rosa lutero solas

Neste texto abaixo eu tento fazer um resumão de como foi a reforma Protestante e a diferença entre as “reformas” que aconteceram na época e posteriormente.

Deus abençoe. Boa leitura.

As Diferentes Reformas

A Reforma Protestante se deu de maneiras diferentes, dependendo das regiões onde elas aconteceram.

Entre os reformadores vemos muitas coisas contraditórias e apontadas como erros por muitos, mesmo com o imenso esforço deles de proporem suas idéias e ações dentro do Sola Sciptura (Somente a Escritura). Isso só mostra que o tesouro de Deus é colocado em vasos de barro. Os reformadores, assim como nós, foram homens falhos trabalhando entre homens falhos, a glória da Reforma Protestante é toda de Deus, não dos reformadores..

Pré-Reforma

Só lembrando que o movimento da Reforma já vinha desde pouco após a consolidação do cisma do cristianismo do ocidente com o do oriente, quando distorções na teologia cristã ocidental começaram a se consolidar entre o clero e o povo, por isso vários movimentos e personalidades destacadas passaram a buscar uma Reforma moral e teológica na Igreja, movimentos como os paulícios, valdenses, nomes como São Francisco de Assis, Jan Huss, Savonarola, e vários grupos dentro da Igreja Ocidental que não gostavam das coisas que aconteciam na Igreja Católica, porque iam contra as Escrituras

A Igreja Católica, então, proibiu aos leigos o acesso às escrituras, proibiu a tradução da Bíblia, sob a desculpa de preservar o sentido original das escrituras e ela poder ser interpretada somnte por cléricos da Igreja, mas isso acabou sendo também um trabalho para “freiar” esses movimentos reformistas, porém muitos padres e bispos não concordavam com isso, mas lutavam por essa Reforma. Não queriam sair da Igreja, não queriam fundar uma nova religião, só reformar mesmo o que estava errado..

Em cada região as pessoas tinham aspirações diferentes para reformar na igreja, por isso houve essa divisão entre luteranismo, anabatistas, calvinismo, puritanismo e anglicanismo..

Lutero fixou as teses e foi o estopim do clima que já estava rolando. É como hoje com o pessoal que não aguenta mais a corrupção no Brasil, se alguma coisa aqui acontecer que seja favorável ao povo que grita contra isso, protestar e lutar por mudanças, contra a corrupção, o povo vai se animar, um movimento irá se consolidar e trazer mudanças para o país (só temos que orar e torcer para que essas mudanças sejam positivas)..

Na época era a mesma coisa. Muita gente via que o que a Igreja Católica fazia era errado, mas não tinha fé que algo pudesse mudar isso, fora o medo de ser morto, caso protestassem, por isso eram poucos os que se atreviam a questionar a Igreja..

Quando Lutero protestou contra a venda de indulgências com as suas 95 teses, muita gente se sentiu “representada” por esses teses e ergueu a voz para reclamar da Igreja. Como a área em que Lutero se encontrava estava vivendo uma turbulência política, com o povo, nobres, príncipes e imperador com certas discordâncias entre si, os nobres não queriam punir o povo por questionar a Igreja, autoridade máxima na época e que tomava decisões políticas unilaterais que desagradavam o povo alemão e decisões teológicas que incomodavam os cristãos de uma maneira geral, porque eles mesmos também estavam insatisfeitos com a Igreja..

Nessa época, na região da Alemanha, Polônia, Croácia, França, Itália e Suiça, existiam vários movimentos que questionavam a Igreja, como os valdenses, que depois vieram a ser calvinistas quando aconteceu a Reforma, mas a Igreja Valdense existe desde 1217, bem antes da Reforma..

Reforma Luterana

Com esse clima de insatisfação e reclamações, que ficou bem quente com o protesto de Lutero com as teses, o povo começou a protestar contra a igreja, a fazer manifestações contra a igreja e aproveitaram o clima para bradar suas insatisfações políticas também.. Esses movimentos eram desarticulados, eram desunidos, eles clamavam de Lutero uma posição dele sobre as coisas, Lutero não queria ser um líder político, por isso variou em seus posicionamentos políticos durante sua vida, ele dizia que Igreja e Estado tinham papéis diferentes, a Igreja era o “Reino da Mão Direita” e o Estado era o “Reino da mão Esquerda” e por isso os que cuidavam dos assuntos religiosos não deveriam se aplicar a gerenciar as decisões dos que cuidavam dos assuntos do Estado e vice versa, por isso se absteve de pretender ser um líder político durante a reforma, só analisou teologicamente as questões de sua época mesmo, buscando auxiliar o povo e os políticos a pensar com as Escrituras a sua atuação civil, mas sem pedir que a Reforma fosse um movimento político, como fizeram os anabatistas na mesma época, separando as questões teológicas das questões políticas, dizendo que uma questão poderia analisar e estar em harmonia com a outra, mas nunca se fundirem. Lutero declarou ao Papa, sobre a “teocracia” que a Igreja Católica exercia:

Eu não posso aguentar o fardo de leis baseadas em interpretações da Palavra de Deus, já que a Palavra de Deus, que ensina a Liberdade acima de todas as coisas, diz para que eu não me deixe dominar..

