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Vou tentar trabalhar as diferenças que eu percebo como luterano com os demais evangélicos. Esse texto tem suscitado muitas perguntas a mim nas redes sociais, por parte de evangélicos das mais variadas vertentes, então tive que fazer uma longa introdução, que ficou até maior que a apresentação das diferenças em si, explicando como funciona o Luteranismo, para que as pessoas entendam o contexto luterano e assim tirem suas conclusões com mais conhecimento sobre nós. Este não é um artigo acadêmico, eu não estou falando em nome de nenhuma denominação luterana, nem tentando fechar o assunto, apenas escrevi como um luterano vindo do movimento evangelical e por isso trabalho as diferenças que mais sou questionado, que é a soteriologia, ou seja, a doutrina a respeito da salvação.

A DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO

Para nós, a doutrina da justificação é o tema central, e cremos ser a justificação somente pela fé em Jesus Cristo, que é rejeitada pela maioria dos calvinistas e arminianos no Brasil, que até crêem na justificação pela fé, mas costumam rejeitar que seja somente pela fé, dizendo que se não houver obras, ou a pessoa nunca foi justificada, ou ela pode perder a justificação, dependendo da vertente. Esse tema sempre causa conflitos entre mim e evangélicos, quando digo que não há a necessidade nenhuma de obras para ser aceito por Deus, mas já vou deixar claro que pensar de maneira diferente não significa para mim que você não está justificado e não seja aceito por Deus, porque essa fé que nos justifica diante de Deus é a (confiança) em Jesus, não é  (adesão intelectual) na doutrina da justificação somente pela fé; afinal, não é por obras.. Rsrsrs..

Por isso a maioria dos luteranos não julga os cristãos de outras vertentes por causa de uma confessionalidade diferente, eu não vou fazer esse julgamento no meu texto também. Vou apenas apresentar as diferenças. Jesus não permitiu que eu julgue as pessoas sobre a salvação delas (Mt 7.1). Isso pertence a Ele. Então não se sinta sendo “condenado” por mim com o meu texto se você pensa diferente. Estou apenas apresentando minhas percepções como luterano referente aos entendimentos diferentes sobre esse assunto dos demais evangélicos.

OUTRAS DIFERENÇAS

Existem outras diferenças entre luteranos e o movimento evangelical, e mesmo internamente entre luteranos no Brasil na teologia e na cultura eclesiástica, há diferenças na forma de cultuar, no entendimento sobre sociedade e política, na Cristologia, na forma de interpretar a Bíblia, nas formas de organização eclesiástica, muitas outras diferenças que podem ser trabalhadas, mas quase que a totalidade das perguntas que recebo são sobre a questão da predestinação, então vou trabalhar sobre esse assunto aqui. Talvez com o tempo eu passe minhas impressões sobre outros assuntos culturais ou teológicos, vamos ver..

UMA RÁPIDA AUTOBIOGRAFIA

Fazendo uma rápida autobiografia, eu nasci em lar pentecostal, passei a infância e a adolescência como pentecostal e peguei o advento do neopentecostalismo no Brasil também, na transição entre a década de 90 e os anos 2000. No meio da década eu passei um período em crise de fé e andei por diversas vertentes e religiões diferentes, sem ter uma confessionalidade determinada. Nessa época andei entre “judeus messiânicos”, “neo-ortodoxos”, “teístas abertos”, e também procurei conhecer religiões como Mormonismo, Testemunhas de Jeová, Seicho No Ie, Igreja Messiânica Mundial, Perfect Liberty, Kardecismo, enfim, estava bem confuso, passei uns 3 anos procurando tudo até sossegar no Calvinismo, na metade da primeira década dos anos 2000. Passei a segunda metade desta década como calvinista da ala “puritana”, mas muitas coisas dessa vertente já não entravam na minha cabeça, não as conseguia ver como bíblicas. Chegou um momento que eu me percebi como tendo me tornado uma pessoa muito legalista, fundamentalista, o amor para com Deus parecia um caso de auto-afirmação e o amor pelo próximo se tornou desnecessário na minha teologia pessoal, até mesmo nulo em muitos casos, o importante era a “glória de Deus”, a “teologia da glória” era a forma como eu interpretava o cristianismo. Aquilo passou a me incomodar e angustiar muito, eu me sentia um “psicopata da fé”, estava me sentindo muito mal com aquela teologia, então passei a olhar com uma quantidade enorme de ressalvas ao que eu acreditava, a Teologia que eu abraçava, não conseguia concordar com muito do que ela ensinava, mas ainda assim eu a considerava a mais próxima da Bíblia disponível e eu convivia com ela, mesmo tendo muitos questionamentos tanto das premissas, como do conteúdo, quanto também do efeito que a Teologia reformada (calvinista-puritana, neste caso) fazia nas pessoas.

