Autor: P. Valdemar Gaede

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“A lei revela a enfermidade, o evangelho é que fornece o remédio” (Martim Lutero)

Já ouvi, algumas vezes, uma pessoa fazendo a seguinte pergunta para outra: “Você é de que lei?”. Num primeiro momento não consegui entender o que esta pessoa estava querendo saber. Só entendi quando veio a resposta: “Eu sou da igreja x”. Levei um grande susto. “De que lei você é?”. A referida pessoa queria, com isto, perguntar: “De que Igreja você faz parte? Qual a religião que você professa?”. A pergunta feita daquele jeito realmente deveria nos assustar. Pois Igreja Cristã não é um conjunto de leis, de regras ou de normas. Da mesma forma, doutrina cristã não é um emaranhado de preceitos, de exigências ou de imposições. Infelizmente confunde-se doutrina com lei ou lei com doutrina.

Acha-se que uma determinada denominação religiosa que impõe a seus fiéis muitas regras a serem cumpridas, muitas exigências, muitas obrigações, tem uma “doutrina forte”. Confunde-se doutrina com lei. Segundo esta mesma concepção, uma Igreja que não coloca acima de tudo a lei é uma Igreja sem doutrina ou de doutrina fraca. Isto é uma compreensão totalmente errada de Igreja ou de doutrina. Doutrina ou Igreja não são sinônimos de lei.

O texto bíblico de Romanos 3.19-28 deixa bem claro que acima de tudo, na Igreja Cristã, está a graça de Deus: “Deus já mostrou a maneira como aceita as pessoas, e esta aceitação não tem nada a ver com lei […]. Mas Deus, pela sua graça e sem exigir nada, as aceita por meio de Cristo Jesus”. De maneira que “doutrina boa” tem aquela Igreja que proclama a graça divina e que vive sob a graça divina.

Não rejeitamos a lei, não desprezamos a lei. Nem o apóstolo Paulo e nem Jesus desprezaram a lei. Pelo contrário: a lei está aí para nos ajudar, para nos mostrar o caminho, para revelar a nossa enfermidade diante de Deus e para defender a nossa própria vida e a vida das outras pessoas. A lei está aí para nos mostrar que todos somos pecadores e que o arrependimento deve fazer parte do nosso dia-a- dia. Mas não podemos colocar a lei como meio para alcançarmos a salvação. Pois só a graça de Deus pode nos salvar: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8).

Colocar como prioridade a graça divina não faz de nós gente descompromissada, acomodada, passiva ou sem responsabilidade. Pelo contrário: o fato de podermos nos colocar inteiramente nas mãos graciosas de Deus, desperta em nossa vida muita gratidão. E essa gratidão vai se traduzir em compromisso com a vontade de Deus, em responsabilidade com a vida, em serviço de amor ao próximo, e amor a Deus acima de todas as coisas. Isto é uma conseqüência evidente e natural. Não podia ser diferente.

Pois imaginem o seguinte exemplo: Você quer ter amizade com uma pessoa. Seu desejo é que esta pessoa admire você, seja responsável em relação a você, tenha compromissos com você e lhe dê amor e carinho. Não adianta você estabelecer leis, regras, obrigações ou imposições para que esta amizade aconteça. Não adianta você obrigar a outra pessoa a ser sua amiga. De uma atitude assim nada nascerá de bom. Mas nem por isso você precisa deixar de acreditar numa possível amizade com essa pessoa. E isto poderá acontecer se você amá-la, considerá-la, admirá-la e aceitá-la. Disto, sim, pode nascer uma boa amizade.

Da mesma forma procede Deus: Ele não impõe que nós o amemos. Ele não age na base da obrigação. Ele simplesmente tomou a decisão de nos amar, de nos querer bem, de nos aceitar por graça e por bondade. Graças a esse amor incondicional de Deus por nós é que nasceu esta bonita história entre nós e Deus: nós o adoramos e o amamos, nós o reconhecemos como Senhor, nós seguimos de boa vontade os seus ensinamentos, nós nos colocamos com toda a confiança em suas mãos.

Esta é a “boa” e “forte” doutrina da Igreja Cristã: a proclamação do amor de Deus por nós; o anúncio de sua graça incondicional.

A lei, quando é colocada acima de tudo, gera coisas como falsidade, sectarismo, arrogância, exclusão. A graça de Deus, quando proclamada conforme os ensinamentos da Escritura Sagrada, desperta sinceridade, responsabilidade, compromisso com a vida, amor a Deus e amor ao próximo.

Fonte: Portal Luteranos

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