– Martim Luther (Concerning Christian Liberty)

Então Lutero se preocupou mais com as questões teológicas do que políticas, porém sua preocupação atingiu as questões sociais e Lutero tecia muitos comentários sobre política e sociedade em seus escritos, mas assim como Lutero não pretendia ser um reformador político, seus comentários políticos não serviram como base para propostas reformistas dos luteranos, que consolidaram o que é luteranismo no século 16 através do Livro de Concórdia, que é um compêndio de confissões, artigos, catecismos e a fórmula de Concórdia que afirmavam a fé Luterana e negava os pontos dos católicos romanos, anabatistas, zuinglianos, calvinistas e entusiastas (grupos que aproveitaram a liberdade da Reforma para criar seitas e movimentos que nada tinham a ver com a Reforma) que os luteranos não concordavam.

As propostas de Lutero se focavam no retorno da Igreja Cristã ao ensino bíblico de justificação e perdão dos pecados pel graça por meio da fé somente, sem obras; na Liberdade Cristã do crente que deveria ser livre das imposições de doutrinas e costumes dos homens, agindo para o bem em liberdade, não por medo ou coação; no Sacerdócio Universal dos cristãos no ofício das chaves, que poderiam ensinar, edificar e consolar uns aos outros com as palavras do Evangelho, bem como repreender e alertar com o ensino da Lei de Deus e da Escritura como autoridade maior para a fé e a prática do cristão, ao invés da autoridade do Papa, de pregadores, de concílios, dos pais da Igreja e qualquer outro homem, que deveriam servir só como consulta, mas sempre estando sob o julgamento das Escrituras. Isso incomodou bastante o clero romano, que o excomungou e o convocou para reuniões aonde ele poderia ser até condenado à morte, como foram vários outros reformistas antes dele.

A perseguição ficou complicada para Lutero e ele teve que se refugiar numa torre, onde ele traduziu a bíblia para o alemão, ele teve que usar pseudônimo e todo mundo pensava que ele tinha morrido. Nessa época houveram guerras de luteranos radicais, ligados a Karlstadt, que dizia que as leis políticas deveriam ser inspiradas nas leis de Moisés, e que as igrejas não deveriam ter nenhuma obra de arte que fosse alguma representação de Jesus, Deus, dos profetas ou anjos, para não haver idolatria e ele incitou camponeses a uma rebeldia civil para que as leis do Estado seguissem novas leis civis baseadas em interpretações particulares da Lei Mosaica, ou seja, Karlstadt queria levar a cabo uma Reforma Política à sua maneira e incitou o povo a invadir as igrejas e destruir imagens, painéis e vitrais com imagens de Jesus, Deus e dos Santos mortos, todos estes pontos de Karlstadt eram contra a Reforma que estava sendo feita e a proposta dos pré-reformadores, como também, segundo Lutero, não encontrava respaldo bíblico nem histórico para tal. O Livro de Concórdia condena este pensamento de Karlstadt sobre a Lei Civil vigente ser reposta por uma “teocracia” à força e a iconoclastia de Karlstadt.

Lutero, quando ficou sabendo disso, saiu do esconderijo, chamou os luteranos que estavam mais com as Escrituras do que com o legalismo e pediu providências contra este legalismo extremo, chamando Karlstadt para uma conversa e disciplinando seu amigo, pedindo que os padres e teólogos (que na Igreja Luterana vieram a ser chamados de pastores) orientassem o povo contra essas idéias e contra os anarquistas, que também defendiam uma Revolução política, uma “teocracia” à maneira deles (conforme veremos mais adiante) a voltarem atrás sobre a posição a favor de uma “teocracia” civil, afirmando a teocracia cristã, o reino da Mão Direita, é apenas espiritual, que Deus já tem o domínio do reino da mão Esquerda, o domínio político do mundo, e não era o ideal da reforma uma revolução política.

Reforma Zuingliana 

Na Suiça, próximo à Alemanha, a ousadia de Lutero ecoou e um padre resolveu aproveitar o clima para aplicar a reforma por lá também, era o padre Huldrych Zwingli (Ulrico Zuinglio).

