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Eu recebi uma pergunta na rede social Ask.fm onde uma pessoa anônima me pergunta se é o caso de ele mudar de denominação por discordar de certas coisas dentro dela. Muita gente me procura com essa dúvida, então vou responder essa pergunta por aqui pelo blog e espero que possa ajudar a outros nesta situação.

A PERGUNTA

“Sou assembleiano, ultimamente as coisas tem sido bem difíceis; após ter estudado mais a fundo as Escrituras, vejo o “tantao” de coisas erradas em minha congregação: legalismo, pregações sobre bênçãos, vitória, milagres, etc… Nada do simples evangelho de Cristo. Devo mudar de denominação?”

Essa é uma pergunta muito difícil. Essa é uma decisão difícil de se tomar. Melhor tomar com muita oração e reflexão, apesar de que o que você está dizendo que acontece por lá são coisas graves, mas, ainda assim, é bom você avaliar com cuidado e ver se o problema é local ou é geral e só então tomar uma decisão.

O que posso fazer é tentar te fazer pensar um pouco a respeito sobre essa situação, que muita gente tem enfrentado, e assim dar algumas variáveis para se tomar uma decisão, mas essa decisão deve ser confiada ao Senhor em oração, para que Ele possa ajudar a enxergar as variáveis com clareza e a decisão ser a mais acertada. Pensa comigo:

NÃO EXISTE IGREJA PERFEITA

Toda igreja que você for terá problemas, umas terão problemas doutrinários, outras de relacionamento, hoje há tantas opções de doutrinas que você provavelmente já deve ter feito uma mistura de várias doutrinas que a você parecem ser coerentes e bíblicas e vai se sentir incomodado por comungar num lugar com doutrinas diferentes das que você tem misturadas na cabeça. Todos nós fazemos isso hoje em dia. Eu também faço. São tantas opções doutrinárias que nos oferecem na internet, na TV, nas conversas com amigos cristãos que essa confusão é super natural. Hoje muita gente está confusa também.
Ou seja, você nunca vai achar uma igreja que se enquadre dentro da “teologia sistemática” que você montou na sua cabeça. Desista. Você nunca vai encontrar isso. Então você precisa avaliar suas prioridades doutrinárias. Os primeiros cristãos fizeram isso e transformaram essas avaliações em credos. Esses credos são tidos como absolutos e fundamentais por toda a cristandade até hoje, sejam católicos, ortodoxos ou protestantes (confira este link aqui para entender o porque disso). Na reforma, houve também vários debates para avaliar o que manter como principal e o que deixar como livre, nisso não deixaram os credos principais do cristianismo, os mais antigos, de lado, reafirmaram a concordância com esses credos antigos, afinal, não estavam formando uma nova religião, apenas queriam que as igrejas ocidental e oriental revissem aquilo que tinham mudado que fosse contra as Escrituras, mas nessa reforma muita coisa coisa aconteceu e cada região acabou tendo prioridades diferentes para reformar e trabalharam as diferenças doutrinárias que acabaram surgindo neste clima de Reforma que aconteceu no século 16.

LEI E EVANGELHO

Uma questão fundamental que você pode trabalhar é a correta distinção entre Lei e Evangelho. A Bíblia contém duas mensagens principais que reúnem todo o conteúdo dela, que são a Lei e o Evangelho. 

Pela Lei, somos informados na Bíblia de tudo que devemos fazer. Quando a Bíblia diz faça isso, não faça aquilo, etc, ela está expressando a Lei de Deus. Quando a Bíblia fala daquilo que Deus fez e faz por nós, fala da cruz, da graça, do amor, do perdão, dos milagres, da salvação, da justificação, da fé, ela está falando do Evangelho

O Evangelho é a parte principal da Bíblia. Evangelho significa boa notícia e se refere a tudo de bom que Deus fez por nós. Você precisa ter em mente que o Evangelho é sobre a fé, a graça e perdão de pecados somente. Não é sobre regras e normas. 