Veja bem, estou falando de minha experiência própria, não estou generalizando contra os calvinistas fãs do puritanismo, nem contra os pentecostais. Eu não pretendo aqui atacar as teologias que eu já fui adepto, como a puritana, o pentecostalismo, ou o arminianismo, apenas citei os problemas pessoais que eu tive com elas e ainda assim espero evitar conflitos desnecessários, só quero clarificar que, dentro de uma perspectiva subjetiva, eu levantei certos questionamentos que me fizeram concluir que essas teologias não são para mim. Mas se você é adepto de uma das perspectivas teológicas mencionadas neste meu texto, fique ciente do meu respeito à sua liberdade religiosa e que a minha intenção não é atacar o que você acredita, apenas te mostrar as diferenças.

Por fim, algumas coisas aconteceram na minha vida e eu tive que procurar uma outra igreja, foi então que eu comecei a frequentar a Igreja Luterana perto de casa. No começo eu estranhei muito a Liturgia e a doutrina. Mas eu me interessei bastante. Foi então que ganhei um Livro de Concórdia de presente do pastor de lá e comecei a estudar. Já tinha em casa alguns livros luteranos que ganhei de amigos e estavam lá guardados e empoeirados. Então tirei a poeira e comecei a ler. Foi aí que resolvi deixar de vez para trás a Teologia reformada e me tornar um luterano. E como gostei muito do Livro de Concórdia e considerei (como ainda considero) uma expressão fiel das Escrituras, entrei para o Luteranismo Confessional, me filiei a uma igreja Luterana confessional (IELB) e hoje me sinto muito feliz como luterano, inclusive vindo para o seminário desta denominação para servir como puder e for útil dentro dessa paixão pela teologia e por atender as pessoas que eu tenho e com qualquer outra capacidade que eu tiver de ajudar os meus irmãos aqui.

Na minha família, também amigos próximos e nas redes sociais, todos dizem que eu mudei muito depois de virar luterano, que me tornei uma pessoa melhor, eu também me sinto bem melhor. E todos ficam muito curiosos para saber o que é essa teologia que me trouxe tantos resultados positivos. Como eu falei acima, existem muitos detalhes e diferenças, mas a maioria quer saber a questão soteriológica. Nas páginas que tenho nas redes sociais, tenho sido questionado com certa frequência sobre a crença Luterana a respeito da Predestinação e do “Livre-Arbítrio” também por pessoas que não me conhecem, isso é bem recorrente.

A DICOTOMIA EVANGÉLICA

Os evangélicos geralmente avaliam a teologia luterana dentro de sua dicotomia “calvinismo x arminianismo“. Calvinistas e arminianos que puxam a teologia para seus lados pegam trechos isolados de escritos de Lutero e de teólogos luteranos para levar o luteranismo para o calvinismo ou empurrar para o arminianismo. Isso está muito longe da verdade.

OS CALVINISTAS

Os questionamentos mais frequentes vêm de calvinistas que lêem o livro “Nascido Escravo” (título de uma adaptação feita por calvinistas para a obra “Da Vontade Cativa”, de Martinho Lutero) e acreditam que somente o que está neste livro é a teologia de Lutero sobre “Livre-Arbítrio”, sendo que logo na introdução a editora já explica que se trata de uma “versão condensada” do “Da Vontade Cativa”, de Lutero (e Lutero escreveu dezenas de outros livros, não só este), ou seja, é uma versão adaptada, uma compilação, muita coisa foi editada e muita coisa ficou de fora. Não sei porque ainda deixam o autor como Martinho Lutero, sendo que não é a obra original, mas uma adaptação, uma paráfrase. Acredito que a intenção do compilador do “Nascido Escravo” e da editora que lançou seja simplificar o entendimento da obra “Da Vontade Cativa”, mas muitos acabaram entendendo errado a Teologia de Lutero e passaram a entender que Lutero acreditava na “dupla predestinação” ou “Expiação Limitada” calvinista. Trechos importantes foram omitidos, como o argumento de Lutero contra a Diatribe de Erasmo respondendo sobre o argumento de Erasmo defendendo o “Livre Arbítrio” diante de Deus, que aparece nas páginas 101 e 102 das Obras Selecionadas de Lutero – Volume 4, citada acima, onde Lutero explica sua visão teológica da vontade oculta e da vontade revelada de Deus, argumentando que a vontade revelada de Deus é a que todos os homens sejam salvos, mas sua vontade oculta confere essa salvação a eleitos. Partes importantes do argumento de Lutero são omitidas, como essa, nas páginas que eu citei dessa obra:
“Porque esse quer que todos os seres humanos sejam salvos, visto que vem a todos com a palavra de salvação; e a falha é da vontade (humana) que não o admite, como diz Mateus 23.37: Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, e tu não o quiseste!”

