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Vou tentar trabalhar as diferenças que eu percebo como luterano com os demais evangélicos. Esse texto tem suscitado muitas perguntas a mim nas redes sociais, por parte de evangélicos das mais variadas vertentes, então tive que fazer uma longa introdução, que ficou até maior que a apresentação das diferenças em si, explicando como funciona o Luteranismo, para que as pessoas entendam o contexto luterano e assim tirem suas conclusões com mais conhecimento sobre nós.

O texto ficou longo, você vai demorar mais de 10 minutos se for ler tudo, dependendo do seu interesse pelo tema. Mas, para facilitar a leitura, coloquei subtítulos para te ajudar a ler só o que for de seu interesse, para não precisar ler o textão todo, se não estiver a fim.

Este não é um artigo acadêmico, eu não estou falando em nome de nenhuma denominação luterana, nem tentando fechar o assunto, apenas escrevi como um luterano que fez parte do movimento evangelical e por isso trabalho as diferenças que mais sou questionado, que é a soteriologia, ou seja, a doutrina a respeito da salvação.

A DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO

Para nós, a doutrina da justificação é o tema central, e cremos ser a justificação somente pela fé em Jesus Cristo. Na minha página, o Lutero da Depressão, tenho muitos problemas com calvinistas e arminianos por causa dessa questão da justificação, principalmente calvinistas, que até crêem na justificação pela fé, mas costumam rejeitar que seja somente pela fé, dizendo que se não houver obras, ou a pessoa nunca foi justificada, ou ela pode perder a justificação, dependendo da vertente que a pessoa adota, se calvinista ou arminiana. Esse tema sempre causa conflitos em conversas virtuais e reais, quando excluo totalmente as obras do processo de justificação e qualquer processo vertical diante de Deus, quando digo que não há a necessidade nenhuma de obras para ser aceito por Deus. Mesmo assim, acho pertinente deixar claro que pensar de maneira diferente  nesta questão não significa para mim que você não está justificado e não seja aceito por Deus, porque essa fé que nos justifica diante de Deus é a (confiança) em Jesus, não é  (adesão intelectual) na doutrina da justificação somente pela fé; afinal, não é por obras (risos)..

Por isso a maioria dos luteranos não julga os cristãos de outras vertentes por causa de uma confessionalidade diferente, eu não vou fazer esse julgamento no meu texto também. Vou apenas apresentar as diferenças. Jesus não permitiu que eu julgue as pessoas sobre a salvação delas (Mt 7.1). Isso pertence a Ele. Então não se sinta sendo “condenado” por mim com o meu texto se você pensa diferente. Estou apenas apresentando minhas percepções como luterano referente aos entendimentos diferentes sobre esse assunto dos demais evangélicos.

OUTRAS DIFERENÇAS

Existem outras diferenças entre luteranos e o movimento evangelical, e mesmo internamente entre luteranos no Brasil na teologia e na cultura eclesiástica, há diferenças na forma de cultuar, no entendimento sobre sociedade e política, na Cristologia, na forma de interpretar a Bíblia, nas formas de organização eclesiástica, muitas outras diferenças que podem ser trabalhadas, mas quase que a totalidade das perguntas que recebo são sobre a questão da predestinação, então vou trabalhar sobre esse assunto aqui. Talvez com o tempo eu passe minhas impressões sobre outros assuntos culturais ou teológicos, vamos ver..

UMA RÁPIDA AUTOBIOGRAFIA

Fazendo uma rápida autobiografia, eu nasci em lar pentecostal, passei a infância e a adolescência como pentecostal e peguei o advento do neopentecostalismo no Brasil também, na transição entre a década de 90 e os anos 2000. No meio da década eu passei um período em crise de fé e andei por diversas vertentes e religiões diferentes, sem ter uma confessionalidade determinada. Nessa época andei entre “judeus messiânicos”, “neo-ortodoxos”, “teístas abertos”, e também procurei conhecer religiões como Mormonismo, Testemunhas de Jeová, Seicho No Ie, Igreja Messiânica Mundial, Perfect Liberty, Kardecismo, enfim, estava bem confuso, passei uns 3 anos procurando tudo até sossegar no Calvinismo, na metade da primeira década dos anos 2000.

Passei a segunda metade desta década como calvinista da ala “puritana”, mas muitas coisas dessa vertente já não entravam na minha cabeça, não as conseguia ver como bíblicas. Chegou um momento que eu me percebi como tendo me tornado uma pessoa muito legalista, fundamentalista, o amor para com Deus parecia um caso de auto-afirmação e o amor pelo próximo se tornou desnecessário na minha teologia pessoal, até mesmo nulo em muitos casos, o importante era a “glória de Deus”, a “teologia da glória” era a forma como eu interpretava o cristianismo.

Aquilo passou a me incomodar e angustiar muito, eu me sentia um “psicopata da fé”, estava me sentindo muito mal com aquela teologia, então passei a olhar com uma quantidade enorme de ressalvas ao que eu acreditava, a Teologia que eu abraçava, não conseguia concordar com muito do que ela ensinava, mas ainda assim eu a considerava a mais próxima da Bíblia disponível e eu convivia com ela, mesmo tendo muitos questionamentos tanto das premissas, como do conteúdo, quanto também do efeito que a Teologia reformada (calvinista-puritana, neste caso) fazia nas pessoas.

Mais para frente vou citar um trecho em que Lutero comenta sua frustração com o termo “justiça de Deus”, que lhe mostrava um Deus cheio de raiva e vontade de punir as pessoas, como ele ficou cheio de ódio por esse deus que gosta de punir as pessoas, mas depois descobriu que Deus não era o que sua mente dizia para ele, mas que Deus é amor e ama a todos. Tive uma experiência bem parecida, por isso me identifico bastante com Lutero e gosto de ler suas obras, porque aprendo muito como reconhecer o amor de Deus, depois de ter passado anos achando que a justiça de Deus estava na punição, hoje vejo que ela está em Cristo e seu perdão e sua misericórdia.

Veja bem, estou falando de minha experiência própria, não estou generalizando contra os calvinistas, nem contra os pentecostais. Eu não pretendo aqui atacar as teologias que eu já fui adepto, como o calvinismo, o pentecostalismo, ou o arminianismo, apenas citei os problemas pessoais que eu tive com elas e ainda assim espero evitar conflitos desnecessários, só quero clarificar que, dentro de uma perspectiva subjetiva, eu levantei certos questionamentos que me fizeram concluir que essas teologias não são para mim. Mas se você é adepto de uma das perspectivas teológicas mencionadas neste meu texto, fique ciente do meu respeito à sua liberdade religiosa e que a minha intenção não é atacar o que você acredita, apenas te mostrar as diferenças.

Por fim, algumas coisas aconteceram na minha vida e eu tive que procurar uma outra igreja, foi então que eu comecei a frequentar a Igreja Luterana perto de casa. No começo eu estranhei muito a Liturgia e a doutrina. Mas eu me interessei bastante. Foi então que ganhei um Livro de Concórdia de presente do pastor de lá e comecei a estudar. Já tinha em casa alguns livros luteranos que ganhei de amigos e estavam lá guardados e empoeirados. Então tirei a poeira e comecei a ler. Foi aí que resolvi deixar de vez para trás a Teologia reformada e me tornar um luterano. E como gostei muito do Livro de Concórdia e considerei (como ainda considero) uma expressão fiel das Escrituras, entrei para o Luteranismo Confessional, me filiei a uma igreja Luterana confessional (IELB) e hoje me sinto muito feliz como luterano, inclusive vindo para o seminário desta denominação para servir como puder e for útil dentro dessa paixão pela teologia e por atender as pessoas que eu tenho e com qualquer outra capacidade que eu tiver de ajudar os meus irmãos aqui.

