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Existem muita visões e opiniões sobre o fim do mundo. Algumas interpretações das passagens bíblicas sobre o fim do mundo chegam até a ter repercussão na mídia sobre datas para o “mundo acabar” que nunca se cumprem e viram motivo de piada nas redes sociais.

Jesus foi claro quanto a datas:

Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai.

Mateus 24:36

Mas Ele não foi tão claro quanto aos sinais que precederiam o fim do mundo e inspirou o apóstolo João em sonho com imagens figuradas desses sinais e eventos, que então escreveu um livro cheio de alegorias para profetizar, por isso muito se especulou e muito se especula até hoje sobre como será o fim do mundo e o que vai acontecer antes disso. Com o tempo, uma ciência para estudar o fim de tudo foi desenvolvida, chamada escatologia, que significa “estudo das últimas coisas” e as especulações passaram a ser sistematizadas teologicamente. Continue lendo para conhecer essas especulações de forma bem resumida.

AS CORRENTES ESCATOLÓGICAS

Entre os judeus, havia uma corrente escatológica, já na época dos apóstolos, inclusive, que dizia que haveria um período de paz e prosperidade na Terra, o “Reino do Messias”, e depois seria inaugurada a Eternidade, essa corrente se chamava Quiliasmo. O teólogo William Masselink, falando do quiliasmo, diz que “os judeus dividiam o futuro em dois períodos distintos. A primeira era é considerada de natureza temporal e é designada como o reino do Messias. A segunda era é de duração eterna e é chamada de o reino de Deus”[1]. Essa ideia de ter um período intermediário entre os dias difíceis de agora e a eternidade de alegrias, sendo esse período governado pelo Messias, permeou muitos cristãos no começo, que interpretavam os “mil anos” descritos por João em Apocalipse como literais e não uma metáfora, como outros cristãos acreditavam, trazendo o quiliasmo para o cristianismo, crendo que haveria um período de paz e prosperidade mundial sob o comando do Messias, ou da Igreja. Não consideravam que a alegoria de João ao citar o quiliasmo judeu seja para se referir a alegria espiritual que o Senhor nos dá pela fé, mas consideravam que João estaria validando o quiliasmo judeu e traziam esse tipo de esperança para o cristianismo.

Com o tempo, o quiliasmo foi suprimido no cristianismo. Tanto na Igreja Católica Romana, como na Igreja Ortodoxa Oriental, o quiliasmo perdeu seu espaço e a interpretação dos “mil anos” como metafóricos, que hoje é chamada de amilenarismo, ou “amilenismo”, se tornou oficial na Cristandade. A Bíblia de Jerusalém, comentando sobre Apocalipse 20.4, aonde se faz menção aos mil anos, observa a falta de força dessa interpretação na Igreja Cristã:

Ap 20.4: Vi então tronos, e aos que neles se sentaram foi dado poder de julgar. Vi também as vidas daqueles que foram decapitados por causa do Testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e dos que não tinham adorado a Besta, nem sua imagem, e nem recebido a marca sobre a fronte ou na mão; eles voltaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos.

Nota BJP: Esta “ressurreição” dos mártires (cf Is 26,19; Ez 37) é simbólica: é a renovação da Igreja depois do término da perseguição romana, com a mesma duração do cativeiro do dragão. Os mártires que esperam sob o altar (6,9-11) estão agora felizes com Cristo. O “reino de mil anos” é, portanto, a fase terrestre do Reino de Deus, desde a queda de Roma até à vinda de Cristo (20,11ss). – Para santo Agostinho e muitos outros, os mil anos se iniciam com a ressurreição de Cristo; a “primeira ressurreição” seria então o batismo (cf Rm 6,1-11; Jo 5,25-28). – Desde a Igreja Antiga, uma corrente da Tradição interpretou literalmente este versículo: após uma primeira ressurreição real, a dos mártires, Cristo voltaria sobre a terra para um reino feliz de mil anos, em companhia de seus fiéis. Este milenarismo literal nunca foi favorecido na Igreja. [2]