Quero acreditar que a omissão de trechos assim não foi intencional para dar um entendimento errado da teologia de Lutero, mas como isso criou algum mal entendido entre os calvinistas, que chegam a acusar os luteranos de não seguirem o “Luteranismo original”, sem entender o pensamento de Lutero, nem o dos luteranos de fato, deixo aqui o conselho que você adquira o Volume 4 das Obras Selecionadas de Lutero pelas editoras Concórdia e Sinodal, assim você vai ter acesso ao trabalho original de Lutero e poderá tirar conclusões mais apuradas, ao invés de ficar com o “Nascido Escravo”. Eu não sei o que houve na confecção dessa obra, não estou concluindo nada sobre ela, apenas te falando que existe uma obra original e uma editada, então te aconselho a ficar com a original para entender melhor a teologia de Lutero e ler outras coisas dele também para tirar suas conclusões.

OS ARMINIANOS

Alguns arminianos também me procuram ao ver as críticas e rejeições que os luteranos têm com  movimentos calvinistas, como o puritanismo, e  discordâncias com o calvinismo em si, e acreditam que o luteranismo esteja de acordo com o arminianismo que eles abraçam; acham que Lutero e os luteranos eram sinergistas aos moldes de John Wesley ou de Tiago Armínio. Existem realmente movimentos e idéias sinergistas entre nós, como confesso aqui no texto, não confessionalmente, só entre luteranos, como é o caso de muitos luteranos pietistas, mas nossas confissões rejeitam esse pensamento.

LUTERANOS “ORIGINAIS”

Alguns calvinistas muito equivocados, baseados neste “silêncio” sobre a predestinação que eles atribuem ao luteranismo, acusam os luteranos “atuais” de não crerem na predestinação e por isso seríamos “arminianos” (grupo calvinista surgido na Holanda no século XVII que reinterpretou a doutrina da predestinação, atribuindo a eleição dos salvos à presciência de Deus e acrescentando que seria necessário o homem “aceitar” a obra de Deus para ser salvo, havendo um sinergismo, uma participação humana na salvação, segundo este grupo que na época ficou conhecido como “Remonstrantes” ou “arminianos”, por causa principal nome entre eles, Tiago Armínio) ou sinergistas, porque usamos o termo “livre arbítrio” sem problemas entre nós (mais para frente é explicado o porque esse termo não é problema para nós) e isto tem causado muita confusão na rede sobre nossa doutrina..

É curioso que esta acusação de que existiam “luteranos originais” e que os luteranos atuais não seguem os mesmos princípios não é só dos calvinistas que eu considero radicais por pensarem assim sem se informar antes de maneira apropriada e já nos acusarem dessa forma. Na minha página “Lutero da Depressão” de vez em quando aparecem também católicos radicais, pentecostais radicais, Adventistas radicais, Testemunhas de Jeová e diversos outros grupos dizendo que os “luteranos originais” seguiam as doutrinas deles e que nós alteramos as coisas hoje em dia, mas nunca mostram quem alterou, quando foi alterado, aonde foi alterado e qual grupo luterano segue essas tais “alterações”, ou seja, imaginam coisas baseados em interpretações de trechos da obra de Lutero e não vão muito a fundo para entender a dúvida ou estranhamento deles. Eu não entendo mesmo qual a necessidade deles que Lutero tenha que ter crido no que calvinistas, arminianos, católicos, adventistas, pentecostais, etc, acreditam para “validar” a crença deles e por isso se esforçam muito para tentar “provar” que Lutero e os “luteranos originais” criam como eles. Talvez parte disso seja culpa nossa como luteranos. Costumamos ficar isolados um pouco e por isso existe um desconhecimento muito grande da nossa doutrina e nossa cultura, esse desconhecimento facilita, talvez, essas idéias absurdas sobre nós e nossa doutrina. Talvez se nos soubéssemos dialogar melhor com os demais cristãos sobre teologia, eles nos conheceriam melhor e entenderiam mais sobre nós. Tem o lado positivo de que não ficamos entrando nessas modas evangélicas e das outras vertentes protestantes, por estarmos distantes, mas, por outro lado, talvez uma aproximação saudável seja frutífera para os dois lados. Talvez..

As confissões luteranas estão aí à disposição no Livro de Concórdia para quem quiser seguir a Jesus no “Luteranismo original”, ou quem segue a Jesus em outro lugar e tem curiosidade de nos conhecer melhor, não houve modificações; como houve, por exemplo, na Confissão de Fé de Westminster, documento confessional da Igreja Presbiteriana e de muitos outros calvinistas. As confissões luteranas estão intactas e não tiveram modificações. O “luteranismo original” está disponível a quem quiser conhecer em nossas confissões.