Na minha família, também amigos próximos e nas redes sociais, todos dizem que eu mudei muito depois de virar luterano, que me tornei uma pessoa melhor, eu também me sinto bem melhor. E todos ficam muito curiosos para saber o que é essa teologia que me trouxe tantos resultados positivos. Como eu falei acima, existem muitos detalhes e diferenças, mas a maioria quer saber a questão soteriológica. Nas páginas que tenho nas redes sociais, tenho sido questionado com certa frequência sobre a crença Luterana a respeito da Predestinação e do “Livre-Arbítrio” também por pessoas que não me conhecem, isso é bem recorrente.

A DICOTOMIA EVANGÉLICA

Os evangélicos geralmente avaliam a teologia luterana dentro de sua dicotomia “calvinismo x arminianismo“. Calvinistas e arminianos que puxam a teologia para seus lados pegam trechos isolados de escritos de Lutero e de teólogos luteranos para levar o luteranismo para o calvinismo ou empurrar para o arminianismo. Isso está muito longe da verdade.

Neste texto vai ser um problema falar tanto de calvinistas como arminianos, porque dentro dessas vertentes existe vários entendimentos diferentes sobre os pontos que vou levantar aqui e vou ter que correr o risco de generalizar injustamente contra esses dois movimentos ao tratar deste tema.

OS CALVINISTAS

No caso dos calvinistas, vou tratar do entendimento que eu tinha e o que mais vejo nas conversas com meus amigos calvinistas adeptos da TULIP e páginas e sites da internet mais populares que disseminam o calvinismo. Porém é bom deixar claro que nem todos os calvinistas se encaixam no que eu vou colocar aqui. Aliás, nem todos os calvinistas são adeptos da TULIP. Ela foi feita na Holanda, em Dordrecht (Dort), paralela aos cânones de Dort, distante em tempo e geografia de Calvino (Calvino era francês, viveu e morreu na Suiça, no século 16. A TULIP foi desenvolvida na Holanda, no século 17). Muitas Igrejas Reformadas não abraçam a TULIP e os cânones de Dort, ou as três formas de unidade das igrejas reformadas (Confissão Belga, Catecismo de heidelberg e os Cânones de Dort).

A TULIP é chamada no Brasil de “5 pontos do Calvinismo” e, de forma geral, provavelmente a maioria dos calvinistas aceitam a TULIP como resumo de sua soteriologia, mas nem todos assim concordam pelo mundo. Além de Igrejas reformadas históricas alheias à TULIP, há também entendimentos críticos da TULIP, como os calvinistas amyraldianos e outros. Então eu faço essa ressalva para não dizer que estou generalizando, estou me referindo a talvez o maior grupo de calvinistas no Brasil, o dos adeptos da TULIP, mas não à totalidade do calvinismo. Porém, para fins de simplificação, vou usar sempre “calvinismo” para falar da visão de TULIP do assunto.

Os questionamentos mais frequentes vêm de calvinistas que lêem o livro “Nascido Escravo” (título de uma adaptação feita por calvinistas para a obra “Da Vontade Cativa”, de Martinho Lutero) e acreditam que somente o que está neste livro é a teologia de Lutero sobre “Livre-Arbítrio”, sendo que logo na introdução a editora já explica que se trata de uma “versão condensada” do “Da Vontade Cativa”, de Lutero (e Lutero escreveu dezenas de outros livros, não só este), ou seja, é uma versão adaptada, uma compilação, muita coisa foi editada e muita coisa ficou de fora.

Não sei porque ainda deixam o autor como Martinho Lutero, sendo que não é a obra original, mas uma adaptação, uma paráfrase. Acredito que a intenção do compilador do “Nascido Escravo” e da editora que lançou seja simplificar o entendimento da obra “Da Vontade Cativa”, mas muitos acabaram entendendo errado a Teologia de Lutero e passaram a entender que Lutero acreditava na “dupla predestinação” ou “Expiação Limitada” calvinista. Trechos importantes foram omitidos, como o argumento de Lutero contra a Diatribe de Erasmo respondendo sobre o argumento de Erasmo defendendo o “Livre Arbítrio” diante de Deus, que aparece nas páginas 101 e 102 das Obras Selecionadas de Lutero – Volume 4, citada acima, onde Lutero explica sua visão teológica da vontade oculta e da vontade revelada de Deus, argumentando que a vontade revelada de Deus é a que todos os homens sejam salvos, mas sua vontade oculta confere essa salvação a eleitos. Partes importantes do argumento de Lutero são omitidas, como essa, nas páginas que eu citei dessa obra:

“Porque esse quer que todos os seres humanos sejam salvos, visto que vem a todos com a palavra de salvação; e a falha é da vontade (humana) que não o admite, como diz Mateus 23.37: Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, e tu não o quiseste!”

(Martin Luther, Boundage of the Will, ebook kindle edition, disponível gratuitamente em formato digital neste link e também nas Obras Selecionadas de Martinho Lutero volume 4, p. 102)

Nessa obra “Da Vontade Cativa”, Lutero defende que a vontade humana é caída em coisas espirituais e não pode se voltar para Deus. Lutero defende a eterna eleição como sendo causa da salvação humana, não a vontade humana e nem que “aceitamos” a salvação, mas que ela é um dom de Deus, defendendo assim sua Santa Soberania sobre a salvação e Lutero defende também que a perdição é uma questão soberana de Deus, mas Lutero defende que essa questão da predestinação não pode ser esclarecida pela mente humana, apenas especulada e por isso não se deve fazer doutrinas sobre isso, além do que a bíblia afirma.

“Nós dizemos, como já dissemos antes, que não se deve debater acerca daquela secreta vontade da majestade; e a temeridade humana, que com contínua perversidade sempre investe e atenta contra ela pondo de lado as coisas necessárias, deve ser dissuadida disso e retirada, a fim de que não se ocupe em escrutar aqueles segredos da majestade, a qual não se  pode atingir, visto que habita na luz inacessível conforme o testemunho de Paulo (1 Tm 6.16). Que se ocupe, ao contrário, com o DEus encarnado ou (como diz Paulo) com Jesus crucificado, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, porém abscôditos [Cl 2.3]; pois por meio deste ela possui abundantemente o que deve e o que não deve saber .

(Ibidem. p. 105)

Ou seja, para Lutero, a salvação está em Cristo e sua eleição está escondida em Deus, não cabe a nós fazer doutrinas sobre isso além do que está revelado na Palavra de Deus, seja como Erasmo, negando a predestinação e afirmando que a vontade humana coopera com a salvação, seja do lado determinista, que coloca na conta de Deus a perdição do homem, como se Ele determinasse isso numa “dupla predestinação”. Deus condena soberanamente as pessoas, mas seu desejo é que todos sejam salvos e esse paradoxo bíblico deve ser preservado, não deve ser desconstruído pela razão humana.