Na época da Reforma, o quiliasmo continuou sendo combatido pelos reformadores. Na Reforma Luterana Alemã, a Confissão de Augsburgo, confissão feita por Melanchton, endossada e assinada por Lutero, falando do quiliasmo, é categórica:

Aqui se rejeitam, outrossim, algumas doutrinas judaicas que também ao presente se manifestam e segundo as quais antes da ressurreição dos mortos um grupo constituído integralmente de santos e piedosos terá um reino terrestre. [3]

Calvino, líder da Reforma Suiça, mostra que o quiliasmo já não tinha expressão na época, tanto que, para ele, não merecia muita atenção. Nas suas Institutas, ele diz:

pouco depois, seguiram-se os quiliastas, que limitaram o reinado de Cristo a mil anos. E, em verdade, a ficção desses é por demais pueril para que tenha necessidade de refutação ou seja ela digna. Tampouco Apocalipse lhes empresta suporte, do qual certamente tiraram pretexto para seu erro, quando no número milenário [Ap 20.4] [4]

Depois da Reforma, no meio protestante posterior, o amilenarismo foi deixado de lado em algumas correntes no Reino Unido e nas Américas e surgiram propostas escatológicas ressuscitando o quiliasmo em torno dos mil anos mencionados em Apocalipse, por isso passaram a ser chamados de “milenaristas”. Essas posições hoje se dividem assim:

  • Pré-Milenarismo
  • Pós-milenarismo

Abaixo uma pequena síntese dessas posições cristãs.

AMILENARISMO

Nesta posição, o milênio não existe, é apenas uma metáfora usada por João, dentro da crença quiliasta judaica, para se referir ao bem estar da vida cristã, bem-estar espiritual, independente das condições externas, como justiça social, prosperidade material, etc, o Reino de Deus prometido por Cristo aos que crêem não é deste mundo, mas já o vivemos neste mundo pela fé, espiritualmente, a justiça de Deus não é social, mas forense, diante de Deus, espiritual, em Cristo, como perdão dos nossos pecados, se refletindo na vida terrena dos cristãos pela santificação, também pela graça de Deus; o domínio temporal de Deus sobre o mundo como Criador não é político através da Igreja, do Capitalismo, do Marxismo, etc, mas sim seu cuidado e misericórdia com suas criaturas, por qualquer sistema político, e também é diferente do Reino de Deus que Jesus prometeu aos que crêem.

Ou seja, o Reino de Deus está presente em dois regimentos diferentes, em um Ele cuida de suas criaturas por meio da natureza e de leis naturais que orientam o curso natural e moral do mundo, regimento este percebido pela razão e pela natureza; enquanto por outro regimento Ele orienta os que crêem, salva, justifica, batiza, santifica, atua de forma espiritual para os que creem em Jesus. Sendo assim, os benefícios do Reino de Deus são vividos aqui na Terra pela fé, pela ação do Espírito Santo. Já os (pré e pós) “milenaristas”, crêem que além dos benefícios espirituais, haverá um período de paz e alegrias na Terra, tendo como base a menção de apocalipse ao “milênio”; mas para o amilenarista o milênio, por ser metafórico, já está acontecendo e trazendo paz e cuidados divinos aos que crêem e foram ressuscitados por Cristo no batismo.

Também a tal “Grande Tribulação”, que muitos milenaristas hoje mencionam como sendo um outro “período” antecedendo o milênio para eles, é um termo que descreve os sofrimentos do cristão, para os amilenaristas, não um período, mas os problemas que o mundo nos traz ao seguirmos a Cristo, como rejeição, perseguições, dúvidas, desânimo, podendo até ser a causa de nossa morte, como para muitos que morrem pela fé e são martirizados por conta dela..