AS IGREJAS LUTERANAS

As Igrejas Luteranas têm suas posições oficiais sobre assuntos teológicos, no que diz respeito às coisas espirituais e deste mundo, e os teólogos, incluindo Lutero, fizeram e fazem suas dissertações com idéias pessoais sobre temas pontuais, como a soteriologia, o que representa a opinião pessoal deles, não a opinião geral do luteranismo, até porque o luteranismo é dividido em denominações, concílios, sínodos e federações diferentes. Existem denominações luteranas seguem as confissões do luteranismo do século 16, reunidas no Livro de Concórdia, existem outras que são mais autônomas em suas resoluções e determinam suas posições de outras formas, expressando seus artigos de fé independentemente, existem igrejas luteranas que não seguem todas as confissões do século 16 reunidas no Livro de Concórdia, mas, partindo da Confissão de Augsburgo e dos catecismos de Lutero, elaboram suas próprias expressões de fé. Daí vemos Igrejas Luteranas conservadoras, moderadas e liberais, pois têm suas organizações e artigos de fé conforme acreditam ser próprio para seus contextos. Eu não estou falando aqui em nome do Luteranismo em geral, porque há diferenças entre nós, é necessário, também, buscar os posicionamentos oficiais do indivíduo ou grupo que você tem contato para interpretar o luteranismo que eles praticam. Também não se chega a conclusões exatas ao avaliar igrejas luteranas inteiras, ou o próprio luteranismo com opiniões pessoais, sejam membros ou teólogos de alguma igreja Luterana. As vezes um indivíduo diverge e pensa diferente do que sua denominação decide, por isso qualquer julgamento deve ser muito cuidadoso e aberto para novas informações para uma avaliação melhor.

Ou seja, não existe uma só “Igreja Luterana”, mas existem igrejas luteranas diferentes no luteranismo, doutrinas diferentes. Existem igrejas que seguem os posicionamentos oficiais luteranos do século 16, existem igrejas que não seguem, mas têm herança histórica com o luteranismo, e existem as demais igrejas luteranas independentes e autônomas, sem ligação formal com o luteranismo histórico. Existem entre grupos luteranos que crêem em doutrinas bem diferentes do que foi a Reforma Luterana, apenas com a placa de “igreja luterana”, porém sem relação histórica ou teológica com o luteranismo histórico, assim como acontece com outras denominações que têm cismas e rachas entre elas e vêem igrejas com os nomes iguais, mas com doutrinas bem diferentes da fé e história da denominação. Você pega, por exemplo, a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte – MG, de onde vem o conhecido grupo “Diante do Trono”, eles têm o nome de “Batistas”, mas a teologia deles é totalmente diferente da doutrina Batista histórica, expressas nas declarações de fé das igrejas batistas pela história. Isso pode acontecer no Luteranismo também, igrejas luteranas bem distantes do pensamento luterano original, como tenho visto na internet igrejas “luteranas” pentecostais, adventistas e até Luterana que se diz puritana já vi pela rede.

São duas as linhas principais do Luteranismo Mundial, que são reunidas no Concílio Luterano Internacional (no Brasil temos a IELB neste concílio) e na Federação Luterana Mundial (no Brasil temos a IECLB nesta federação). Existem outras independentes que também são movimentos luteranos históricos, fora destas organizações. Então não há uma só igreja luterana, mas igrejas luteranas diferentes com teologias diferentes.

Bom, tem muito mais coisa a esse respeito para escrever, com muitos detalhes sobre o luteranismo, mas não quero fugir do assunto do texto, só apresentei essas diferenças para você entender que os luteranos não são unânimes em tudo, como ocorre em qualquer outro grupo religioso, ou melhor, em qualquer grupo humano. Assim também igrejas luteranas não são necessariamente unânimes. Então pode acontecer de você encontrar luteranos que pensam diferente do que estou escrevendo aqui, até igrejas que ensinam diferente. Eu sigo o ramo confessional do luteranismo, mas no geral os luteranos pensam parecido com  o que estou apresentando, mesmo os de linhas diferentes, mas podem acontecer divergências..