Lutero tinha mais contato com o “povão” e queria fazer uma reforma onde o povão fosse beneficiado, ele queria trabalhar em cima da diferença de classes sociais da época, fazer com que todos tivessem acesso à boa educação, à leitura, para conhecer a Bíblia, que todos seguissem a doutrina bíblica, que acabassem os privilégios dos clérigos e nobres em detrimento do povão, mas todos pudessem conhecer a Deus e segui-lo diretamente.. Lutero não era contra aquilo que a Igreja Católica tinha de legado e tradição, que não fosse contra a Palavra de Deus, ele dizia que o legado histórico da igreja Ocidental e Oriental eram muito importantes, elementos como as imagens, desde que tidas como obras de arte, as partes não idólatras da Liturgia, a música, as danças, as festas dos santos e as festas seculares, enfim, os elementos culturais em geral que tornavam o entendimento da mensagem das Escrituras pelo povo muito mais fácil ou que proviam entretenimento saudável para o povo sofrido, não deveriam ser extinguidos, mas o pensamento de Lutero era que se deveria acabar a idolatria e o legalismo, que todos deveriam ter acessos às escrituras, à fé e receber da graça de Deus, por isso ele resumiu o protesto dele nos pontos: Sola Gratia, Sola Fide e Sola Scriptura. Mas ele só queria reformar, fazer a Igreja Ocidental voltar ao que ensinava no primeiro milênio de sua existência, ensinamentos estes baseados somente nas Escrituras.

Zuínglio era mais político e humanista, negava certas implicações da doutrina do pecado original, acreditava que o homem poderia alcançar benefícios e recompensas de Deus ao seguir a Lei, independente da graça, e por isso queria que a Lei de Deus fosse interpretada de forma que fosse aplicada à vida civil do povo. Ele queria uma reforma que atendesse também aos interesses do povo suíço, que mudasse a Igreja Suíça para o que os suíços achavam como mais apropriado, libertar os Suíços dos desmandos e explorações de Roma. Apesar de concordar com Lutero de que a Igreja deveria retomar a doutrina de justificação somente pela fé, sem obras, Zuínglio se distancia de Lutero ao frisar na soberania divina e no papel da Lei de Deus, além de uma Cristologia mais docetista e diferente da Reforma Luterana, as propostas de Zuínglio para modificar as doutrinas na Reforma Suíça se estenderam a outros pontos e o distanciou de Lutero, o que mais impactou o protestantismo na Reforma Zuingliana foi a visão sobre a Santa Ceia, que foi a principal causa de separação entre os luteranos e os reformados e demais evangélicos, ele queria mudar a santa ceia, principalmente em negar a presença real de Cristo e transformar o sacramento em simbolismo. E esta visão dele é a que a maioria dos evangélicos aderiram.

Ele tinha um perfil mais guerreiro, não deixou um legado muito grande por escrito, o lance dele era defender a Suíça contra os católicos que ele considerava que eram invasores na Suíça, fazer uma reforma radical que abrangesse não só o campo teológico, mas político também.  Zuínglio queria que não só as igrejas influenciadas por ele, mas também além de querer que os governos mudassem suas leis para novas leis interpretadas de acordo com sua visão teológica, numa reinterpretação das leis de Moisés de acordo com a cultura Suíça, ele confundia Lei e Evangelho, Antiga Aliança e Nova Aliança, dizendo que as recomendações do Novo Testamento seriam novas leis cerimoniais e que o culto cristão deveria ser nos moldes das recomendações do Novo Testamento como se fossem regras estritas e que qualquer elemento fora do que ele interpretava como sendo o “padrão” neotestamentário de culto deveria ser eliminado da liturgia cristã, também era iconoclasta, acreditava que qualquer representação artística de santos, profetas, anjos, Jesus e Deus deveriam ser destruídas nas igrejas. Dizia que o culto cristão deveria se livrar de qualquer influência romana, que o legado histórico do cristianismo na liturgia deveria ser ignorado e uma nova forma de culto deveria ser estabelecida, onde o pregador estivesse no centro das atenções, para que todos pudessem prestar atenção ao que ele estivesse dizendo enquanto ensinava a Palavra de Deus, sem distrações, sem instrumentos musicais e sem nenhum recurso visual, somente a oratória. Karlstadt se influenciou nessas idéias para propor algo parecido na Alemanha, durante o exílio de Lutero. Zuínglio também dizia que as canções populares religiosas deveriam ser substituídas pelos Salmos, que o dia de culto, o Domingo, deveria ser guardado obrigatoriamente, sem atividades lucrativas ou de entretenimento neste dia, que o entretenimento deveria passar por uma rígida filtragem ascética, proibindo danças e manifestações que os suíços mais ascéticos de sua época, assim como ele mesmo, consideravam despropositadas e e “mundanas”.