Muitos cristãos confundem Lei e Evangelho e chamam de Evangelho um monte de regras e normas que muitas vezes são interpretações da Bíblia, não são as regras da Bíblia em si. A Lei de Deus nos serve como tutor para nossos pensamentos e comportamentos diante do próximo, ou seja, ela nos orienta em nossa vida na terra, na sua lista de 10 coisas que devemos e não devemos fazer, resumidas por Jesus em amar a Deus e amar o próximo. Paulo diz, no capítulo 1 de Romanos, que toda a criação já tem essa lei escrita no coração. É natural que mesmo uma pessoa que nunca ouviu falar em Deus e em Jesus saiba que adultério é errado, furtar é errado, matar é errado, etc.. Mas diante de Deus essa Lei não serve para nós guiar para Ele, não podemos ir a Ele pela Lei, nem agradá-lo seguindo padrões e regras, mas somente pela fé em Cristo. O único meio que Deus usa para vir a nós em Cristo é a fé, não obras.

Mas essa Lei é boa para nos orientar a servir o próximo e nos comportar diante das pessoas, por isso Deus já a colocou em nosso coração e no de toda a humanidade, para que todos saibam como se comportar na Terra (Rm 1). E essa Lei aponta para Cristo, é por ela que o Espírito Santo convence o ser humano que ele é pecador e então a pregação do Evangelho de perdão dos pecados faz sentido e a pessoa crê em Jesus para ser um pecador perdoado.

LEGALISMO

Se o Evangelho é tratado como Lei, confundido com a Lei, então não existe esperança, não existe saída para o pecador só existem regras, normas e padrões a serem seguidos, e como nós somos pecadores por natureza, não haveria saída para nós se temos só a Lei em mente. Todo padrão colocado diante de nós vai nos revelar como transgressores. Por isso nos sentimos pesados e desanimados diante de muitas normas e padrões. Assim, muitas pessoas em muitas igrejas estão desanimando porque não encontra esperança e ensino sobre a graça e o perdão de Deus, apenas normas e padrões inatingíveis e pessoas hipócritas que pregam padrões e normas super rígidas, mas que eles mesmos não cumprem.

Daí muitos são rejeitados em suas igrejas por regras que nem estão na Bíblia. Nas redes sociais, recebo muitas mensagens de gente que é rejeitada como cristã por causa do legalismo e regras que não estão na Bíblia, como “cristão não pode ouvir rock”, “cristão não pode ser de Esquerda”, “cristão não pode assistir o filme do Deadpool”, “cristão fora da Missão Integral não é cristão de verdade”, “cristã que usa biquini não é cristã”, “quem não tem a ‘cosmovisao cristã-calvinista’ não é cristão de verdade” e um monte de regras absurdas que não estão na Bíblia.

O teólogo luterano Carl Ferdinand Wilhelm Walther, nos alerta sobre essa mistura entre Lei e Evangelho nas igrejas:

Nós ouvimos esse veneno de iniqüidade anticristã falando a respeito do Evangelho como contendo as doutrinas de salvação. No entanto, eles logo acrescentam que o Evangelho também prescreve moral. Essa é a interpretação que eles colocam no propósito de Cristo, quando ele disse: Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. (Mc 16.15) Eles evidentemente não têm a intenção de aceitar o Evangelho no verdadeiro sentido da palavra. No significado que eles dão, ele é, na melhor das hipóteses, uma Lei como a que Moisés proclamou. Eles nem tampouco instam as pessoas a cumprir somente os mandamentos de Deus, mas muito mais, os mandamentos de sua Igreja…

Marquem isso muito bem. Essa aliança não é para ser uma aliança baseada na Lei, como a que ele estabeleceu com Israel no Monte Sinai. O messias não dirá: “É preciso que vocês sejam pessoas com tal ou tal caráter; seu modo de viver desta ou daquela maneira; você precisa fazer essas ou aquelas obras.” Nenhuma doutrina dessas será introduzida pelo Messias. Ele escreve a sua Lei diretamente no coração, para que a pessoa que vive nele, sirva de Lei para si mesma. Essa pessoa não é coagida por uma força que vem de fora, mas é coagida por uma força interior. “Pois, perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei” Essas palavras afirmam a razão da afirmação precedente. São um resumo do Evangelho de Cristo: perdão dos pecados pela graça de Deus que não tem limites, por causa de Jesus Cristo. Qualquer um, portanto, que pensa que Cristo é um novo legislador e que ele nos trouxe novas leis, cancela, apaga e anula toda a religião cristã. Porque tal pessoa remove aquilo através do que a religião cristã se difere de todas as outras religiões do mundo. Todas as outras religiões dizem ao ser humano: “Você precisa se tornar justo assim e assim e fazer essas e aquelas obras, se quiser ir para o céu”. Em contraposição, a religião cristã diz: “Você é um pecador perdido e condenado. Você não pode ser seu próprio Salvador. Mas não desespere por isso. Existe alguém que obteve a salvação para você. Cristo abriu os portais do Céu para você e convida: “Venha, porque tudo já está preparado. Venha para as bodas do Cordeiro” Essa também é a razão por que Cristo diz: “Eu curo os doentes, não os sãos. Eu vim para buscar e salvar o perdido. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.”