LUTERANISMO E LUTERO

Muitos também acham que damos um valor a Lutero como sendo uma autoridade de fé, mostram trechos dos escritos de Lutero para dizer que deveríamos crer naquele trecho, porque foi Lutero quem escreveu, então já quero mostrar claramente que Lutero não é infalível para nós e nenhuma sabedoria, além da sabedoria de Deus registrada nas Escrituras, deve ser aceita sem questionamentos e exame, para conferirmos se bate com as Escrituras. Se não bater, seja quem for, Lutero, Calvino, Armínio, etc, deve ser rejeitado como norma de fé. Lutero teve muitos erros, assim como Calvino, Armínio e todos os servos de Deus na História. Nós, luteranos confessionais, aceitamos as Confissões como expressões das Escrituras, mas não são “Escrituras Sagradas” para nós. As Confissões são nosso “ponto de Concórdia”, ali convergimos e concordamos entre nós como luteranos. Nosso diálogo com outras tradições parte também dali, são nossos princípios bíblicos inegociáveis, mas isso porque são expressões das Escrituras, não porque são complemento às Escrituras. Então temos Lutero como um instrumento nas mãos de Deus, mas Deus é nosso Mestre, Lutero foi um ótimo teólogo, pregador e professor das Escrituras, mas ele apontava para Cristo e para as Escrituras, que é para onde vamos beber da sabedoria de Deus – nas Escrituras.

Muitos também apontam os erros de Lutero e me perguntam como posso estar numa vertente cristã fundada por alguém tão imperfeito. Bom, eu acredito que cristianismo não é sobre ser bom, mas sobre não sermos bons e a necessidade de sermos perdoados, todos os heróis da fé foram pecadores e só foram heróis por sua fé, não por obras extraordinárias, por isso tudo que nós e as outras pessoas fazem deve ser analisado com as Escrituras, se o conjunto da obra de alguém for totalmente contra as Escrituras, então rejeitamos essa pessoa como pensador teológico em nosso meio, se não for o caso, devemos avaliar com as Escrituras e usar o que for bom para a edificação, reconhecendo que a pessoa é, ou foi, um instrumento na mão de Deus para a nossa edificação ou edificação da Igreja, mas são apenas instrumentos e instrumentos podem quebrar, podem ser defeituosos, o mérito das coisas que Deus faz na Igreja Cristã é sempre de Deus, não dos personagens que Ele usa; mas sempre devemos avaliar tudo e reter o que é bom.

Existe muito desconhecimento sobre luteranismo no evangelicalismo brasileiro, e ultimamente muitos tem despertado uma curiosidade sobre isso. Por causa disso, alguns tem feito declarações equivocadas ou mesmo maldosas sobre a fé luterana, deixando as pessoas confusas ou convictas de mentiras sobre o luteranismo. Por isso muitos me procuram perguntando sobre mitos e boatos que dizem sobre o luteranismo e Lutero, espalhados nas igrejas evangélicas ou na internet.

LUTERANOS, CALVINISTAS E ARMINIANOS NA PREDESTINAÇÃO

O tema que estou usando aqui é o tema mais falado entre Calvinistas e Arminianos, cada um puxando a sardinha para seu lado. Não quero aqui causar intrigas ou alimentar as intrigas antigas entre estes grupos, apenas quero tirar algumas dúvidas sobre isso com nossos documentos oficiais e explicações de teólogos luteranos e Lutero a respeito.

Vamos lá.

O livro de Concórdia, a confissão de boa parte das igrejas luteranas, afirma que a eleição se dá por predestinação, não por presciência:

“Da eleição eterna dos filhos de Deus não ocorreu, entre os teólogos da Confissão de Augsburgo, nenhuma dissensão pública, escandalosa e amplamente difundida. Visto, porém, que esse foi objeto de mui pesada controvérsia em outros lugares e que também entre os nossos houve alguma agitação a respeito.. Em primeiro lugar, deve-se notar cuidadosamente a diferença entre a eterna presidência de Deus e a eterna eleição de seus filhos para a vida eterna. [Existe a] praescientia vel praevisio, isto é, que Deus vê e sabe de tudo precedentemente, antes de acontecer, o que se chama praescientia de Deus, estende-se a todas as criaturas, boas e más… Todavia, a eterna eleição de Deus [se dá pela] vel praedestinatio, isto é, a divina preordenação para a salvação, [e] não se estende aos impiedosos e aos maus, senão apenas aos filhos de Deus que foram eleitos e ordenados para a vida eterna “antes da fundação do mundo”.

Aqui nos distanciamos dos sinergistas, que mais tarde no meio evangélico vieram a ser conhecidos como “arminianos”, estando em maior número entre pentecostais, metodistas e entre muitos batistas. Não acreditamos que Deus “viu a fé” nos eleitos e pela presidência salva os que Ele sabia que creram, mas sim que Deus deu a fé como presente para aqueles que Ele salva por sua graça.

A fórmula de Concordia tb diz:

” Também rejeitamos o erro bruto dos pelagianos, que ensinavam que o homem por suas próprias forças, sem a graça do Espírito Santo, pode ligar-se a Deus, acreditar no Evangelho, ser obediente de coração à lei de Deus e, portanto, merecem a perdão dos pecados e a vida eterna.