Anabatistas

Paralelamente, outro movimento mais radical ainda ganhava força, um movimento que dizia que a Igreja Católica não tinha mais jeito, que não dava para reformar nada, mas deveriam romper de vez com Roma e refazer a cristandade de acordo com o que eles acreditavam ser a interpretação correta da religião cristã. Eles acreditavam que cada cristão deveria guiar sua vida cristã pela experiência pessoal, não somente pelas Escrituras, por isso qualquer sistema de ensino ou governo cristão deveria ser democrático, não imposto, eram contra qualquer forma de Estado, ou poder impositivo, interpretavam que os cristãos primitivos eram guiados principalmente pela oração e pelas experiências pessoais, que não eram governados por nada, só por Jesus e uma sociedade cristã não deveria ter governadores, ou regentes, ser governada só por “Jesus”. Era uma proposta de “teocracia” similar ao “anarquismo”, que surgiu séculos depois como uma proposta de governo comunitário, sem lideranças absolutas. Esse movimento dizia que quem quisesse romper com Roma deveria ser rebatizado (anabatista = rebatizador), por isso foram chamados de anabatistas, porque rebatizavam as pessoas. Eles diziam que só adultos deveriam ser batizados, mas por aspersão, poucos defendiam o batismo por imersão. Esse movimento influenciou fortemente a maior igreja protestante no mundo hoje, a Igreja Batista. A Igreja Batista surgiu da Igreja Anglicana, portanto é protestante como qualquer outra, mas se baseou alguns elementos dos anabatistas, como o rebatismo, o batismo de adultos e a separação Igreja e Estado, mas, numa versão própria, mais moderada, mais próxima ao protestantismo, porém não têm relação direta com os anabatistas em sua doutrina. Os anabatistas não eram da Reforma Protestante, eram cismáticos (queriam uma nova forma de cristianismo, que eles acreditavam que etaria restaurando a Igreja Primitiva). Os protestantes eram reformistas, não cismáticos.

Reforma Calvinista

Zwinglio morreu numa batalha, foi sucedido por Heinrich Bullinger em Zurique, mas a Reforma se espalhou pela Suíça, depois apareceu Calvino, um advogado francês, que se instalou em Genebra e ficou incubido de defender a Reforma Protestante. Ele escreveu comentários bíblicos que fortaleceram a interpretação histórico-gramatical da Bíblia (ou seja, a Bíblia se interpreta com a própria Bíblia), que é a interpratação que os cristãos sempre tiveram, mas ele usou isso de uma maneira tão brilhante que até hoje usamos o modelo que ele fez para estudar a Bíblia, isso foi passado de geração em geração e se estabeleceu como método de estudo bíblico, de analisar através de versículos a Bíblia, um versículo com outro..

Calvino também escreveu As Institutas da Religião Cristã, que influencia o estudo das escrituras pelo mundo todo até hoje. Ele defendeu os ideais da Reforma irrefutavelmente na Suíça, aonde se estabeleceu depois de ter saído de sua terra natal, a França..

Calvino aos poucos foi aderindo às aspirações políticas Suíças e buscou conciliar essas aspirações com a reforma teológica que estava já acontecendo, por isso deu uma característica mais política à Reforma, defendendo sua teologia que abrangia propostas de rígida transformação moral e cultural na sociedade.

Calvino teve muitas controvérsias em sua trajetória como reformador, por causa de propostas teológicas acerca da predestinação, cristologia, liturgia e por rígidas leis restritivas para entretenimento e cultura como parte de sua trajetória política em Genebra. O caso mais lembrado atualmente de Calvino como influenciador político foi o com o médico Serveto, que defendia uma doutrina unitária, negando a Trindade. Ele foi condenado à morte pelo conselho da cidade (e não por Calvino), mas sob o aval de Calvino, até hoje Calvino é acusado sozinho pela condenação à morte de Serveto.

Calvino tinha sido muito mais influenciado por Lutero do que Zuínglio no começo de seu ministério, porém depois de um tempo acabou tentando buscar um meio-termo entre o luteranismo e o zuinglianismo em assuntos como Lei e Evangelho, Pecado Original, Cristologia, Antiga e Nova Alianças, Liturgia, Sacramentologia e outros. A Este meio-termo que veio a ser chamado depois de “Calvinismo”.