A perseguição aos cristãos só cresce no mundo e a tribulação é muito grande para muitos cristãos, mas em Cristo temos paz e justiça espirituais, as bênçãos descritas no milênio não são um período, mas são espirituais e vividas pela fé. Satanás já está limitado em suas ações (Hb 2.14), portanto preso, senão ele destruiria a todos, começando pelos cristãos, o poder do demônio foi aniquilado na cruz e sua atuação no mundo é temporal e limitada. O retorno de Jesus será a qualquer momento e será já o fim do mundo, sem o “milênio” como sendo um período de tempo, sendo a volta de Cristo já o juízo final e novos céus e nova terra.

Essa é a vertente oficial entre luteranos, mas também é a corrente oficial, com suas variações, das igrejas Católica, Ortodoxa, Anglicana e de muitas denominações históricas. Mas entre seus membros nem todos são adeptos, alguns são adeptos de outros entendimentos escatológicos, mesmo que suas igrejas abracem uma visão oficial.

PRÉ MILENARISMO

No pré milenarismo que se difunde hoje no meio protestante, temos duas correntes.

Em uma, se acredita que Satanás está solto e aterrorizando o mundo, o pecado e o mal na Terra só vão piorar, até chegarem ao ápice com o advento do Anticristo, que pode ser uma pessoa que governará o mundo pelo poder de Satanás, ou outrs pré milenaristas concordam que o anticristo pode ser tudo o que se levanta contra Cristo, não necessariamente uma pessoa. Muitos creem que haverá uma grande tribulação para os cristãos se o anticristo for uma pessoa e que os cristão sofrerão terríveis perseguições durante o período do anticristo. Outros concordam conosco que a grande tribulação já está acontecendo, mas acreditam que ela será interrompida com o retorno de Cristo para um governo de paz e alegrias por um período de mil anos após o retorno dele.

Dentro da narrativa do anticristo como pessoa, se acredita ainda que o Anticristo atuará na política, que será uma pessoa que antecederá o milênio unindo o mundo politicamente e trazendo uma falsa sensação de paz e justiça social na Terra, mas que, com o tempo, ele passará a se mostrar como sendo o enviado do diabo para matar muitos e destruir o que conseguir. Esses pré-milenaristas que creem nessa narrativa acreditam que, após o anticristo, Jesus volta, derrota a Besta (Anticristo) e estabelece um Reino de mil anos de paz e justiça, onde haverá também uma conversão em massa pelo mundo com a presença dele na Terra. Depois do milênio, Satanás será solto novamente e Jesus o vencerá de uma vez por todas. Após isso, Cristo lançará Satanás, o anticristo e todos os condenados no lago de fogo.

Em comum entre eles, os pré milenaristas acreditam que somente após os mil anos haverá a derrota definitiva de satanás e novos céus e nova terra para o cristão morar eternamente, alguns também crêem que os novos céus e uma Terra se referem a um novo sistema político, social e espiritual após o milênio aqui na Terra mesmo. Ou seja, Jesus volta para inaugurar este milênio e reinar na Terra por mil anos.

Sobre o pré milenarismo, o teólogo calvinista Millard Ericksson resume:

O pré-milenismo devota-se ao conceito de um reinado terreno de Jesus Cristo, com duração de cerca de mil anos (ou, pelo menos um período substancial de tempo). […] entende que Cristo estará fisicamente presente durante esse tempo; crê que Jesus retornará de forma pessoal e física, a fim de iniciar o milênio.[5]

E há outra vertente pré milenarista mais atual, chamada de Dispensacionalismo. Esta é a vertente mais popular nas Américas. Ela foi criada no século 19 na Inglaterra. A princípio, buscava separar a história humana em períodos, ou “dispensações”, determinando “fases” na linha do tempo da narração bíblica e da História humana. Dizia que o período entre a criação do Universo e do homem foi uma fase em que Deus agiu de certa forma, na “Dispensação da Criação”; Depois agiu de forma diferente em outra “dispensação”, ou “fase”, até o dilúvio; depois do dilúvio, Deus tratou com o Universo de outra forma em outra dispensação no período até Moisés; depois, entre Moisés e Jesus, houve outro período, chamado de “Dispensação da Lei”; agora, depois de Jesus, estaríamos, segundo essa corrente, na “dispensação”, ou “época da graça”, que vai acabar na “dispensação” do arrebatamento e do anticristo; então vem a dispensação do “milênio”; e depois a dispensação final, da Nova Jerusalém.