Rejeitamos também o erro do Semi- pelagianos , que ensinam que o homem por suas próprias forças pode fazer um início de sua conversão , mas sem a graça do Espírito Santo não pode completá-lo.

Também rejeitamos quando é ensinado que, embora o homem por sua livre vontade antes da regeneração é muito fraco para fazer um começo, e por suas próprias forças para se entregar a Deus, e do coração para ser obediente a Deus , ainda, se o Santo Espírito pela pregação da Palavra fez um começo, e é aí que ofereceu Sua graça , então [rejeitamos que] a vontade do homem a partir de suas próprias forças naturais pode adicionar alguma coisa, embora pouco e debilmente, para este fim, pode ajudar e cooperar , qualificar e preparar-se por graça, e abraçar e aceitar, e crer no Evangelho .

Também rejeitamos que o homem, depois que ele nasceu de novo, pode perfeitamente observar e cumprir plenamente a Lei de Deus, e que este cumprimento é a nossa justiça diante de Deus , pela qual nos merecemos a vida eterna.

Além disso, nós rejeitamos e condenamos o erro dos entusiastas , que imaginam que Deus sem meios, sem a audição da Palavra de Deus , também sem o uso dos santos sacramentos , chama os homens a Si mesmo, e ilumina, justifica , e os salva. (Entusiastas que chamamos aqueles que esperam a iluminação celestial do Espírito [ revelações celestes ] sem a pregação da Palavra de Deus.)”

Mas o Livro de Concórdia se distancia da fé da maioria dos calvinistas, que dizem que Jesus veio apenas para os eleitos e que ama somente os predestinados, odiando e querendo mandar para o Inferno os que não foram predestinados à salvação:

Da Predestinação e da Providência Eterna de Deus – A doutrina pura e verdadeira das nossas Igrejas neste artigo:

1) Que Cristo morreu por todos os homens e, como o Cordeiro de Deus, levou os pecados do mundo inteiro.

2) Que Deus não criou homem algum para a condenação, mas quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Ele, portanto, chama a todos para ouvir a Cristo, seu Filho, no Evangelho; e promete, por sua audição, a virtude e a operação do Espírito Santo para a conversão e salvação.

3) Que muitos homens, por sua própria culpa, perecem: alguns, que não vão ouvir o evangelho a respeito de Cristo; alguns, que novamente caem da graça, seja por erro fundamental ou por pecados contra a consciência.

4) Que todos os pecadores que se arrependem serão recebidos em favor; e ninguém será excluído, apesar de seus pecados serem vermelhos como sangue; uma vez que a misericórdia de Deus é maior do que os pecados do mundo inteiro, e Deus se compadece em todas as suas obras.
(Livro de Concórdia)

A Confissão de Fé de Augsburgo, universal entre luteranos, quando ensina sobre o Livre Arbítrio, se torna mais clara sobre as semelhanças e diferenças entre Luteranos e Evangélicos nesta questão:

” Quanto ao livre arbítrio se ensina que o homem tem até certo ponto livre arbítrio para viver exteriormente de maneira honesta e escolher entre aquelas coisas que a razão compreende. Todavia, sem a graça, o auxílio e a operação do Espírito Santo o homem é incapaz de ser agradável a Deus, temê-lo de coração, ou crer, ou expulsar do coração as más concupiscências inatas. Isso, ao contrário, é feito pelo Espírito Santo, que é dado pela palavra de Deus. Pois Paulo diz em 1 Coríntios 2: “O homem natural nada entende do Espírito de Deus”

E para que se possa reconhecer que nisso não se ensina novidade, eis aí as claras palavras de Agostinho a respeito do livre arbítrio, aqui citadas do livro III do Hypognosticon: “Confessamos que em todos os homens há um livre arbítrio, pois todos têm entendimento e razão naturais, inatos. Não no sentido de que sejam capazes de algo no que concerne a Deus, como, por exemplo, amar e temer a Deus de coração. Somente em obras externas desta vida têm liberdade para escolher coisas boas ou más. Por obras boas entendo as de que é capaz a natureza, tais como trabalhar ou não no campo, comer, beber, visitar ou não um amigo, vestir-se ou despir-se, edificar, tomar esposa, dedicarse a um ofício ou fazer alguma outra coisa proveitosa e boa. Tudo isso, entretanto, não é nem subsiste sem Deus; ao contrário: dele e por ele são todas as coisas. Por outro lado pode o homem também praticar por escolha própria o mal, como, por exemplo, ajoelhar-se diante de um ídolo, cometer homicídio, etc.”