Quero acreditar que a omissão de trechos assim no “Nascido Escravo” não foi intencional para dar um entendimento errado da teologia de Lutero e fazê-lo parecer um “calvinista”, mas como isso criou algum mal entendido entre os calvinistas, que chegam a acusar os luteranos de não seguirem o “Luteranismo original”, sem entender o pensamento de Lutero, nem o dos luteranos de fato, deixo aqui o conselho que você adquira o Volume 4 das Obras Selecionadas de Lutero pelas editoras Concórdia e Sinodal, assim você vai ter acesso ao trabalho original de Lutero e poderá tirar conclusões mais apuradas, ao invés de ficar com o “Nascido Escravo”. Eu não sei o que houve na confecção dessa obra, não estou concluindo nada sobre ela, apenas te falando que existe uma obra original e uma editada, então te aconselho a ficar com a original para entender melhor a teologia de Lutero e ler outras coisas dele também para tirar suas conclusões.

Outro frequente argumento é que Lutero escreveu a favor de algo parecido com a expiação limitada. Lutero fez uma declaração bem complicada nesse sentido. Ele disse assim, em suas preleções sobre o livro de Romanos:

O segundo [argumento] é que “Deus deseja que todos os homens sejam salvos” [1 Tm 2.4] e que entregou seu Filho em favor de nós seres humanos, os quais ele criou por causa da vida eterna. E, de maneira semelhante: todas as coisas existem por causa do ser humano, mas ele próprio existe por causa de Deus, de sorte que nele possa deleitar-se, etc. Esses, como também outros argumentos são tão fracos quanto o primeiro. Essas sentenças só podem ser compreendidas com referência aos eleitos, como diz o apóstolo, em 2 Tm [2.10]: “Tudo por causa dos eleitos”. Pois, num sentido absoluto, Cristo não morreu por todos, visto que ele diz: “Esse é o sangue que é derramado por vós” e “por muitos” – ele não diz: por todos – “para a remissão dos pecados” [Mc 14.24; Mt 26.28; Lc 22.20].

O quarto [argumento]: por que então ele ordena fazer aquilo que não quer que seja feito por aquelas pessoas? E o que é mais grave: ele endurece a vontade, de sorte que as pessoas preferem agir contrariamente à lei. Portanto, o motivo das pessoas pecarem e serem condenadas, está em Deus. Este é o argumento mais forte e, também, o principal. E é, principalmente, a ele que o apóstolo se refere quando diz que Deus quer que assim seja e que, ao querê-lo, ele não é injusto, pois todas as coisas são suas, assim como a argila é do oleiro. Portanto, ele concede mandamentos a fim de que os eleitos os cumpram, mas para que os réprobos neles se enredem, para revelar a sua ira e sua misericórdia.
– Lutero, Martinho. in: Obras Selecionadas de Martinho Lutero volume 8, in: A epístola de São Paulo aos Romanos. São Leopoldo: Editora Sinodal. Ebook Kindle edition.

Isso parece resolver a questão, não é mesmo? Ponto final. Lutero era calvinista. Provavelmente se converteu lendo os cânones de Dort e abraçou a TULIP (que viria ao mundo só mais de 1 século depois dessas declarações)!!

Não. Essas declarações foram feitas em 1515, antes de publicar suas 95 teses em 1517, quando Lutero ainda estava sob o pensamento romano da Teologia da Glória (que certos calvinistas também adotam hoje em dia), de dar respostas lógicas aquilo que está oculto em Deus, como a eleição eterna dos filhos de Deus. Lutero ainda mantinha traços do pensamento medieval e escolástico de um Deus punitivo e que tem prazer não em perdoar, mas em punir o pecador, apesar de já estar avançando para o que mais tarde compreenderia como a justiça de Deus ser em Cristo para perdão, não pelas obras para nos punir.

O teólogo Ricardo Wieth, tradutor destas preleções de Lutero do original para o Português nas Obras Selecionadas, traz luz a esse período de Lutero, quando fez as preleções sobre romanos, registrada por seus alunos:

“Na preleção sobre Romanos, Lutero já demonstra um bom avanço na direção desta compreensão de “justiça de Deus”, embora ainda reproduza, consideravelmente, o vocabulário e as formas de ensino de seus mestres próximos e distantes”.
– Wieth, Ricardo W. Obras Selecionadas de Martinho Lutero volume 8, in: A epístola de São Paulo aos Romanos – Introdução. São Leopoldo: Editora Sinodal. Ebook Kindle edition.

Mesmo em sua obra “Da Vontade Cativa” ainda há declarações polêmicas interpretadas por alguns como determinismo ou dupla predestinação da teologia da glória, o que Lutero já combatia na época, pois ele já mostrava contrário à especulação sobre a predestinação, como se vê no debate de Heidelberg que ele participou (Obras Selecionadas, volume 1), e em Marburgo, em seu acalorado debate com Zwinglio (cuja ata completa se encontra traduzida para o português na obra “Isto É Meu Corpo”, do autor e teólogo luterano alemão Hermann Sasse, lançada no Brasil pela editora Concórdia e à venda no site deles). Lutero foi evoluindo seu pensamento até o que ficou registrado em seus catecismos e suas outras obras posteriores.

O próprio Lutero, 30 anos depois de suas preleções sobre Romanos, comenta sua mudança de visão do que implicava em sua opinião de dupla predestinação e um Deus que ordena até o pecado para a destruição do pecador, para um Deus de amor que já puniu os nossos pecados em Cristo e nos aceita pela fé nEle:

“Eu fora tomado por uma extraordinária paixão em conhecer a Paulo na Epístola aos Romanos. Fazia-me tropeçar não a firmeza de coração, mas uma única palavra no primeiro capítulo: ‘A justiça de Deus é nele revelada’ (Rm 1.17). Isso porque eu odiava esta expressão ‘justiça de Deus’, pois o uso e o costume de todos os professores me havia ensinado a entendê-la filosoficamente como justiça formal ou ativa (como a chamam), segundo a qual Deus é justo e castiga os pecadores e injustos.

Eu não amava o Deus justo, que pune os pecadores; ao contrário, eu o odiava. Mesmo quando, como monge, eu vivia de forma irrepreensível, perante Deus, eu me sentia pecador, e minha consciência me torturava muito. Não ousava ter a esperança de que pudesse conciliar a Deus através de minha satisfação. E mesmo que não me indignasse, blasfemando em silêncio contra Deus, eu resmungava violentamente contra ele. Como se não bastasse que os míseros pecadores, perdidos para toda a eternidade por causa do pecado original, estivessem oprimidos por toda sorte de infelicidade através da lei do decálogo, deveria Deus, ainda, amontoar aflição sobre aflição, através do evangelho, e ameaçá-los com sua justiça e sua ira também através do evangelho? Assim, eu andava furioso e de consciência confusa. Não obstante, teimava impertinentemente em bater à porta desta passagem; desejava com ardor saber o que Paulo queria.

Aí Deus teve pena de mim. Dia e noite eu andava meditativo, até que, por fim, observei a relação entre as palavras: ‘A justiça de Deus é nele revelada, como está escrito: o justo vive por fé.’ Aí passei a compreender a justiça de Deus como sendo uma justiça pela qual o justo vive através da dádiva de Deus, ou seja, da fé. Comecei a entender que o sentido é o seguinte: Através do evangelho é revelada a justiça de Deus, isto é, a passiva, através da qual o Deus misericordioso nos justifica pela fé, como está escrito: ‘O justo vive por fé. Então me senti como que renascido, e entrei pelos portões abertos do próprio paraíso.