Os dispensacionalistas crêem que antes do Anticristo haverá um arrebatamento invisível e secreto, quando, segundo eles, Jesus virá à Terra, antes de seu retorno triunfal, mas numa primeira vinda será para levar só os crentes e só os crentes verão a Jesus retornando sobre as nuvens, o resto da humanidade não O verá. Neste evento, segundo essa narrativa, os crentes serão “arrebatados” por Jesus para se encontrar com Ele nas nuvens, mas só os “arrebatados” verão este acontecimento, o resto da humanidade não, mas vão ficar na Terra e encarar a “Grande Tribulação”.

No dispensacionalismo, a Grande Tribulação é um período ligado à dispensação do Anticristo, que na narrativa dispensacionalista mais popular será de 7 anos, sendo 3 anos e meio de paz, aonde o anticristo trará a solução para a maioria dos males do mundo e unirá a humanidade em torno dele, e 3 anos e meio de grande tribulação. Para a vertente dominante do dispensacionalismo, a grande tribulação é um período de dor e sofrimento, principalmente para os que passarem a crer em Jesus após este evento do “arrebatamento” e não terão mais a “graça” para os auxiliar na fé (sinergismo), que já teve sua dispensação passada. Vão ter que seguir a Jesus pelos seus próprios esforços e só quem não aceitar o reinado do anticristo e a marca da besta é que será salvo nesta dispensação do anticristo e da grande tribulação. Mesmo na atual “dispensação”, somente os fiéis na fé e nas obras escaparão da grande tribulação. O retorno de Cristo só se dá depois da “dispensação do anticristo”, quando Jesus volta mais uma vez depois, agora sim na vista de todo mundo, e aí estabelece um milênio de paz e alegria, converte a maioria durante esse período, depois há a soltura de satanás, muitos são enganados e então acontece o Juízo final, dentro dessa narrativa.

Esta é a corrente mais popular no Brasil e também é muito forte nos EUA e por todas as Américas. Por lá, há também uma dose forte de nacionalismo e política, baseada um pouco no pós-milenarismo puritano [6], como veremos a seguir, muitos dispensacionalistas crêem que os EUA serão o exército que Deus usará contra o Anticristo [7], como vemos nos filmes de lá que fazem sucesso por lá e por aqui, como “Deixados Para Trás”, “Meggido”, “Apocalipse”, etc.. No Brasil, essa influência também se faz presente entre muitos dispensacionalistas, principalmente no meio neopentecostal.

PÓS MILENARISMO

Outra vertente relativamente recente é o pós milenarismo, ou “pós-milenismo”. Ela nasceu no Reino Unido, entre muitos calvinistas puritanos, no século 17, mas influenciou, e ainda influencia, muitos cristãos nos EUA e muito de doutrinas seculares também por lá, não só na teologia. Mesmo em grupos que rejeitam o pós-milenarismo, essa narrativa mostra sua influência. Quando você vê alguém dizendo que os EUA são os “legítimos” governantes do mundo para o bem do mundo, aí está a influência dessa narrativa, seja em discursos políticos, pregações, em filmes, etc.

Esta narrativa do pós milenarismo foi a principal mentalidade predominante entre evangélicos estadunidenses até a primeira metade do século 20, sobre escatologia. Sua influência se estendeu também a movimentos com diferentes escatologias fora do pós-milenarismo, como os grupos “restauracionistas”, considerados heréticos pela cristandade, grupos como os Mórmons, Adventistas, Testemunhas de Jeová e outros que, mesmo com uma escatologia milenarista diferente do pós milenismo puritano, também pregam um papel importante ou principal dos EUA sobre a “salvação” do mundo, uma esperança de felicidade e paz terrenas, vários elementos da narrativa pós milnarista, mostrando a influência dessa narrativa sobre os EUA no passado e no presente também.