Mesmo assim, alguns dizem que somos sinergistas por admitirmos o uso do termo “Livre-Arbítrio”. Edward Koehler, escritor luterano mais recente, desmente a teoria de alguns de que somos sinergistas, ele escreveu assim no sumário da Doutrina Cristã, um livro que usamos muito para ensinar a fé Luterana, conforme expressa nas Confissões do livro de Concórdia, de maneira resumida, dizendo totalmente o contrário de qualquer sinergismo, e é assim que acreditamos:

“O pelagianismo e as várias formas de sinergismo entendem que o homem natural pode, com suas próprias forças, voltar-se do pecado para o Salvador, crer nele e assim ser salvo; ou que pode, em alguma medida, cooperar com o Espírito Santo em sua conversão.. O Sinergismo é Doutrina falsa. Resulta no sentido de explicar por que alguns são convertidos e outros não.  Veremos que, por mais que o homem possa ser convertido, nada pode fazer a favor de sua conversão.”

UMA RESSALVA

Tenho que admitir que realmente existem sinergistas entre nós, assim como existem presbiterianos e anglicanos sinergistas, mas as confissões luteranas não apoiam em nada o Sinergismo. Os calvinistas e arminianos que se opõem aos luteranos, ou que querem puxar o luteranismo para o lado deles, dizem que Melanchton é o responsável pela nossa teologia luterana, o que não é verdade, seus escritos aceitos como convergência doutrinária entre nós são somente os constantes no Livro de Concórdia, que foram supervisionados por Lutero e outros reformadores. Na verdade, entre nós, ele é até acusado de cripto-calvinista e de sinergista, pela ênfase no terceiro uso da lei e ter sugerido reformas mais calvinistas na liturgia e sacramentos, em nome da diplomacia, e pelo fato de ele ter abraçado o sinergismo após a morte de Lutero, idéias essas que rejeitamos, conforme mostrado nas confissões, sobre assuntos que não queremos fugir das Escrituras em nome de propostas calvinistas ou sinergistas.

RESUMINDO TUDO

O Calvinismo e o Arminianismo dividiram suas crenças soteriológicas fundamentais em 5 pontos (calvinismo) ou 5 teses (arminianismo), no século 16. Sei que nem todos os calvinistas seguem a TULIP e nem todos os arminianos seguem as teses remonstrantes, mas é o que estes movimentos têm de oficial sobre a soteriologia e é o que eu posso trabalhar em cima a critério de comparação. Os luteranismo, por ser um movimento anterior a estes dois, mesmo tendo que lidar com sinergistas e calvinistas posteriormente, não deu uma resposta oficial aos 5 pontos destes dois movimentos, mas nossas crenças bíblicas oficiais, conforme expressas no Livro de Concórdia, podem nos dar uma direção para compararmos as crenças luteranas com as crenças destes dois movimentos.

Então, comparando os 5 pontos destes movimentos com o luteranismo, eu fiz uma tabela bem resumida das perguntas mais recorrentes que eu recebo sobre a  visão soteriológica luterana, fazendo uma comparação bem resumida das três vertentes que eu trabalhei aqui no texto. É claro que eu não vou conseguir resumir perfeitamente a visão dessas 3 vertentes, algumas coisas vão soar “estranhas”, outras vão parecer “incompletas”, nenhuma tabela é precisa e não sou eu que vou conseguir ser exato e preciso com uma rápida tabela, afinal, é um resumo, uma tentativa de explicar de maneira bem simples as diferenças, e tudo que é simples, não dá para ser exato e preciso, mas me esforcei ao máximo para resumir da melhor forma, e ficou assim:

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A PRIORIDADE ENTRE LUTERANOS

Entre luteranos a doutrina da predestinação não é enfatizada, por isso talvez alguns não se atentam muito a ela e chegam a conclusões sinergistas do processo de salvação, e sei que na época da reforma e pós reforma isso foi muito discutido entre calvinistas, havendo inclusive a cisão nas regiões reformadas, como Holanda, Inglaterra e EUA entre “Calvinistas” e “arminianos”, mas entre nós a realidade é diferente. Na teologia luterana a doutrina da predestinação está presente e muito bem explicada, mas, seguindo o Conselho do próprio Lutero, não é prioridade.
Lutero disse:

“Eu esqueço tudo sobre Cristo e Deus quando eu me encontro nestes pensamentos e de fato chego ao ponto de imaginar que Deus é um velhaco. Nós devemos ficar no mundo, no qual Deus é revelado para nós e a salvação é oferecida, se nós cremos nele. Mas ao pensar sobre predestinação, nós esquecemos de Deus… Contudo, em Cristo estão escondidos todos os tesouros (Cl 2:3); fora dele tudo está trancado. Então, nós deveríamos simplesmente recusar discutir sobre a eleição. Tal disputa é tão irritante para Deus que ele instruiu o Batismo, a Palavra dita, e a Ceia do Senhor para agir contra a tentação de se engajar nisto. Nestes, devemos persistir e constantemente dizer, eu sou batizado e acredito em Jesus. Eu não me importo nem um pouco sobre a predestinação.”
– Martinho Lutero