 

Então sua igreja é falsa porque tem legalismo e por isso você deve abandonar? Claro que não. Em certos pontos, quando existe uma necessidade específica, às vezes temporária, a aplicação da Lei de Deus acaba sendo inevitável. E a Lei de Deus é boa. Ela não pode nos salvar, nos tornar justos diante de Deus, nem nos tornar superiores, como pregam os legalistas, mas ela ainda serve como orientação para o cristão, que naturalmente quer fazer o que ela diz. Ela não é mais necessária como  tutora, ou seja, não é mais encarregada de nos tornar santos diante de Deus, mas ela ainda nos orienta a uma vida justa diante do próximo, mesmo que sua principal função seja mostrar que somos pecadores, porque não a cumprimos e apontar para Cristo como o nosso Salvador e perdoador de todos os nossos pecados.

Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada.

Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé.

Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor.

Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus,

pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram.

Gálatas 3:23-27

A LEI É BOA

Eu sei que corro o risco de ser injusto ao usar o termo “legalista”, porque todos somos legalistas em alguns pontos, ou seja, damos ênfase na Lei em certas questões, porque somos pecadores. 

Não deveríamos maltratar as pessoas, mas maltratamos,como cristãos não precisaríamos da Lei nos lembrando disso, mas porque somos pecadores, a Lei nos manda amar o próximo e agir em benefício dele. Não deveríamos fazer fofocas, mas fazemos,como cristãos não precisaríamos da Lei nos lembrando disso, mas porque somos pecadores, a Lei nos manda amar o próximo e agir em benefício dele. Deveríamos dar o lugar para o velhinho no ônibus ou não estacionar na vaga do deficiente naturalmente, como cristãos não precisaríamos da Lei nos lembrando disso, mas porque somos pecadores, a Lei nos manda amar o próximo e agir em benefício dele. 

O Evangelho não veio trazer novas leis, só traz graça, fé e perdão, mas precisamos aplicar a Lei Moral (10 mandamentos) de Deus mesmo em questões seculares e internas na igreja também, porque somos todos pecadores, mesmo cristãos. E mesmo sabendo nossa fé deve triunfar sobre o mundo, ainda cometemos muitos pecados em pensamentos, palavras e ações, por isso precisamos Lei para matar o velho homem em nós aplicando a Lei em nossas individualidade quando nossa vontade está para o pecado, não para o que Deus manda.

Mas vou usar o termo legalista para me referir à pessoa que dá muita ênfase em leis, padrões e normas e pouco fala da graça, da esperança, da fé e do perdão de Deus, ou quando inventa regras que não estão na Bíblia, mesmo usando versículos da Bíblia como “prova” de que essas regras são bíblicas.

LEGALISMO COM A BÍBLIA

Outro problema é forçar as pessoas a seguirem valores e fé, alguns usam até as leis civis da torah, que caíram em Jesus, para isso. Em Romanos 13, Paulo mostra que somente os 10 mandamentos são a Lei de Deus para a humanidade e em suas cartas, assim como o escritor de hebreus, explicam que as leis que eram somente da aliança entre Deus e a nação de Israel, que precisava de sumos sacerdotes para serem cumpridas, que são as leis civis e cerimoniais da Torá, não fazem parte da nova aliança, como diz Hebreus:

Pois quando há mudança de sacerdócio, é necessário que haja mudança de lei.