A forma de calvinismo que é mais popular no Brasil só veio a ser consolidado depois da morte de Calvino,  através de sínodos e assembléias que formaram declarações doutrinárias, confissões de fé e catecismos, tendo como destaque o Sínodo de Dort,  ocorrido no século seguinte à Reforma Protestante, que formulou a TULIP, que em conjunto com outros movimentos posteriores, definiram o que hoje é conhecido como calvinismo no Brasil, que recebe extrema influência puritana anglo-americana. Na Europa Continental o Calvinismo é um pouco diferente, se posiciona dentro do movimento reformado dos século XVI e XVII, ao liberalismo reformado alemão ou ao neocalvinismo holandês do século XIX e à neo-ortodoxia suiço-germânica do século XX, que seguiram rumos diferentes dos movimentos evangélicos e ascéticos que influenciaram o calvinismo brasileiro.

O Porque dos Termos “Calvinista” e “Luterano”

Os católicos, para xingar esses dois tipos diferentes de protestantes mais populares, xingavam de “luteranos” e “calvinistas”.. Esses termos ou “apelidos” são usados até hoje, mas no começo houve muita resistência contra estes termos por quem era chamado assim.

Na Inglaterra a coisa foi diferente..

Reforma Anglicana

O Rei Henrique VIII, a princípio, foi contra a Reforma, mandou queimar os livros de Lutero em praça pública e tudo..

Alguém, provavelmente anglicano, na Wikipedia, conseguiu resumir bem a história toda:

“Mas por conta do conflito havido com o Papa Clemente VII, relacionado com o pedido de anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, para se casar com Ana Bolena e ter descendentes homens, resolveu romper com Roma. A cisão se deu através do Ato de Supremacia, confiscando todas as propriedades que a Igreja Católica possuía na Inglaterra.
Após a morte de Henrique VIII, a Inglaterra se separou momentaneamente do cisma. Henrique VIII deixou um herdeiro homem, Edward VI, que era protestante. Este teve um reinado curto pela sua morte precoce com apenas 15 anos. Seguindo a linha de sucessão, sua irmã Maria I, filha do primeiro casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, assume o reinado após a morte de Edward VI. Católica fervorosa, ratificou o Ato de reconciliação da Inglaterra com Roma. Mas o seu reinado foi curto.
A emancipação da Igreja da Inglaterra da autoridade papal, através da iniciativa do rei Henrique VIII, não transformou a Inglaterra num país verdadeiramente protestante, pois a Igreja permaneceu católica quanto à doutrina. Somente no reinado de sua filha, Elisabeth I, a Igreja se firmara no caminho da via média entre catolicismo e protestantismo, característica que mantém até a presente época. Assim, não se pode, historicamente, atribuir a Henrique VIII o título de fundador da Igreja Anglicana.”

O lance com ele foi porque a mulher dele era irmã do rei da espanha e o povo tinha medo de que se a filha de Catarina com Henrique VIII fosse rainha, a Inglaterra caísse nas mãos da Espanha.. Eles exigiam que Henrique tivesse um filho homem, com uma inglesa. E como Henrique era apaixonado pela Ana Bolena, aproveitou para pedir a anulação do casamento com Catarina. O papa tinha autorizado, a princípio, depois revogou a autorização à anulação do casamento dele.. O rei Henrique VIII se separou de Roma e iniciou as bases para a formação da Igreja Anglicana, mas ela só foi consolidada após a morte dele,  com a rainha Elizabeth.

A Igreja Anglicana nasceu com os bispos ingleses conversando e decidindo como seria feita uma reforma na Inglaterra, já havia um interesse moral e histórico de que a Igreja da Inglaterra se firmasse dentro de sua origem da evangelização ocorrida entre os celtas havia mais de mil anos, a Igreja da Inglaterra já tinha certa autonomia em relação à Roma, e o cenário político abriu o espaço para uma Reforma que consolidasse está autonomia e a tornasse livre e dentro de seu legado histórico do cristianismo celta, e como havia um medo dos ingleses de caírem nas mãos da Espanha com o casamento de Henrique VIII com Catarina, houve toda essa movimentação reformista na religião e na política no Reino Unido para defender a Inglaterra dos espanhóis, que através da influência da Igreja Romana poderiam chegar a dominar a Inglaterra. O povo pediu o cisma com a Igreja e o Rei atendeu, restaurando o cristianismo celta, constituindo uma Igreja Anglicana, separada da Romana. Na parte teológica, a formação da Igreja Anglicana buscou a restauração do cristianismo celta e também elementos luteranos, calvinistas e romanos. Paralelamente, também havia na Inglaterra outro movimento que clamava por outro tipo de Reforma por lá, mais ascética, os puritanos.