Lutero tinha e incentivava a outra prioridade:

“Fazer essa diferenciação entre Lei e Evangelho é a arte suprema no cristianismo, que todos os que se gloriam ou adotam o nome ‘cristão’ deveriam saber e dominar”

CONCLUSÃO

Eu escrevi este texto por causa das dúvidas sinceras e também para apresentar a doutrina luterana para quem não conhece muita coisa a respeito deste assunto. Os Calvinistas e os arminianos são nossos irmãos amados, como são os católicos e ortodoxos, e não há sentido nenhum para um conflito entre nós, porém a fé é uma questão individual, não podemos sacrificar nossa fé no altar da amizade. Cremos assim, de maneira monergista, mas sem determinismo, sem racionalismo e sem “elitismo”, porém temos outras prioridades em nossa doutrina e tratamos dos assuntos conforme a necessidade e contexto, não ficamos frisando num só aspecto de nossa doutrina, como a predestinação e o (caído) Livre Arbítrio humano, temos muito mais coisas para tratar e trabalhar.

Soli Deo Gloria

POST SCRIPTUM (PÓS TEXTÃO)

Já me antevendo: Olha, existem inúmeras variações dos pensamentos calvinista e arminiano (No luteranismo também existem variações, mas no meu gráfico abaixo estou mostrando o luteranismo confessional, que é convergente na soteriologia junto ao Livro de Concórdia). E pela experiência já sei que calvinistas e arminianos não gostam que “gente de fora” comente o que eles acreditam. Então acredito que vai ser inevitável que alguns digam que não fiz um retrato fiel das crenças deles.

Realmente, não é um retrato fiel. É um resumo. E todo resumo fica faltando muita coisa. Não adianta chiar comigo pq deixei alguma coisa de fora. Mas eu procurei não modificar nada.

Talvez você, calvinista ou arminiano, pense diferente em algum destes pontos, mas eu resumi o que é “oficial”, o que instituições calvinistas e arminianas importantes e reconhecidas dentro destes movimentos apresentam como sendo explicação “oficial” dos temas que abordei na comparação. E outra que eu recebi a fé da parte de Cristo e a salvação pelo Santo Batismo numa igreja arminiana, passei 7 anos como calvinista e sou luterano há alguns anos já. Acho que pude aprender alguma coisa nestes movimentos para interpretá-los diante dessas doutrinas do gráfico, né? Por isso não foi difícil para mim achar material oficial, porque já tinha muito coisa por aqui e sabia aonde procurar.

De qualquer forma, segue uma bibliografia fácil de achar e que também utilizei para resumir estes pontos.

Calvinismo:
Os Cânones de Dort (Sobre o Pecado original, Expiação Salvação)
Os cânones de Dort no site da Igreja Presbiteriana do Brasil

Sobre Graça:
Graça Comum em Artigo Acadêmico do Mackenzie

A Confissão de Fé de Westminster (Sobre Eleição)
Download em PDF da Confissão de Westminster no site da Igreja Presbiteriana do Brasil

Arminianismo
Creeds of Christendom, Volume III, do autor Philip Schaff, livro impresso que eu tenho. (Sobre Pecado Original, Eleição, Expiação, Salvação)
O mesmo conteúdo (eu conferi) pode ser encontrado aqui:
Biblioteca de Teologia online dos EUA, com citação fiel dos artigos do arminianismo (remonstrância)

Artigos de fé da Igreja Metodista Unida (Sobre a Graça). Foi John Wesley, principal nome do movimento metodista que culminou nesta denominação, após a morte dele, quem resgatou o arminianismo e foi a través da Igreja Metodista, de onde surgiram movimentos como o pentecostalismo, Adventismo e outros, que o arminianismo se tornou o entedimento soteriológico mais popular entre os protestantes.
http://www.umc.org/what-we-believe/our-wesleyan-heritage

Luteranismo.
Aqui é mais fácil. No luteranismo confessional, tudo converge no Livro de Concórdia:
Livro de Concórdia (em inglês)

Caso haja curiosidade e pouco tempo para ler tanta coisa, indico o “Sumário da Doutrina Cristã”, que resume as crenças expressas no Livro de Concórdia. Para comprar em português:
http://www.editoraconcordia.com.br/produtos/produto.php?id=1736
Para comprar para o kindle, mas só em inglês:
http://www.amazon.com.br/Summary-Christian-Doctrine-Presentation-Teachings-ebook/dp/B0050PQZTU/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1445589651&sr=8-2&keywords=Summary+of+christian+doctrine

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