A ordenança anterior é revogada, porquanto era fraca e inútil

( pois a lei não havia aperfeiçoado coisa alguma ), sendo introduzida uma esperança superior, pela qual nos aproximamos de Deus.

Jesus tornou-se, por isso mesmo, a garantia de uma aliança superior.

Hebreus 7:12,18,19,22

Com, em muitas igrejas, muitos pregadores, pastores e irmãos atribuem a salvação a seguir a pontos legalistas e querem forçar as pessoas a seguirem o que querem, Paulo nos alerta sobre isso:

Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade.., envolvendo-se em coisas que não viu; estando em vão inchado na sua carnal compreensão..

Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como:

Não toques, não proves, não manuseies?

As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens;

As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne.

Colossenses 2:18-23

Esse problema do legalismo que eu tratei aqui é o mais comum na realidade brasileira no meio evangélico. Porém em muitas igrejas acontece o contrário, o liberalismo teológico, que propõe uma leitura crítica da Bíblia e relativiza ou mesmo elimina a Lei. São os “antinomistas” (anti = contra. Nomos = Lei). Algumas , ao deixar a Lei de lado, só pregam política, outras só questões sociais, algumas defendem imoralidades em nome de uma “inclusão”, elas eliminam a Lei, que dá sentido ao Evangelho, como as legalistas deixam de lado o Evangelho, que aponta Cristo como o cumprimento da Lei.

O PROBLEMA

Como fica claro na Bíblia, a Lei, mesmo a Lei de Deus, não produz perfeição e santidade, muito menos essas regras, normas e padrões inventados por homens. Por isso muita gente desanima nas igrejas, ao se depararem com muitas regras pesadas e nenhuma esperança de graça e perdão dos pecados. Será, então, que é o caso de mudar de igreja?

Vamos com calma. A Igreja sempre teve problemas. Às vezes você está sendo julgado mal por um membro, não pela igreja em si. E isso te desanima. Você não pode abandonar todo o corpo porque uma mão ou um pé está doente e te incomodando. Saiba que você também está doente pelo pecado como todo mundo e incomoda outros também. Não se julgue melhor que ninguém. A Igreja é um hospital de doentes, pecadores querendo ouvir a Palavra de Deus que instrui através do pregador, regenera pelo Espírito Santo no batismo e perdoa seus pecados em Cristo também ao comer o corpo e beber o sangue de Jesus na Santa Ceia. A Igreja é para pecadores e você é pecador também. Problemas de relacionamento não são motivo para você abandonar a sua congregação, como aconselha o escritor de Hebreus:

Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia.

Se continuarmos a pecar deliberadamente depois que recebemos o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados,

mas tão-somente uma terrível expectativa de juízo e de fogo intenso que consumirá os inimigos de Deus.

Quem rejeitava a lei de Moisés morria sem misericórdia pelo depoimento de duas ou três testemunhas.

Quão mais severo castigo, julgam vocês, merece aquele que pisou aos pés o Filho de Deus, que profanou o sangue da aliança pelo qual ele foi santificado, e insultou o Espírito da graça?

Hebreus 10:25-29

COMO LIDAR COM O PROBLEMA

Com certeza a sua igreja deve ter responsáveis pela doutrina. Se é uma igreja menor, talvez o pastor com um diácono, obreiro ou alguém que o auxilie e faça o papel de “conselheiro” vai poder te ouvir sobre suas discordâncias com a doutrina. Você deve ser evangélico, ou seja, ter o evangelho em mente e lembrar do perdão de Deus, que deve ser dado também ao seu próximo, mesmo sem merecer, como você recebe o seu perdão sem merecer também. Com isso em mente, você não pode também esperar perfeição. A “teologia sistemática” que você montou na sua cabeça não ser aceita totalmente na sua igreja local, nem em sua denominação e você deve acatar coisas que não concorda em nome da unidade do corpo aonde vc faz parte. 

Veja bem, eu disse acatar, não falei concordar. Eu não posso aqui te obrigar a concordar com nada, isso é algo interno e particular ser, mas posso te ajudar a questionar da maneira certa para entender o porque aquela doutrina que você estranha é pregada, ou aquela decisão administrativa da Igreja que te incomoda foi tomada e aí você pode decidir concordar com eles, ou acatar com ressalvas, ou mesmo procurar outro lugar para congregar, caso nao seja possível para você permanecer por lá. 