Puritanismo

Nessa época, da cisão dos ingleses, na Inglaterra tinha uma galera que era muito radical em usos e costumes.  Eles diziam que só os que tivessem uma vida pura e santa iriam para o Céu, que todos deveriam ter os usos e costumes mais santos e viver uma vida pura, clamavam por uma diferença na hora de fazer o culto, sem mistura com os romanos, mais parecido com o culto criado por Zuínglio e estabelecido por Calvino na Suíça, porém radicalizaram bastante o modelo zuingliano-calvinista, exigiam um ainda mais rígido ascetismo moral e cultural (ascetismo é abrir mão de prazeres em nome de um ideal, ou ideologia), um modelo político/social teocrático, a guarda do domingo como dia santo, uma liturgia centrada no sermão – sem paramentos, como batinas, imagens, velas, altar, etc; e sem qualquer elemento de entretenimento, como instrumentos musicais e canções que não tivessem somente o conteúdo bíblico do livro de salmos.

Eles diziam que esses padrões que eles defendiam eram puros e quem seguisse esses padrões teria uma vida de pureza e estaria mais perto de Deus. Por isso eram chamados pejorativamente de puritanos, por clamarem tanto por uma uma igreja pura, vida pura, governo puro e liturgia pura, segundo o conceito de pureza que eles defendiam.

Esses puritanos foram também perseguidos e tiveram que fugir da Inglaterra contra a perseguição que sofreram, muitos fugiram para Genebra aonde estava o João Calvino e, após a morte dele, Theodore Beza, que foi o maior influenciador do que mais tarde veio a ser chamado de “Calvinismo”, influenciou bastante a teologia deles também. Alguns foram para a Alemanha, mas na Alemanha os puritanos foram considerados legalistas e não foram bem aceitos, tendo que ir para a Holanda ou Suíça. Depois voltaram para o Reino Unido, aonde se estabeleceram como presbiterianos e congregacionais, posteriormente também muitos se uniram aos episcopais (Igreja Anglicana) e aos batistas. Posteriormente, principalmente nos EUA, vieram a perseguir pessoas que não aceitassem suas rígidas regras ascéticas também, por isso adquiriram a má fama que têm hoje hoje e perderam popularidade a partir do século XIX, que só foi retomada no final do século XX, com nomes como J. I. Packer, John Piper, Paul Washer e outros, que relançaram obras dos puritanos e trouxeram aos jovens um conhecimento grande sobre este movimento do passado.

Perseguição contra os Anabatistas

O protestantismo e catolicismo eram contra os anabatistas e os perseguiram fortemente, até mesmo com crueldade, como foi o caso de calvinistas e Zuinglianos que assassinaram anabatistas (incluindo crianças) na Suíça e luteranos que também perseguiram anabatistas por intolerância religiosa. Por isso os anabatistas são pouquíssimos hoje, estão quase extintos. Os grupos anabatistas mais famosos hoje são os Menonitas, os Amish e os Quakers.

Reforma e Missão.

A Reforma Luterana foi missionária, porém alcançou mais os países nórdicos, a europa oriental, como a Ucrânia, a Rússia e Constantinopla, na época, alguns outrospontos da ásia e oriente médio. No Brasil ela chega no meio do século XIX, mas de caráter colonial e não tanto missional..

A Reforma Calvinista olhou mais o Ocidente, inclusive para esse lado americano do mapa. Calvino mandou pessoalmente missionários ao Brasil, uma das primeiras confissões de fé da Reforma Protestante foi feita aqui no Brasil, que foi a Confissão de Guanabara. Não se fala disso nas escolas e faculdades, mas o Brasil foi muito importante para a Reforma Protestante, na época em que ela ocorreu.

Pós-Reforma

A Reforma Anglicana, no começo, tentou organizar a bagunça toda que foi causada pela mudança catolicismo – puritanismo – anglicanismo. Não tiveram trabalho missionário pelo mundo, somente colonial pelos EUA, só recentemente têm crescido na África com trabalho missionário.

Através dos puritanos veio o presbiterianismo, que acabou virando religião oficial da Escócia, mas o radicalismo puritano causou conflitos com os anglicanos e católicos, conseguiram até uma ditadura puritana na Grã Bretanha, com Oliver Cromwell, na época, mas não foi nada popular e pouco tempo depois essa ditadura caiu e a maioria dos puritanos teve que ir para o novo continente para tentar estabelecer seus ideais da maneira como queriam, foi assim que ocorreu a colonização dos EUA..

Foi durante a ditadura puritana que foi feita a Confissão de Fé e os padrões doutrinários de Westminster, que é a expressão de fé dos presbiterianos e influenciou outros puritanos de outras denominações também, teve forte influência no ideal dos colonizadores dos EUA também, assim como nas Guerras da Independência e Civil de lá, além de influenciar até hoje protestantes mais americanizados, como os pentecostais, neo-puritanos, teonomistas e outros.

Nos países luteranos não houve muitas cisões e problemas teológicos, as confissões luteranas sempre mantiveram a comunhão luterana bem ajustada.

