus e ao próximo.
Na explicação dos Dez Mandamentos, Lutero ressaltou que a Lei escrita era, antes de mais nada, uma Lei para o povo de Deus. Logo, entendeu a Lei escrita no seu 3o uso para os filhos de Deus. Isso fica claro na forma em que explicou os mandamentos. Inicia todos com o pressuposto do povo de Deus: “devemos temer e amar a Deus”. Além do mais Lutero vê na lei oportunidades para o cristão servir em amor a Deus, quando fala do 5o. Mandamento, não fica apenas no não matar, mas que devemos ajudar o próximo e ser-lhe úteis “em todas as necessidades corporais”.

Lei e Evangelho
De uma forma bem simples, Lei são todas as partes da Bíblia que falam a respeito dos nossos pecados, que nos acusam e nos mostram como devemos viver. E, Evangelho são as partes que falam a respeito da obra de Cristo em nosso favor, ou seja, é a boa notícia da parte de Deus que em Cristo temos perdão e salvação. Por um lado a Bíblia afirma que nós somos pecadores perdidos e condenados ao inferno, e por outro lado ela também afirma que Cristo nos salva.
Ex 20.3ss. – Não adore outros deuses; adore somente a mim… (o que Deus quer e o que ele não quer).
Jo 3.16 – Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna.
Numa boa mensagem, estudo ou pregação deve haver Lei para mostrar “a ferida” e Evangelho, para apontar para Cristo, “a cura”.

PRIMEIRO MANDAMENTO: EU SOU O SENHOR, TEU DEUS. NÃO TERÁS OUTROS DEUSES DIANTE DE MIM.
Lutero no Catecismo Menor dá uma explicação muito simples ao 1o. Mandamento: “Devemos temer e amar a Deus e confiar nele acima de todas as coisas”. Mas o que seria este confiar? O próprio Lutero responde no Catecismo Maior: “Aquilo a que prendes o coração e te confias, isso, digo, é propriamente o teu Deus”. (Livro de concórdia, p.395.4)
Há a necessidade de identificação deste Deus, Lutero escreveu no apêndice ao 1o. Mandamento: “É da máxima importância que o homem tenha a cabeça certa”. Ter a cabeça certa é ter o Senhor correto. Para isso, o 1o. Mandamento exige a fé e inicia como a lei fundamental da aliança de Deus. “Eu sou teu Deus. Tu és o meu povo”. O Pai Nosso identifica esse Deus que é confessado no Credo. Toda outra identificação cria ídolos da imaginação humana que Deus proíbe no 1o. Mandamento.
Quando Deus diz, no 1o. Mandamento, “Não terás outros deuses” não quer dizer que “estes outros deuses”existam na realidade. O que Deus afirma é que “Eu sou teu Deus”, e “não há outro”- Is 45.22.

Lutero também nos dá uma espécie de teste para vermos se estamos realmente apegados a Deus de todo o coração, ele diz: “Descobrirás então se te apegas ou não com Deus apenas. Se tens um coração que é capaz de esperar somente coisas boas de Deus, especialmente em aflições e penúria, e que, a mais disso, sabes renunciar e abandonar tudo o que não é Deus, então tens o único e verdadeiro Deus”. (LC, p. 398, 28)
Este é o maior e o mais importante dos Mandamentos, porque em tese quem consegue cumprir o que diz este Mandamento, irá cumprir todos os demais.

Deus pede que não adoremos ídolos e imagens – Is 42.8: Eu sou o Senhor: este é o meu nome, e não permito que as imagens recebam o louvor que somente eu mereço; Mt 4.10: Jesus respondeu: – Vá embora, Satanás! As Escrituras Sagradas afirmam: “Adore o Senhor, seu Deus, e sirva somente a ele., mas também não admite que demos mais importância ao dinheiro – 1 Tm 6.9-10: Porém os que querem ficar ricos caem em pecado, ao serem tentados, e ficam presos na armadilha de muitos desejos tolos, que fazem mal e levam as pessoas a se afundarem na desgraça e na destruição. 10Pois o amor ao dinheiro é uma fonte de todos os tipos de males. E algumas pessoas, por quererem tanto ter dinheiro, se desviaram da fé e encheram a sua vida de sofrimentos; à família – Mt 10.37: Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que ama a mim não merece ser meu seguidor. Quem ama o seu filho ou a sua filha mais do que ama a mim não merece ser meu seguidor; ao lar, ao emprego, etc., do que a Ele. Deus quer ocupar o primeiro lugar em nossas vidas e corações, logo pecamos contra este Mandamento quando não damos em nossa vida o valor que Deus merece. Deus quer que tenhamos compromisso exclusivo com Ele; e que o amemos, nele confiemos e creiamos acima de todas as coisas.

Quando pensamos em confiar, vale ainda lembrar de objetos, rituais (entrar com o pé direito, não passar embaixo de escada, etc), horóscopos ou qualquer outra coisa em que a pessoa pode depositar sua confiança, tornando-se assim uma espécie de ídolo também.
Por que o 1o. Mandamento pode ser considerado o mais importante de todos?
Mt 22.37 – “Ame o Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma e com toda a mente.”

É isso. A Lei não deve ser instrumento de acusação entre cristãos, quem usa a Lei de Deus para acusar é o diabo. Nosso uso deve se limitar aos apontados acima.

Ainda sobre alguns calvinistas radicais que misturam política com teologia de maneira perversa e que querem usar o Estado para impor a Lei de Deus, o escritor luterano Paulo W. Buss argumenta:
“Para Lutero, Deus governa o mundo todo e o faz de duas maneiras. Ele governa o reino da mão esquerda por meio da lei e do governo secular, e o reino da mão direita por meio do Evangelho e da graça. Estes dois reinos ou governos não estão separados mas devem ser claramente distinguidos, ou seja, não se deve querer empregar os meios de governo de um domínio no outro.. Ao não fazerem a distinção entre os dois reinos, têm transformado o evangelho em lei (os reformados legalistas). Robert Benne percebe três vantagens principais na posição luterana:

Primeiro, uma vez que a função da igreja é de pregar lei e evangelho, ela produz um cristianismo onde somos ao mesmo tempo santos e pecadores e, portanto, capazes de sermos auto-críticos numa maneira não permitida pelo conceito calvinista [legalista]..
Segundo, ela leva a sério o fato de que a igreja e a autoridade civil são meios pelos quais Deus lida com o pecado. Tanto a coerção do do estado e a livre oferta da graça são meios necessários para tratar com uma criação em revolta.
Terceiro, ela permite que os cristãos discordem entre si no domínio temporal sobre problemas concretos, enquanto permanecem unidos na fé (Apud Kilcrease, 2005, 68).”

É isso. Vamos fugir do legalismo..

Deus abençoe.

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