Até no meio secular a narrativa pós-milenarista nos EUA foi muito influente, culminando formação da doutrina do “Destino Manifesto”, no século 19, que influencia a mentalidade expansionista estadunidense até hoje na política, até mesmo entre os secularizados descrentes no cristianismo.. Como observa Michelle Balbino:

“a expansão territorial era um direito divino concedido aos americanos para se espalharem por toda a América do Norte, apoiados por Deus… Observa-se nesse ponto a ligação imediata e concebida desde a fundação dos EUA, pela influência protestante puritana calvinista, onde agora não somente pelo exemplo, mas como uma doutrina expansionista”[8]. Citando Voltaire Schliling: “A ideologia do Destino Manifesto, largamente difundida pelos jornais daqueles tempos, nada mais era senão uma versão secularizada da idéia do Povo Eleito dirigindo-se para a Terra Prometida, tão a gosto dos puritanos que haviam começado a desembarcar na América no século XVII”. [9]

Nesta vertente, se acredita que haverá uma conversão em massa no mundo, e um período de paz e prosperidade mundial devido a essa conversão. A maioria das pessoas no mundo serão cristãs, segundo o entendimento deles de cristianismo, que é um entendimento fundamentalista calvinista; por isso, acreditam que implantarão o “Reino de Deus” na Terra segundo os valores deles, pela influência e participação ativa nas esferas das sociedades humanas, incluindo a política.

Essa narrativa teve efeitos positivos, pois boa parte das missões transculturais duas EUA e da Inglaterra foram motivadas pela esperança de um mundo melhor e se ganhar o mundo para Cristo dentro dessa narrativa, ou seja, que o mundo seja cristianizado pela pregação da palavra e serviço ao próximo; porém também teve seus efeitos colaterais, como o fundamentalismo cristão no seu sentido pejorativo do termo, aonde política e fé se misturam e se cria formas diferentes de “Teologia de Domínio”, onde se crê que o mundo deve ser cristianizado num primeiro momento pela pregação, mas depois pelo uso da política e da força, que devem seguir doutrinas mesmo contra a vontade delas e os cristãos devem guardar a interpretação deles da Palavra de Deus, principalmente sobre leis e regras, pela força. Vemos esse ápice fundamentalista num movimento sectário calvinista radical chamada “Teonomia”, por exemplo. Segundo o pós-milenarista Greg Bahnsen, adepto também da Teonomia: “O cristão fica obrigado a guardar toda a Lei de Deus como modelo de santificação e esta Lei deve ser forçada pela magistratura civil”[10]

Acreditam que esse Reino será estabelecido na Terra por muito tempo, mas negam a literalidade dos mil anos. Jesus volta só depois deste período, julga os mortos e os vivos e todos ficamos aqui mesmo, num novo sistema de vida social e política que será o cumprimento de “Novos Céus e Nova Terra”. Acreditam que nesse período “milenar” (mesmo que não creiam que sejam mil anos literais, muitos usam este termo), haverá paz e justiça social, que a Igreja será íntegra e a maioria das pessoas crerão no Evangelho. Acreditam que devem influenciar todas as áreas de atuação humana, política, economia, sociedade, cultura, conhecimento, etc, para chegarem a este “milênio” (não literal) de paz, prosperidade e justiça.

O teólogo Loraine Boettner explica resumidamente:

“O Pós-milenarismo é aquela visão das últimas coisas que afirma que o reino de Deus está sendo agora estendido por todo o mundo através da proclamação do evangelho e da obra salvífica do Espírito Santo, de modo que o mundo será finalmente cristianizado, e que o retorno de Cristo ocorrerá ao final de um longo período de justiça e paz normalmente chamado de Milênio.”[11]

Esse pensamento foi popular na Grã Bretanha e nos EUA por muito tempo. Depois das duas guerras mundiais, esse pensamento declinou, hoje são muito poucos sustentam essa visão pós-milenarista, mas a influência desta doutrina ainda é muito forte no Ocidente entre os protestantes, principalmente nas Américas, aonde as ideias de um domínio político em nome de Cristo,  ou dos “valores cristãos”, é pregada em muitas igrejas, e mesmo pós milenaristas convictos ainda resistem em alguns lugares, mas com pouca expressão ou confinados em grupos sectários como a “Teonomia” (seita calvinista que prega que as leis civis de Moisés, reinterpretadas por eles, ainda seriam válidas hoje em dia como reguladoras da fé cristã e de políticas públicas).