Com certeza, antes de você ter questionamentos, o corpo doutrinário da sua igreja, os responsáveis pela doutrina, seja um conselho teológico, ou uma comissão teológica, ou algo assim mais formal e acadêmico, para denominações grandes como a Assembléia de Deus, a Igreja Presbiteriana, a Igreja Metodista, etc, já teve suas discussões para definir o posicionamento doutrinário sobre questões semelhantes às suas  e deve ter até hoje para revisar ou manter suas posições., assim como os líderes já devem ter conversado e discutido sobre questões administrativas ou de trabalho da sua igreja local ou denominação nas áreas e departamentos da sua igreja. Você pode tentar acessar esses posicionamentos oficiais de alguma forma e avaliar se você consegue aceitar esses posicionamentos e lidar com as diferenças que você tem na sua cabeça com aquilo que foi decidido, por amor ao próximo, em amor por Deus, que quer a unidade dos seus filhos, não as contendas.

Na maioria das igrejas evangélicas históricas, que têm seus pontos doutrinários claramente definidos em confissões, catecismos, declarações doutrinárias, estatutos e regimentos internos, as pessoas, incluindo aí os pastores e líderes locais, não conhecem sua base doutrinária, por isso há muitas invenções e imaginações doutrinárias, além de até mesmo heresias explícitas, em igrejas locais, que acabam se espalhando como vírus por outras igrejas locais e podem até descaracterizar a denominação. 

Você pode ajudar sua igreja local levando os posicionamentos oficiais da sua denominação e conversando numa boa com seus pastores e líderes, apresentando os pontos que te chamaram a atenção nos posicionamentos oficiais da sua denominação e que você entende que não estão sendo corretamente trabalhados na sua igreja local, mas tenha a humildade de aceitar a opinião diferente dos seus líderes e tenha a paciência de resolver isso com tempo, oração e conversas amigáveis. 

Se você for de igreja pequena, ou qualquer igreja que não tenha posicionamentos oficiais sobre as questões doutrinárias que você estranha ou discorda, o conselho é o mesmo, você tem que saber se você consegue suportar o que não concordar em amor e, caso for conversar sobre esses pontos, não faça fofocas ou contendas, procure diretamente quem é responsável pela pregação na sua igreja, converse com ele com toda a humildade e avalie, conforme as respostas que te derem, se você consegue ficar e suportar em amor assim como Deus te suporta, ou se para você o que é ensinado é totalmente contra a sua fé e sua consciência, aí você pode ir em paz procurar outra igreja para congregar.

EXEMPLOS

Se a sua igreja tem uma doutrina muito ruim, aí sim, você pode considerar mudar de igreja.

Esses dias eu recebi a mensagem de um amigo me informando que estava saindo de sua igreja, que ele nasceu e cresceu nela, e considerava muito boa, mas aí começaram a misturar política com a pregação e, ao invés de pregar a fé, a graça e o perdão dos pecados, começaram a pregar que cristão tem que ser de Direita na política (e isso tem sido recorrente no meio evangélico, com pregadores e pastores dizendo que você tem que ser de Direita ou de Esquerda na política se quiser ser um cristão de verdade), que quem pensa diferente não é cristão, incentivar racismo, violência, coisas bem erradas; a gota d’água, segundo ele, foi quando seu pastor passou a pregar que uma mulher cristã deve cozinhar enquanto o homem prega pregos na parede e faz “trabalho de homem”, se ela não fizer trabalhos domésticos ela estaria caindo em “feminismo” e perdendo sua “credencial” de cristã. Sério mesmo, ir para a igreja para saber qual posição política tomar e quem deve cozinhar ou pregar pregos na parede realmente não tem nada de bíblico, isso está mais para comício do que culto. Isso já nem é problema doutrinário, porque não tem doutrina bíblica sendo ensinada, apenas conteúdo político.