Mais para frente surgiu a vertente pietista, que é similar ao “puritanismo” e ao “metodismo”, também ascético, porém mais moderado, mais missional, que promovia a experiência do crente com o Senhor individualmente, porém dando padrões para isso com características altamente sinergistas que causaram certa controvérsia dentro do luteranismo. A Noruega é um país de confissão pietista.

Na Alemanha houve um imperador se converteu ao calvinismo, no século 18, e buscou forçar os luteranos a se tornarem calvinistas. Muitos luteranos tiveram que fugir e se espalhar pelo mundo para poder viver a fé luterana com liberdade, já os que ficaram foram forçados a se unir com calvinistas numa “Igreja Unida” que abrangesse luteranos, calvinistas e zuinglianos. Os luteranos alemães depois conseguiram sua liberdade de culto, mas não se separaram dos “reformados” (calvinistas e zuinglianos ), se mantendo nesta “igreja Unida”, porém realizando suas atividades com luteranos, mantendo seu pensamento bíblico dentro da linha luterana. Isso se tornou o embrião do ecumenismo evangélico.

Dos anglicanos surgiram a Igreja Batista, maior denominação protestante no mundo hoje, de característica altamente missional e muito similar ao pietismo, e a Igreja Metodista, outro grupo protestante super numeroso hoje.

Da Igreja Metodista, que a princípio era um movimento dentro do anglicanismo (e até hoje há metodistas dentro da Igreja Anglicana) e somente depois da morte dos fundadores deste movimento que se separaram da Igreja Inglesa, que sairam os adventistas, os Testemunhas de Jeová, os mórmons, os pentecostais, os neopentecostais, e a maioria dos grupos evangelicais e seitas pseudo-cristãs hoje presentes numerosamente no mundo ocidental, por sua característica de invocar um cristianismo “experimental”, onde se dá muito valor à experiência pessoal do cristão com Deus e com o próximo, que culmina na característica mais marcante do movimento metodista que se separou da Igreja Anglicana, o sinergismo (chamado pelos calvinistas de “arminianismo”)..

Qual a diferença entre as igrejas luterana, anglicana e anabatista e calvinistas?

O calvinismo tem várias igrejas adeptas desta vertente. Não é um movimento unificado. Geralmente se chama de “calvinista” quem é adepto das Três formas de Unidade do Calvinismo, que são declarações de Fé que consolidaram o pensamento que hoje é chamado de “calvinismo”, principalmente no caso da TULIP, acróstico em inglês definido no Sínodo de Dort, na Holanda, que busca sintetizar o pensamento das confissões calvinistas sobre a condição humana, o pecado original e a salvação, afirmando a doutrina da predestinação, característica mais valorizada e enfatizada nesta vertente teológica. Nos EUA (e consequentemente no Brasil, que é colônia teológica de lá), muitos calvinistas também reivindicam que é necessário estar em conformidade com o pensamento puritano para ser um calvinista.

O pensamento calvinista não é homogêneo; na Holanda é um, na Suíça é outro, na França é outro, na Alemanha é outro, nos EUA é bem diferente também.. Dentro do calvinismo há vertentes liberais, moderadas, fundamentalistas, puritanas, carismáticas, todos sob o guarda chuva do termo “reformado”, que abrange calvinistas e zuinglianos, excluindo-se os luteranos, que não eram aceitos como reformados pelos calvinistas por conta de suas diferenças teológicas e litúrgicas mais próximas ao catolicismo e acabaram sendo isolados pelos demais evangélicos na época, hoje há mais fraternidade entre evangélicos e luteranos, as diferenças não são mais empecilho para a unidade fraternal.

Existem confissões de fé e catecismos que definem cada característica dessas igrejas calvinistas. Na Holanda a expressão de fé de sua Igreja Reformada são os cânones de Dort, que foram feitos logo após a reforma, numa controvérsia que houve com os Remonstrantes, que interpretavam a doutrina da predestinação sob uma ótica sinergista, ou seja, que Deus “predestinava” conforme “previa” a ação humana. A figura mais importante dos remonstrantes foi o Teólogo Jacobous Arminius. Os remonstrantes, então, foram chamados de “arminianos”. Até hoje os calvinistas chamam os crêem numa sinergia com Deus no processo de salvação, através do “Livre-Arbítrio” de arminianos. Na Bélgica temos a confissão belga, na Suíça temos os catecismos de Heidelberg. Estes dois ainda do período da Reforma. Esses documentos são considerados as 3 formas de unidade do calvinismo, que formam o calvinismo clássico. Depois cada região desenvolveu sua própria teologia reformada. No calvinismo brasileiro, temos maiores influências das teologias puritana, dos EUA, e neo-ortodoxa, da Alemanha.