Por aqui, a principal influência se vê em teorias de conspiração presente em cristãos de Direita que veneram o capitalismo estadunidense e demonizam a “esquerda” na política como se fosse incompatível para o cristão e buscam a implantação do capitalismo, livre mercado, etc, como a salvação econômica do mundo e coisas desse tipo, acreditando que haverá paz e prosperidade no mundo se seguirem doutrinas políticas e econômicas, diferente da pregação cristã que apresentam a paz como um bem espiritual recebido pela fé somente. Mas essa ilusão não é só “privilégio” dos cristãos mais conservadores, entre cristãos ditos “progressistas” também existem pensamentos influenciados pelo pós-milenarismo. O chamado “Evangelho Social”, que influenciou doutrinas como a “Teologia da Libertação”, “Missão Integral” e outras doutrinas populares, também recebeu influência do pós-milenarismo, acreditando que haverá paz e justiça social no mundo pela mistura de fé, política e economia, por exemplo, mostrando paralelos com o pós-milenarismo e a possível influência disso nessas vertentes teológicas também.

No Brasil, também vemos a influência dessa mentalidade se espalhando por várias denominações e correntes teológicas nos discursos invocando uma tal “cosmovisão cristã” por parte de calvinistas que entendem o Reino de Deus como vindo ao mundo por meio da atuação social, cultural e política, mesmo entre os que discordam de uma escatologia “pós-milenarista”, como os neocalvinistas, vemos as mesmas características de pensamento que pregam o domínio cultural, político e teológico em nome de uma “cosmovisão cristã”, igual se vê no pós-milenarismo.  Até no luteranismo vemos essa “cosmovisão cristã”, contrária ao nosso conceito teológico de justificação somente pela fé,  da teologia dos dois reinos (ou duas mãos do Reino de Deus) e da ética como vocação do cristão ao invés de “cosmovisão”.

MILENARISMO “LIGHT”

Outras esperanças milenaristas também são muito fortes no meio protestante e até católico no Brasil. Teologias populares como a Teologia da Libertação, a Teologia da Missão Integral, Neocalvinismo Teologia da Prosperidade e outras teologias que buscam “integralizar” a mensagem do Evangelho com ação social com o objetivo de “redimir”, “prosperar” ou “libertar” as pessoas pela pregação, pela ação social, pela economia e política, esperando por paz e justiça social na Terra de forma local, como a Teologia da Libertação que prioriza a América Latina em suas narrativas. Para estes milenaristas mais “light”, não há a narrativa de um período milenar de paz e prosperidade na terra, mas acreditam que a felicidade social pode ser alcançada neste mundo, através do trabalho cristão como sendo ação divina, o que não deixa de ser semelhante ao antigo quiliasmo judeu e ao pensamento milenarista de grupos protestante, só que com outras características e nuances, sem falar de um “reino milenar”, mas apresentando uma escatologia, uma esperança terrena, assim como o milenarismo faz e o quiliasmo fazia também.

Para estas teologias, o cristão tem o papel obrigatório de agente de transformação social, e a Igreja deve atuar para trazer paz e prosperidade material ao mundo, ou seja, trazer o “Reino de Deus” ao mundo, segundo eles, pelo trabalho social ou mesmo político. Mesmo muitos amilenaristas professos são adeptos dessas teologias que pregam o Reino de Deus no mundo como tendo por objetivo não o Resgate e o perdão dos pecados apenas,  mas também, ou principalmente (para alguns), ser um agente de transformação social. Para estes, a pregação da mensagem cristã deve ter efeito social, senão não é cristã de verdade. Essas visões mais “light” são muito criticadas no meio cristão por promover a justificação pela ação social e não pela fé somente.