Aí toda a Escritura me mostrou uma face completamente diferente. Fui passando em revista a Escritura, na medida em que a conhecia de memória, e também em outras palavras encontrei as coisas de forma análoga: ‘Obra de Deus’ significa a obra que Deus opera em nós; ‘virtude de Deus’ – pela qual ele nos faz poderosos; ‘sabedoria de Deus’ – pela qual ele nos torna sábios. A mesma coisa vale para ‘força de Deus’, ‘salvação de Deus’, ‘glória de Deus’. Assim como antes eu havia odiado violentamente a frase ‘justiça de Deus’, com igual intensidade de amor eu agora a estimava como a mais querida. Assim esta passagem de Paulo de fato foi para mim a porta do paraíso”
– Luther, Martin. WA 54, p. 186, apud Obras Selecionadas de Martinho Lutero volume 8, in: A epístola de São Paulo aos Romanos – Introdução. São Leopoldo: Editora Sinodal. Ebook Kindle edition.

Lutero relata sua “conversão” e mudança de perspectiva do que entendia no trecho acima no livro de Romanos, e o que passou a entender anos depois. E assim a Teologia Luterana admitiu essa visão posterior de Lutero, aceitando a Teologia da Cruz com seus paradoxos e “loucuras” para o homem natural, rejeitando a visão medieval de um Deus que tem prazer em punir ao invés de salvar. Mais para frente vamos ver mais sobre isso.

OS SINERGISTAS (“ARMINIANOS”)

Também é desafiador falar dos arminianos sem correr o risco de injustas generalizações. O Arminianismo histórico dos “remonstrantes” foi uma crítica ao entendimento da predestinação dentro do calvinismo. Jakob Hermanszoon, mais conhecido pela forma latina de seu nome: Jacobus Arminius (ou a forma em português do nome dele: Tiago Armínio) questionou o que aprendeu sob a tutela de Theodore Beza, sucessor de Calvino em Genebra, e propôs novas ideias sobre a predestinação. Essas ideias foram aceitas por teólogos conterrâneos dele na Holanda, que organizaram um movimento visando dar espaço a esse novo entendimento, chamado de movimento Remonstrante, que foi excomungado da Igreja Holandesa, que era reformada e estatal.

Esse movimento remonstrante, ou arminiano, a princípio não cresceu muito. ficou obscuro no protestantismo, confinado à Igreja Remonstrante holandesa e talvez a algumas igrejas batistas no Reino Unido e Holanda (existe um debate muito grande entre batistas se em sua origem a denominação era arminiana ou calvinista e não quero me meter nesse rolo). O luteranismo não teve nenhum envolvimento com isso. Nossas confissões já estavam fechadas nessa época e as igrejas que não aderiram às confissões tinham outras questões, alheias à da Igreja Reformada Holandesa. O movimento só obteve popularidade no século seguinte, com John Wesley e os metodistas e mais para frente e vai recebendo novos formatos cada vez mais sinergistas até os dias contemporâneos, com os avivalistas estadunidenses como Charles Finney, William Seymour, Aimeé Semple McPherson, Billy Graham, Kenneth Hagin e outros..

O arminianismo como é conhecido no Brasil é uma herança do pensamento de John Wesley e de outros pregadores sinergistas posteriores, não de Armínio. Wesley tomou por base a teologia arminiana holandesa, mas também bebeu do pietismo alemão, do puritanismo britânico e montou uma teologia própria, que foi continuada por outras igrejas que se inspiraram nesse reavivamento do sinergismo no protestantismo, como a Igreja Metodista, que nasceu como um movimento dentro da Igreja Anglicana, com o próprio John Wesley, mas depois os adeptos desta doutrina saíram da Igreja Anglicana e formaram a Igreja Metodista, mas também outros movimentos evangelicais posteriores, como as Igrejas adventistas, igrejas unicistas, igrejas pentecostais e boa parte dos avivalistas estadunidenses, como os citados acima (Finney, Billy Graham, etc).

No Brasil, o sinergismo ganha força com a teologia pentecostal e sua ênfase na experiência pessoal do cristão como formadora do pensamento teológico, junto com as Escrituras (ou sendo avaliada pelas Escrituras, segundo muitos deles). A maioria dos que são chamados “arminianos” no Brasil ou são metodistas, ou são de igrejas pentecostais ou neopentecostais.

Portanto, houve também uma mistura no arminianismo brasileiro com várias outras ideologias populares, não só sinergistas, como pelagianas também (que diz que o homem sozinho decide por Deus) e hoje se chama (incorretamente) de arminianismo qualquer teologia sinergista do meio evangelical, dos metodistas aos neopentecostais. Etimologicamente, somente a Igreja Remonstrante Holandesa poderia ser chamada de “arminiana”, mas o termo, além de ter sido adotado por John Wesley, os metodistas e a Igreja do Nazareno (herdeira também do metodismo), se popularizou no Brasil para se referir a qualquer expressão sinergista do meio evangelical.

Para os calvinistas mais radicais, quem não acredita na TULIP é automaticamente chamado de arminiano, sem se considerar anacronismos e outras inconsistências com o título “arminiano”. Até luteranos são incorretamente chamados de arminianos por esses mais radicais. Fica difícil trabalhar com um calvinista radical em sua tara por chamar qualquer um que discorde da TULIP de arminiano. Eu mesmo era assim e só depois que virei luterano que as “escamas” dos meus olhos caíram e percebi que discordar da TULIP não é ser sinergista, como dizem esses mais radicais (como eu era), e que nem todo sinergista é arminiano, mas o nome “arminiano” pegou para se chamar os que crêem que o homem coopera com Deus em algum momento de sua salvação. Então, para simplificar, mesmo incorrendo inevitavelmente em algumas injustiças, vou chamar aqui os sinergistas de arminianos.

Alguns arminianos também me procuram ao ver as críticas e rejeições que os luteranos têm com  movimentos calvinistas, como o puritanismo, e  discordâncias com o calvinismo em si, e acreditam que o luteranismo esteja de acordo com o arminianismo que eles abraçam; acham que Lutero e os luteranos eram sinergistas aos moldes de John Wesley ou de Tiago Armínio, ou dos pensadores sinergistas atuais. Existem realmente movimentos e idéias sinergistas entre nós, como admito aqui no texto, como é o caso de muitos luteranos pietistas (movimento que também influenciou o sinergismo de John Wesley e de outros), mas nossas confissões rejeitam esse pensamento e vai contra muitas ideias do pietismo (bem como o pietismo é contra pontos das confissões luteranas do século XVI, com seu padrão quatenus de avaliação do livro de Concórdia).

LUTERANOS “ORIGINAIS”

Alguns já partem para a teoria de conspiração e dizem que o Luteranismo sofreu modificações significativas como um todo e não representa mais o pensamento da Reforma, que seria igual ao do grupo deles.