No luteranismo, há também algumas subdivisões, mas há basicamente algumas divisões que congregam os luteranos mundiais, baseados na aceitação de certos trabalhos como declaração de fé ou não.

Existem os luteranos confessionais, que geralmente aceitam todo o Livro de Concórdia das Igrejas Luteranas como declaração de fé e baseiam suas atividades como Igreja Luterana na teologia contida lá, para a unidade do corpo. Estas igrejas luteranas confessionais se encontram, na maioria, no (ILC) Concílio Luterano Internacional ou Conferência Luterana Confessional. Este é o caso da IELB – Igreja Evangélica Luterana do Brasil.

Existem os luteranos que somente têm a Confissão de Augsburgo e os Catecismos de Lutero como declarações de fé para preservação da unidade do corpo, congregando pietistas e carismáticos, e existem os luteranos que preservam o culto luterano, sem porém se prender a confissões de fé, para deixar abertas questões eclesiásticas e teológicas locais; esses dois grupos geralmente são associados à Federação Luterana Mundial. Este é o caso da IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil.

Existem os luteranos independentes também, confessionais e não confessionais, que não estão filiados a nenhuma associação luterana de comunhão inter-luterana.

Os anglicanos têm dois materiais que promovem a unidade anglicana e que são a Confissão de fé deles: os 39 artigos da Fé Anglicana e o “Livro de Oração Comum”. Existem diferenças dentro do anglicanismo, presentes no que são chamadas de “Igreja Alta”, ou “Anglo-Catolicismo”, e “Igreja Baixa”, ou “Anglicanismo evangélico”. Na igreja alta, os anglicanos pedem intercessão a santos e são mais próximos aos católicos, somente não tendo o Papa como autoridade final, porém o Bispo da Cantuária. No baixo anglicanismo, também se respeita a autoridade do Bispo da Cantuária, mas se aproxima mais dos movimentos evangélicos ou reformados, rejeitando a intercessão de santos e buscando uma liturgia mais dinâmica e próxima do calvinismo ou dos movimentos evangélicos atuais.

Outras diferenças podem ser pontuadas. Segue:

Os calvinistas não admitem altar, mas usam púlpito. Os luteranos e anglicanos usam altar, além do púlpito. Calvinistas não colocam imagens como representações de Cristo, ou anjos, no máximo colocam uma cruz vazia, acham que isso pode produzir idolatria; luteranos e anglicanos não são contra uso de imagens como enfeites e obras de arte, mas não acreditam na intercessão dos santos também e são contra a idolatria, as imagens são meros enfeites e simbolismos.

Os luteranos crêem na predestinação somente para a salvação, sendo a condenação uma responsabilidade e escolha humanas. Os calvinistas crêem na Dupla Predestinação, que os salvos e condenados foram já pré-determinados a isso antes de nascerem, independente de suas escolhas ou obras.

Para o calvinista clássico, a santa ceia é algo espiritual, não é memorial, nem tem presença real de Cristo, mas Cristo está presente espiritualmente. Os batistas calvinistas seguem a linha zuingliana e acreditam que é memorial, um mero simbolismo..

Os luteranos e anglicanos acreditam na presença real de Cristo durante a ceia, que os elementos são pão e vinho, mas também a carne e o sangue de Cristo estão presentes lá. Os luteranos rejeitam que isso seja chamado de consubstanciação, mas chamam de União Sacramental, dizem que é a presença real de Cristo, mas que é um mistério como ocorre.

Até que enfim acabou o “resumo”

Essa obra do Senhor na história marcou nossas vidas e nos deu uma liberdade cristã até então desconhecida na história. Que essas histórias, de acertos e erros, nos inspirem para reformar nossas vidas de acordo com a Palavra de Deus também. Ecclesia reformatta Semper Reformanda Est

Soli Deo Gloria.

Bibliografia:

Obras Selecionadas de Martinho Lutero, Volumes 1 – 7, editoras Concórdia e Sinodal.

Biografia de João Calvino por Teodore Beza.

Cristianismo Através dos Séculos; Earle E. Cairns.

Quem foram os Puritanos?, Errol Hulse, Editora PES

Puritanos, Martin Lloyd Jones, Editora PES

Institutas da Religião Cristã – Volumes 1 – 4, João Calvino, Ebook disponível na internet

Artigos acadêmicos sobre a história do movimento Reformado do site do Mackenzie: http://www.mackenzie.com.br/6925.html

Repositório sobre a história de Zwinglio: http://zwingliusredivivus.wordpress.com/

http://anglican.org/church/ChurchHistory.html

https://www.churchofengland.org/our-faith/being-an-anglican/anglican.aspx

Anúncios