Outra reclamação que recebo é como esta que motivou o post, que a igreja abandonou a Palavra de Deus para pregar coisas materiais, como prosperidade, curas, etc.. Mesma coisa aí de cima. Se abandonou a Lei que nos orienta em nossa vocação de servir o próximo e o Evangelho que nos mostra que somos perdoados pela graça de Deus, sem obras, sem campanhas, nem votos, nem nada que envolva dinheiro, “sacrifícios”, empenho de obras e etc, então não vale a pena prosseguir nesta denominação.

MEU EXEMPLO PESSOAL

Eu cito como exemplo a Igreja aonde comecei minha caminhada cristã. Eu nem sempre fui luterano, nasci em lar pentecostal e comecei minha vida cristã realmente numa Igreja Pentecostal. Eles têm uma declaração de fé que hoje não é mais seguida em quase lugar algum. Eles seguem cegamente seus pastores locais, lideranças regionais e a liderança nacional, e esta última não segue mais em absolutamente nada a declaração de fé desta igreja que já foi uma das maiores do país, hoje perdeu muito de sua relevância e número de membros. Esta denominação se descaracterizou totalmente em sua doutrina, adotou a teologia da prosperidade, práticas místicas como hipnose e regressão chamadas de “Encontro com Deus”, emocionalismo barato e um ensino baseado em filosofias humanas, como política e consumismo, ao invés da Palavra de Deus. Nisso, muitas igrejas locais e até mesmo a sede nacional abandonaram completamente a doutrina que era ensinada quando fui membro, nos anos 90. Aqueles que internamente se levantam contra isso foram perseguidos até por seus companheiros de denominação. Ainda existem muito poucos que permaneceram nesta denominação e se mantém apegados à palavra de Deus ao invés das doutrinas antibíblicas que inundaram a denominação, mas ficaram isolados e neutralizados em suas atuações. 

Depois me tornei calvinista, no começo foi até muito bom, aprendi muita coisa sobre graça e perdão dos pecados, achei que tinha encontrado a “ortodoxia bíblica”, mas com o tempo me afundei num mar de legalismos e doutrinas de homens, que até hoje dão má fama ao calvinismo no Brasil. O calvinismo, assim como o pentecostalismo, o luteranismo, etc, tem muitas variantes, algumas muito boas, outras muito ruins.

Foi difícil achar uma boa igreja para congregar, mas hoje estou muito feliz na Igreja aonde sou membro. 

CONCLUSÃO

Você nunca vai concordar com tudo de uma denominação. Mas você pode reavaliar suas prioridades doutrinárias e da vida cristã e avaliar o que é prioridade para a denominação. Se você concorda com as prioridades e você quer caminhar em comunhão com seus irmãos de sua denominação, então você deve engolir os sapos que o relacionamento humano exige, ser tolerante com as diferenças, aceitar os pontos que você não concordar.

Aceitar, ou acatar, não quer dizer concordar. Você não precisa concordar, e você pode até pedir a revisão destes pontos, pode também deixar claro que não concorda, ou ficar de boa e não levar contenda sobre isso na sua denominação, dê a sua opinião no seu blog, na rede social, numa boa, sem atacar ninguém, apenas dizer que você pensa que tal assunto deveria ser pensado de certa forma, como estou fazendo aqui, sem precisa dar nomes e fazer críticas diretas, apenas fazer reflexões amigáveis para expressar a sua opinião, por achar um tema de menor importância para a fé em geral, mas você deve respeitar e aceitar que os outros pensem daquela forma, mesmo você pensando diferente, pois você entende que a decisão da denominação em defender tal ponto que você discordar é uma decisão visando a comunhão e isso não é fundamental à fé, então você respeita. Por exemplo, se pode dançar ou não no culto, se pastor deve usar terno obrigatoriamente, se crêem na existência ou não do Livre Arbítrio, essas coisas).

Se for impossível fazer isso com sua denominação, se você perceber que as diferenças são muito maiores que a possibilidade de comunhão, então é melhor você avaliar se o problema é local ou é geral. Se for só sua igreja local, mas a denominação em si tem uma base doutrinária que você consegue comungar, então é o caso de você sair de sua igreja local, mas procurar outra da mesma denominação. Se for uma incompatibilidade com a base doutrinária, ou práticas gerais da denominação, aí sim é melhor você procurar outra para congregar. Sempre lembrando do que diz a Bíblia:

Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia.
Hebreus 10:25

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