friendship

Alguns cristãos, principalmente no meio evangelical*, carismático e neopentecostal, mas também em igrejas protestantes históricas e católicas, dizem que não é permitido aos cristãos manterem amizades, ou relacionamentos muitos próximos com pessoas fora do grupo religioso que eles fazem parte. Dizem que cristãos não podem andar com não cristãos e usam como base para esse pensamento a passagem bíblica escrita pelo profeta Amós que diz: “Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?” (Amós 3:3)

Será que realmente a ordem divina é se abster de relacionamento próximo e amizade com não cristãos?


Essa passagem é super mal interpretada por muitos, por causa da tradução mais formal da Bíblia. Traduzir a Bíblia não é nada fácil. No caso do português, é sempre bom ter versões diferentes para pesquisar quando tiver um dúvida de uma passagem, porque às vezes só uma tradução mais acurada pode resolver muitos problemas e às vezes essa tradução mais acurada está numa versão menos formal, como a NVI, ou a NTLH. Na NTLH lemos:

“Por acaso, duas pessoas viajam juntas, sem terem combinado antes?”

Aqui nessa passagem Deus não está orientando Lei nenhuma, apenas fazendo comparações lógicas para que os israelitas entendam a msg. Ele diz:

“Cai o pássaro num laço se não há nenhuma armadilha? Será que a armadilha do laço se desarma se nada foi apanhado?
Quando a trombeta toca na cidade, o povo não treme?” (Amós 3:5-6)

Deus está mandando fazer laços para pássaros? Está mandando tocar trombeta na cidade e o povo tremer? Não. Assim tb não é uma Lei o versículo 3, apenas uma comparação lógica e pedagógica. Deus está dizendo que assim como duas pessoas não conseguem fazer nada juntas se não estiverem de acordo sobre aquilo que os dois querem fazer, assim como um pássaro só cai numa armadilha se ela antes for montada e nenhuma armadilha se desmonta sozinha, assim como um aviso de perigo, como uma trombeta, ou sirene, traz medo a quem é avisado, assim também “Certamente o SENHOR Soberano não faz coisa alguma sem revelar o seu plano aos seus servos” (Amós 3:7). Antigamente Deus falava pelos profetas, hoje Ele fala pelas Escrituras e todos os perigos que culminação em perseguições, mortes, pestes, doenças, fome, guerras, e no fim do mundo já foram alertadas nas Escrituras.

Essa é a interpretação correta da passagem. Não há nada na passagem que indique alguma lei que proíba a amizade com não cristãos. Devemos avaliar os efeitos de qualquer amizade que temos. Se uma amizade nos afasta do Senhor, então podemos cortar a amizade até ao ponto de nem cumprimentar mais a pessoa, por uma questão de auto-preservação e amor ao Senhor. Mas se os efeitos de uma amizade não são prejudiciais, podemos desfrutar da amizade sem problemas. Mas, independente de tudo, amando sempre o nosso próximo como a nós mesmos..

 

* No período que se sucedeu à Reforma Protestante, os protestantes, por pregarem mais a salvação pela graça, por meio da fé, frisando na doutrina do Evangelho e não de leis e regras como era comum na Cristandade até então, foram chamados de “Evangélicos”, pela ênfase no Evangelho. Na Alemanha, no Reino Unido e nos EUA surgiram grupos, como os pietistas, puritanos e metodistas, que frisavam mais na experiência religiosa diária como cristãos e prezavam pela simplicidade nisso, deixando rituais, sacramentos e outras características que os cristãos adquiriram pela história de lado. Logo após, nos EUA, houve movimentos como “Grande Despertamento”, o “Pentecostalismo” e o “movimento Carismático” que seguiram no mesmo sentido, já deixando de lado o legado histórico do cristianismo mundial e se agarrando apenas às suas experiências locais, com ênfase apenas na interpretação individual da Palavra de Deus e da experiência de vida. Esse grupo, legado dos puritanos, pietistas, metodistas, pentecostais e carismáticos são chamados de “evangelicais”, por sua base evangélica como movimento protestante. No Brasil, a maioria das igrejas evangélica e protestantes históricas são do movimento evangelical, pelo legado dos EUA em nossa história evangélica. Mas algumas igrejas luteranas, anglicanas e reformadas se distanciam deste movimento.

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