É curioso que esta acusação de que existiam “luteranos originais” e que os luteranos atuais não seguem os mesmos princípios não é só dos calvinistas e arminianos que eu considero radicais por pensarem assim sem se informar antes de maneira apropriada e já nos acusarem dessa forma. Na minha página de vez em quando aparecem também católicos radicais, pentecostais radicais, Adventistas radicais, Testemunhas de Jeová e diversos outros grupos dizendo que os “luteranos originais” seguiam as doutrinas deles e que nós alteramos as coisas hoje em dia, mas nunca mostram quem alterou, quando foi alterado, aonde foi alterado e qual grupo luterano segue essas tais “alterações”, ou seja, imaginam coisas baseados em interpretações de trechos da obra de Lutero e não vão muito a fundo para entender a dúvida ou estranhamento deles.

Eu não entendo mesmo qual a necessidade deles que Lutero tenha que ter crido no que calvinistas, arminianos, católicos, adventistas, pentecostais, etc, acreditam para “validar” a crença deles e por isso se esforçam muito para tentar “provar” que Lutero e os “luteranos originais” criam como eles. Talvez parte disso seja culpa nossa como luteranos. Costumamos ficar isolados um pouco e por isso existe um desconhecimento muito grande da nossa doutrina e nossa cultura, esse desconhecimento facilita, talvez, essas idéias absurdas sobre nós e nossa doutrina. Talvez se nos soubéssemos dialogar melhor com os demais cristãos sobre teologia, eles nos conheceriam melhor e entenderiam mais sobre nós. Tem o lado positivo de que não ficamos entrando nessas modas evangélicas e das outras vertentes protestantes, por estarmos distantes, mas, por outro lado, talvez uma aproximação saudável seja frutífera para os dois lados. Talvez..

As confissões luteranas estão aí à disposição no Livro de Concórdia para quem quiser seguir a Jesus no “Luteranismo original”, ou quem segue a Jesus em outro lugar e tem curiosidade de nos conhecer melhor, não houve modificações; como houve, por exemplo, na Confissão de Fé de Westminster, documento confessional da Igreja Presbiteriana e de muitos outros calvinistas. As confissões luteranas estão intactas e não tiveram modificações. O “luteranismo original” está disponível a quem quiser conhecer em nossas confissões.

AS IGREJAS LUTERANAS

As Igrejas Luteranas têm suas posições oficiais sobre assuntos teológicos, no que diz respeito às coisas espirituais e deste mundo, e os teólogos, incluindo Lutero, fizeram e fazem suas dissertações com idéias pessoais sobre temas pontuais, como a soteriologia, o que representa a opinião pessoal deles, não a opinião geral do luteranismo, até porque o luteranismo é dividido em denominações, concílios, sínodos e federações diferentes. Existem denominações luteranas seguem as confissões do luteranismo do século 16, reunidas no Livro de Concórdia, existem outras que são mais autônomas em suas resoluções e determinam suas posições de outras formas, expressando seus artigos de fé independentemente, existem igrejas luteranas que não seguem todas as confissões do século 16 reunidas no Livro de Concórdia, mas, partindo da Confissão de Augsburgo e dos catecismos de Lutero, elaboram suas próprias expressões de fé.

Daí vemos Igrejas Luteranas conservadoras, moderadas e liberais, pois têm suas organizações e artigos de fé conforme acreditam ser próprio para seus contextos. Eu não estou falando aqui em nome do Luteranismo em geral, porque há diferenças entre nós, é necessário, também, buscar os posicionamentos oficiais do indivíduo ou grupo que você tem contato para interpretar o luteranismo que eles praticam. Também não se chega a conclusões exatas ao avaliar igrejas luteranas inteiras, ou o próprio luteranismo com opiniões pessoais, sejam membros ou teólogos de alguma igreja Luterana. As vezes um indivíduo diverge e pensa diferente do que sua denominação decide, por isso qualquer julgamento deve ser muito cuidadoso e aberto para novas informações para uma avaliação melhor.

Ou seja, não existe uma só “Igreja Luterana”, mas existem igrejas luteranas diferentes no luteranismo, doutrinas diferentes. Existem igrejas que seguem os posicionamentos oficiais luteranos do século 16, existem igrejas que não seguem, mas têm herança histórica com o luteranismo, e existem as demais igrejas luteranas independentes e autônomas, sem ligação formal com o luteranismo histórico.

Existem entre grupos luteranos aqueles indivíduos ou mesmo denominações que crêem em doutrinas bem diferentes do que foi a Reforma Luterana, apenas com a placa de “igreja luterana”, porém sem relação histórica ou teológica com o luteranismo histórico, assim como acontece com outras denominações que têm cismas e rachas entre elas e vêem igrejas com os nomes iguais, mas com doutrinas bem diferentes da fé e história da denominação. Você pega, por exemplo, a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte – MG, de onde vem o conhecido grupo “Diante do Trono”, eles têm o nome de “Batistas”, mas a teologia deles é totalmente diferente da doutrina Batista histórica, expressas nas declarações de fé das igrejas batistas pela história. Isso pode acontecer no Luteranismo também, igrejas luteranas bem distantes do pensamento luterano original, como tenho visto na internet igrejas “luteranas” pentecostais, adventistas e até Luterana que se diz puritana já vi pela internet, por mais absurdo que isso seja.

São duas as linhas principais do Luteranismo Mundial, que são reunidas no Concílio Luterano Internacional (no Brasil temos a IELB neste concílio) e na Federação Luterana Mundial (no Brasil temos a IECLB nesta federação). Existem outras independentes que também são movimentos luteranos históricos, fora destas organizações. Então não há uma só igreja luterana, mas igrejas luteranas diferentes com teologias diferentes.

Bom, tem muito mais coisa a esse respeito para escrever, com muitos detalhes sobre o luteranismo, mas não quero fugir do assunto do texto, só apresentei essas diferenças para você entender que os luteranos não são unânimes em tudo, como ocorre em qualquer outro grupo religioso, ou melhor, em qualquer grupo humano. Assim também igrejas luteranas não são necessariamente unânimes. Então pode acontecer de você encontrar luteranos que pensam diferente do que estou escrevendo aqui, até igrejas que ensinam diferente. Eu sigo o ramo confessional do luteranismo, mas não estou falando oficialmente em nome deles, estou passando o que tenho aprendido nesses anos como luterano, e tenho visto que, no geral, os luteranos pensam parecido com  o que estou apresentando, mesmo os de linhas diferentes, mas podem acontecer divergências..

LUTERANISMO E LUTERO

Muitos também acham que damos um valor a Lutero como sendo uma autoridade de fé, mostram trechos dos escritos de Lutero para dizer que deveríamos crer naquele trecho, porque foi Lutero quem escreveu, então já quero mostrar claramente que Lutero não é infalível para nós e nenhuma sabedoria, além da sabedoria de Deus registrada nas Escrituras, deve ser aceita sem questionamentos e exame, para conferirmos se está de acordo com as Escrituras. Se não estiver, seja quem for, Lutero, Calvino, Armínio, etc, deve ser rejeitado como norma de fé.