CONCLUSÃO

O amilenarista não é apático e alheio às questões sociais do mundo, mas ele sabe que o mundo jaz no maligno e que somente na nova Jerusalém teremos paz e alegria plena. Aqui podemos trazer melhorias e trabalhar pelo melhor para a nossa sociedade e nosso próximo. Não estamos proibidos de atuar na política, na economia, etc, mas não fazemos isso para “cristianizar” o mundo, atuamos em nossos trabalhos e em nossas vocações para servir, não para dominar, para ajudar as pessoas dentro de nossas habilidades, compartilhando aquilo que recebemos de Deus, nossas capacidades, habilidades, a paz espiritual e a alegria em Cristo. Não olhamos para o futuro esperando um mundo cristianizado, um reino milenar de Cristo aqui na terra, ou paz e justiça social plenas através de políticas públicas Marxistas ou Capitalistas, mas olhamos para o mundo como uma criação afetada pelo pecado do homem, em que não há solução política ou econômica, como nunca houve, que seja duradoura ou eterna, mas sempre o pecado vai estragar as coisas, por isso recorremos ao Espírito Santo para a nossa paz, não a uma esperança neste mundo, mas fora dele. Cremos que no futuro a ressurreição trará novos céus e nova terra, se haverá destruição deste mundo ou transformação, não vou especular aqui, mas nossa esperança está no retorno de Cristo e no juízo final, não num período de tempo para um mundo melhor.

Tentei fazer um resumo das posições escatológicas mais populares no Brasil. Eu sou amilenarista, mas tentei descrever de forma respeitosa e bem resumida as outras posições. Claro que todo resumo deixa muita coisa de fora,  não dá para colocar todas as formas e variações das correntes escatológicas que eu abordei e talvez alguns vão achar imprecisas ou mesmo “injustas” minhas descrições dessas posições, infelizmente posso mesmo não ter tratado com os detalhes merecidos por estas posições, mas aqui abaixo tem a bibliografia das citações que usei, com trabalhos bem mais completos sobre o assunto para você pesquisar e tirar a sua própria conclusão. Este artigo foi só uma apresentação resumida das posições mesmo.

 

Bibliografia:

1 – Why Thousand Years?, pág 20. William Masselink. Eerdmans Publishing Company.

2- BÍBLIA DE JERUSALÉM, nota b de Apocalipse 20.4, p. 2164. São Paulo, SP: Paulus, 2008.

3- Confissão de Fé de Augsburgo, Artigo 17.

4- Institutas da Religião Cristã – Volume 3, pág 453. João Calvino.

5- Para mais informações sobre a relação entre nacionalismo e as visões escatológicas nos EUA, conferir Merriam Webster – Encyclopedia of World Religions, 1999, capítulo sobre millenialism de Richard Landes.

6- No Brasil, a Revista “Chamada da Meia-Noite” traduz vários artigos dispensacionalistas aonde se pode conferir mais a fundo esta vertente.

7-Introdução à Teologia Sistemática, pág 511. Millard J. Ericksson. Editora Vida Nova.

8- Monografia universitária, pág. Michelle Balbino. Extraída da internet em <https://unibhri.files.wordpress.com/2010/12/michelle-balbino-a-influc3aancia-protestante-na-formac3a7c3a3o-dos-eua-e-sua-polc3adtica-exterior_-da-fundac3a7c3a3o-ao-destino-manifesto.pdf&gt;

9- Ibidem, pág 26

10- Basenotes, Greg. Theonomy. pág 34, citada por Mary Schulz no artigo dela sobre Teonomia, no site dela na Internet.

11- BOETTNER, Loraine. The Millenium. Grand Rapids: Baker, 1975. Citação extraída do artigo sobre pós-milenarismo sob uma crítica luterana, do professor Gerson Linden, aqui do meu blog, aonde ele põe muitas referências bibliográficas de suas citações para estudo da posição pós-milenarista. Você pode conferir em https://thiagosurian.wordpress.com/2014/03/14/a-escatologia-luterana-e-o-milenarismo/

 

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