Lutero teve muitos erros, assim como Calvino, Armínio, Wesley e todos os servos de Deus na História. Nós, luteranos confessionais, aceitamos as Confissões como expressões das Escrituras, mas não são “Escrituras Sagradas” para nós. As Confissões são nosso “ponto de Concórdia”, ali convergimos e concordamos entre nós como luteranos. Nosso diálogo com outras tradições parte também dali, são nossos princípios bíblicos inegociáveis, mas isso porque são expressões das Escrituras, não porque são complemento às Escrituras. Então temos Lutero como um instrumento nas mãos de Deus, mas Deus é nosso Mestre, Lutero foi um ótimo teólogo, pregador e professor das Escrituras, mas ele apontava para Cristo e para as Escrituras, que é para onde vamos beber da sabedoria de Deus – nas Escrituras.

Muitos também apontam os erros de Lutero e me perguntam como posso estar numa vertente cristã fundada por alguém tão imperfeito. Bom, eu acredito que cristianismo não é sobre ser bom, mas sobre não sermos bons e a necessidade de sermos perdoados, todos os heróis da fé foram pecadores e só foram heróis por sua fé, não por obras extraordinárias, por isso tudo que nós e as outras pessoas fazem deve ser analisado com as Escrituras, se o conjunto da obra de alguém for totalmente contra as Escrituras, então rejeitamos essa pessoa como pensador teológico em nosso meio, se não for o caso, devemos avaliar com as Escrituras e usar o que for bom para a edificação, reconhecendo que a pessoa é, ou foi, um instrumento na mão de Deus para a nossa edificação ou edificação da Igreja, mas são apenas instrumentos e instrumentos podem quebrar, podem ser defeituosos, o mérito das coisas que Deus faz na Igreja Cristã é sempre de Deus, não dos personagens que Ele usa; mas sempre devemos avaliar tudo e reter o que é bom.

Existe muito desconhecimento sobre luteranismo no evangelicalismo brasileiro, e ultimamente muitos tem despertado uma curiosidade sobre isso. Por causa disso, alguns tem feito declarações equivocadas ou mesmo maldosas sobre a fé luterana, deixando as pessoas confusas ou convictas de mentiras sobre o luteranismo. Por isso muitos me procuram perguntando sobre mitos e boatos que dizem sobre o luteranismo e Lutero, espalhados nas igrejas evangélicas ou na internet.

LUTERANOS, CALVINISTAS E ARMINIANOS NA PREDESTINAÇÃO

O tema que estou usando aqui é o tema mais falado entre Calvinistas e Arminianos, cada um puxando a sardinha para seu lado. Não quero aqui causar intrigas ou alimentar as intrigas antigas entre estes grupos, apenas quero tirar algumas dúvidas sobre isso com nossos documentos oficiais e explicações de teólogos luteranos e Lutero a respeito. E quero frisar neste capítulo que calvinistas e arminianos não são unânimes e nem todos pensam desta forma que estou tratando no texto e tentando responder, mas estou tratando do que é mais popular nestas vertentes.

Vamos lá.

No exame das escrituras, encontramos paradoxos em citações bíblicas (e não contradições), como a que diz que Deus “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade (1 Timóteo 2:4)”, e a que diz que “fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade (Efésios 1:11)”.

Em geral (salvo exceções), calvinistas e arminianos costumam resolver estes paradoxos. Os calvinistas costumam dizer que o “todos” desta passagem não se refere à toda humanidade, mas só aos eleitos, resolvendo o problema do paradoxo para eles, ao pensar que o “todos” se refere só aos predestinados. Já os arminianos costumam dizer que o propósito de Deus na eleição é a presciência e que Ele anteviu a fé daqueles que iriam aceitar sua oferta, mas suas oferta foi para todos, daí resolvem com sua lógica também o paradoxo entre essas duas passagens.

E no luteranismo? Como se resolve esses paradoxos? Qual a lógica empregada?

Não se resolve. Se deixa do jeito que está e se prefere não usar a lógica humana como juíza de questões doutrinárias, mas só as Escrituras (Sola Scriptura), a lógica fica como serva das Escrituras, não juíza dela, se a Bíblia afirma duas coisas diferentes que estão além de nossa compreensão humana, não se usa a compreensão humana limitada e corrompida pelo pecado para julgar e fechar a questão, se deixa aberta e se crê somente, porque assim a Palavra de Deus diz e assim cremos, mesmo sem entender. Veja abaixo como as confissões trabalham essa questão.

O livro de Concórdia, a confissão de boa parte das igrejas luteranas, afirma que a eleição se dá por predestinação, não por presciência:

“Da eleição eterna dos filhos de Deus não ocorreu, entre os teólogos da Confissão de Augsburgo, nenhuma dissensão pública, escandalosa e amplamente difundida. Visto, porém, que esse foi objeto de mui pesada controvérsia em outros lugares e que também entre os nossos houve alguma agitação a respeito…

Em primeiro lugar, deve-se notar cuidadosamente a diferença entre a eterna presidência de Deus e a eterna eleição de seus filhos para a vida eterna. [Existe a] praescientia vel praevisio, isto é, que Deus vê e sabe de tudo precedentemente, antes de acontecer, o que se chama praescientia de Deus, estende-se a todas as criaturas, boas e más…

Todavia, a eterna eleição de Deus [se dá pela] vel praedestinatio, isto é, a divina preordenação para a salvação, [e] não se estende aos impiedosos e aos maus, senão apenas aos filhos de Deus que foram eleitos e ordenados para a vida eterna “antes da fundação do mundo”.

A presciência (praescientia) de Deus precedentemente vê e conhece também o mal, não porém, assim como se fosse da graciosa vontade de Deus que ele devesse acontecer; mas: aquilo que a vontade percersa e ímpia do diabo e dos homens se proporá a fazer, e fará, e vai querer fazer, tudo isso Deus vê e sabe antecedentemente. E sua praescientia, isto é, Presciência, também observa a ordem dela nos atos ou obras ímpias, de sorte que Deus determina para o mal, que Ele não quer, limite e medida, até onde deve ir e por quanto tempo deve durar, quando e como ele o quer obstaculizar e castigar…

O princípio e a causa do mal, todavia, não é a presciência de Deus (pois Deus não cria e não opera o mal, e não lhe ajuda nem o promove), mas a ímpia e perversa vontade do diabo e dos homens, conforme está escrito: “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim a tua salvação (Os 13.9)”. Também: “Pois tu não és Deus que se agrade na iniquidade”(Sl 5.4).

A eterna eleição de Deus, porém, não só vê e sabe antecedentemente a salvação dos eleitos, mas por sua graciosa vontade e beneplácito de Deus em Cristo Jesus, também é causa que cria, opera, ajuda e promove a nossa salvação e tudo o que a ela pertence. E nossa salvação está fundamentada nisso de maneira tal que “as portas do inferno” (Mt 16.18) nada podem contra ela..

Por conseguinte, se queremos pensar ou falar correta e proveitosamente da eterna eleição ou predestinação e ordenação dos filhos de Deus para a vida eterna, devemos acostumar-nos a não especular em torno da nua, secreta, oculta e inescrutável presciência de Deus, senão que devemos meditar o conselho, o propósito e a preordenação d Deus em Cristo Jesus (que é o verdadeiro e genuíno “livro da vida”), da forma como nos é revelado mediante a palavra, a saber, de modo que tomemos, conjuntamente, a doutrina inteira do propósito, conselho, vontade e ordenação de Deus concernente a nossa redenção, vocação, justificação e salvação…

Disso não devemos julgar de acordo com nossa razão, nem segundo a lei, ou por qualquer aparência exterior. Também não devemos atrever-nos a investigar o abismo secreto e oculto da predestinação divina, mas devemos atentar na vontade revelada de Deus. Pois ele nos revelou e “desvendou o mistério da sua vontade” e o manifestou por Cristo, para que fosse pregado. Ef. 1; 2 Tm 1.

(Livro de Concórdia. In: Fórmula de Concórdia. Declaração Sólida – Artigo XI, pp. 661,663,664)

Aqui nos distanciamos dos sinergistas, que mais tarde no meio evangélico vieram a ser conhecidos como “arminianos”, estando em maior número entre pentecostais, metodistas e entre muitos batistas. Não acreditamos que Deus “viu a fé” nos eleitos e pela presidência salva os que Ele sabia que creram, mas sim que Deus deu a fé como presente para aqueles que Ele salva por sua graça.

A fórmula de Concordia tb diz:

” Também rejeitamos o erro bruto dos pelagianos, que ensinavam que o homem por suas próprias forças, sem a graça do Espírito Santo, pode ligar-se a Deus, acreditar no Evangelho, ser obediente de coração à lei de Deus e, portanto, merecem a perdão dos pecados e a vida eterna.

Rejeitamos também o erro do Semi- pelagianos , que ensinam que o homem por suas próprias forças pode fazer um início de sua conversão , mas sem a graça do Espírito Santo não pode completá-lo.

Também rejeitamos quando é ensinado que, embora o homem por sua livre vontade antes da regeneração é muito fraco para fazer um começo, e por suas próprias forças para se entregar a Deus, e do coração para ser obediente a Deus , ainda, se o Santo Espírito pela pregação da Palavra fez um começo, e é aí que ofereceu Sua graça , então [rejeitamos que] a vontade do homem a partir de suas próprias forças naturais pode adicionar alguma coisa, embora pouco e debilmente, para este fim, pode ajudar e cooperar , qualificar e preparar-se por graça, e abraçar e aceitar, e crer no Evangelho .

Também rejeitamos que o homem, depois que ele nasceu de novo, pode perfeitamente observar e cumprir plenamente a Lei de Deus, e que este cumprimento é a nossa justiça diante de Deus , pela qual nos merecemos a vida eterna.

Além disso, nós rejeitamos e condenamos o erro dos entusiastas , que imaginam que Deus sem meios, sem a audição da Palavra de Deus , também sem o uso dos santos sacramentos , chama os homens a Si mesmo, e ilumina, justifica , e os salva. (Entusiastas que chamamos aqueles que esperam a iluminação celestial do Espírito [ revelações celestes ] sem a pregação da Palavra de Deus.)”

  • Epítome da Fórmula de Concórdia, traduzida do inglês por mim, disponível aqui e também disponível em português no Livro de Concórdia (editoras Concórdia e Sinodal), p. 507

Mas os luteranos se distanciam da fé da maioria dos calvinistas, que dizem que Jesus veio apenas para os eleitos e que ama somente os predestinados, alguns até exageram dizendo que Deus odeia e quer mandar para o Inferno a muitos que, segundo eles, não foram predestinados à salvação.

A Fórmula de Concórdia é bem clara:

“a raça humana verdadeiramente foi redimida e reconciliada com Deus por intermédio de Cristo, o qual, por sua inocente obediência, paixão e morte mereceu para nós ‘a justiça que vale diante de Deus’ e a vida eterna” (Livro de Concórdia, p. 663).

Fora das confissões, temos o mesmo entendimento de Lutero sobre o “todos”:

“Eu acreditaria com alegria se eu fosse como São Pedro, São Paulo e outros piedosos e santos, mas eu sou muito e totalmente pecador. Sendo assim, quem sabe se fui eleito para a salvação?
Resposta: Observa as palavras [de João 3:16]. Rogo-te que determines como e de quem ele está falando: “Deus amou o mundo de tal maneira” e “para que todo aquele que nele crê”. Agora, a palavra “mundo” não significa só São Pedro e São Paulo, mas toda a raça humana, toda junta. E aqui não fica ninguém excluído. O Filho de Deus foi dado por todos. Todos deveriam crer, e todos os que creem não perecerão, etc. Toca em teu nariz, te suplico, para que determines se não és um ser humano (isto é, parte do mundo) e como qualquer outro homem pertences ao número dos que foram incluídos pela palavra “todos”.
– Martinho Lutero (WA 21, 409 f E 12, 365 – Sl 11, 1107, citado em What Luther Says, vol 2, pág 608, 609.)

Para ser mais claro ainda, temos a declaração da Saxônia, de 1592, uma declaração de teólogos luteranos que resposnderam aos “cripto calvinistas”, que eram seguidores de Felipe Melanchton que queriam mudar a teologia luterana, e suas propostas de mudanças modificavam tanta coisa que ficaria parecida com o calvinismo, por isso receberam esse apelido. Essa declaração foi usada como apêndice do Livro de Concórdia no século 19, quando um príncipe-emperador aonde hoje é a Alemanha promoveu uma união forçada entre calvinistas e luteranos e muitos recusaram. O texto é bem claro:

Da Predestinação e da Providência Eterna de Deus – A doutrina pura e verdadeira das nossas Igrejas neste artigo:

1) Que Cristo morreu por todos os homens e, como o Cordeiro de Deus, levou os pecados do mundo inteiro.

2) Que Deus não criou homem algum para a condenação, mas quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Ele, portanto, chama a todos para ouvir a Cristo, seu Filho, no Evangelho; e promete, por sua audição, a virtude e a operação do Espírito Santo para a conversão e salvação.

3) Que muitos homens, por sua própria culpa, perecem: alguns, que não vão ouvir o evangelho a respeito de Cristo; alguns, que novamente caem da graça, seja por erro fundamental ou por pecados contra a consciência.

4) Que todos os pecadores que se arrependem serão recebidos em favor; e ninguém será excluído, apesar de seus pecados serem vermelhos como sangue; uma vez que a misericórdia de Deus é maior do que os pecados do mundo inteiro, e Deus se compadece em todas as suas obras.
( Concordia: The Lutheran Confessions, Appendix C, pgs. 654-658, disponível em formato digital aqui neste link)

A Confissão de Fé de Augsburgo, universal entre luteranos, quando ensina sobre o Livre Arbítrio, deixa mais claro ainda as diferenças e semelhanças entre Luteranos e Evangélicos nesta questão:

” Quanto ao livre arbítrio se ensina que o homem tem até certo ponto livre arbítrio para viver exteriormente de maneira honesta e escolher entre aquelas coisas que a razão compreende. Todavia, sem a graça, o auxílio e a operação do Espírito Santo o homem é incapaz de ser agradável a Deus, temê-lo de coração, ou crer, ou expulsar do coração as más concupiscências inatas. Isso, ao contrário, é feito pelo Espírito Santo, que é dado pela palavra de Deus. Pois Paulo diz em 1 Coríntios 2: “O homem natural nada entende do Espírito de Deus”

E para que se possa reconhecer que nisso não se ensina novidade, eis aí as claras palavras de Agostinho a respeito do livre arbítrio, aqui citadas do livro III do Hypognosticon: “Confessamos que em todos os homens há um livre arbítrio, pois todos têm entendimento e razão naturais, inatos. Não no sentido de que sejam capazes de algo no que concerne a Deus, como, por exemplo, amar e temer a Deus de coração. Somente em obras externas desta vida têm liberdade para escolher coisas boas ou más. Por obras boas entendo as de que é capaz a natureza, tais como trabalhar ou não no campo, comer, beber, visitar ou não um amigo, vestir-se ou despir-se, edificar, tomar esposa, dedicarse a um ofício ou fazer alguma outra coisa proveitosa e boa. Tudo isso, entretanto, não é nem subsiste sem Deus; ao contrário: dele e por ele são todas as coisas. Por outro lado pode o homem também praticar por escolha própria o mal, como, por exemplo, ajoelhar-se diante de um ídolo, cometer homicídio, etc.”

Mesmo assim, alguns dizem que somos sinergistas por admitirmos o uso do termo “Livre-Arbítrio”. Edward Koehler, escritor luterano mais recente, desmente a teoria de alguns de que somos sinergistas, ele escreveu assim no sumário da Doutrina Cristã, um livro que usamos muito para ensinar a fé Luterana, conforme expressa nas Confissões do livro de Concórdia, de maneira resumida, dizendo totalmente o contrário de qualquer sinergismo, e é assim que acreditamos:

“O pelagianismo e as várias formas de sinergismo entendem que o homem natural pode, com suas próprias forças, voltar-se do pecado para o Salvador, crer nele e assim ser salvo; ou que pode, em alguma medida, cooperar com o Espírito Santo em sua conversão.. O Sinergismo é Doutrina falsa. Resulta no sentido de explicar por que alguns são convertidos e outros não.  Veremos que, por mais que o homem possa ser convertido, nada pode fazer a favor de sua conversão.”

(A Summary of Christian Doctrine, in: Chapter XXII. Conversion Not the Work of Man but of God. St Louis: Concordia publishing house. Ebook kindle edition)

UMA RESSALVA

Tenho que admitir que realmente existem sinergistas entre nós, assim como existem presbiterianos e anglicanos sinergistas, mas as confissões luteranas não apoiam em nada o Sinergismo. Os calvinistas e arminianos que se opõem aos luteranos, ou que querem puxar o luteranismo para o lado deles, dizem que Melanchton é o responsável pela nossa teologia luterana, o que não é verdade, seus escritos aceitos como convergência doutrinária entre nós são somente os constantes no Livro de Concórdia, que foram supervisionados por Lutero e outros reformadores. Na verdade, entre nós, ele é até acusado de cripto-calvinista e de sinergista, pela ênfase no terceiro uso da lei e ter sugerido reformas mais calvinistas na liturgia e sacramentos, em nome da diplomacia, e pelo fato de ele ter abraçado o sinergismo após a morte de Lutero, ideias essas que rejeitamos, conforme mostrado nas confissões, sobre assuntos que não queremos fugir das Escrituras em nome de propostas calvinistas ou sinergistas.

RESUMINDO TUDO

O Calvinismo e o Arminianismo dividiram suas crenças soteriológicas fundamentais em 5 pontos (calvinismo) ou 5 teses (arminianismo), no século 17, ou seja, no século seguinte à Reforma, sem relação com o luteranismo, que tem suas confissões datadas do século 16. Sei que nem todos os calvinistas seguem a TULIP e nem todos os arminianos seguem as teses remonstrantes, mas é o que estes movimentos têm de oficial sobre a soteriologia e é o que eu posso trabalhar em cima a critério de comparação. Os luteranismo, por ser um movimento anterior a estes dois, mesmo tendo que lidar com sinergistas e calvinistas posteriormente, não deu uma resposta oficial aos 5 pontos destes dois movimentos, mas nossas crenças bíblicas oficiais, conforme expressas no Livro de Concórdia, podem nos dar uma direção para compararmos as crenças luteranas com as crenças destes dois movimentos. Nesta comparação, se vê que nessa questão não somos nem calvinistas, nem arminianos. Não poderíamos ser, porque o luteranismo é anterior a estes dois movimentos, mas a doutrina luterana não assume nenhuma das duas posições sobre a questão da predestinação, não “compra” nenhum dos dois “pacotes” doutrinários, mas desde antes preferiu deixar essa questão como as Escrituras a declaram e aceitar o paradoxo e as dificuldades que o paradoxo traz.

Pensando em facilitar, e correndo riscos inevitáveis de fazer descrições imprecisas, eu fiz uma tabela bem resumida das perguntas mais recorrentes que eu recebo sobre a  visão soteriológica luterana, fazendo uma comparação bem resumida das três vertentes que eu trabalhei aqui no texto nos 5 pontos soteriológicos principais destes movimentos com o luteranismo e ficou assim:

tabela soteriologia-1
Um resumo das três visões protestantes principais sobre a salvação.

A PRIORIDADE ENTRE LUTERANOS

Entre luteranos a doutrina da predestinação não é enfatizada, por isso talvez alguns não se atentam muito a ela e chegam a conclusões sinergistas do processo de salvação, e sei que na época da reforma e pós reforma isso foi muito discutido entre calvinistas, havendo inclusive a cisão nas regiões reformadas, como Holanda, Inglaterra e EUA entre “Calvinistas” e “arminianos”, mas entre nós a realidade é diferente. Na teologia luterana a doutrina da predestinação está presente e muito bem explicada, mas, seguindo o Conselho do próprio Lutero, não é prioridade.
Lutero disse:

“Eu esqueço tudo sobre Cristo e Deus quando eu me encontro nestes pensamentos e de fato chego ao ponto de imaginar que Deus é um velhaco. Nós devemos ficar no mundo, no qual Deus é revelado para nós e a salvação é oferecida, se nós cremos nele. Mas ao pensar sobre predestinação, nós esquecemos de Deus… Contudo, em Cristo estão escondidos todos os tesouros (Cl 2:3); fora dele tudo está trancado. Então, nós deveríamos simplesmente recusar discutir sobre a eleição. Tal disputa é tão irritante para Deus que ele instruiu o Batismo, a Palavra dita, e a Ceia do Senhor para agir contra a tentação de se engajar nisto. Nestes, devemos persistir e constantemente dizer, eu sou batizado e acredito em Jesus. Eu não me importo nem um pouco sobre a predestinação.”
– Martinho Lutero (What Luther Says, apud Don Matzat, Martin Luther and the Doctrine of Predestination, ebook kindle edition, disponível em partes aqui)

Lutero comenta o perigo de ficar se especulando sobre esse tema da predestinação:

“Se eu estou predestinado, serei salvo, tanto faz se eu fizer o bem ou o mal. Se eu não estou predestinado, vou ser condenado, independentemente das minhas obras. “. . . Se as afirmações são verdadeiras, como os que defendem isso acreditam, a encarnação do Filho de Deus, o Seu sofrimento e ressurreição, e tudo o que Ele fez para a salvação do mundo são eliminados completamente. Para que serviu os profetas e toda a ajuda Sagrada Escritura? Para que servem, então, os sacramentos?
Estas são ilusões do diabo, com as quais ele tenta levar-nos a duvidar e desacreditar, embora Cristo veio a este mundo para nos tornar completamente firmes. Eventualmente o desespero  toma conta e acontece o desprezo para com Deus, a Bíblia Sagrada, o Batismo, e por todas as bênçãos de Deus através das quais Ele nos quis nos firmar contra a incerteza e dúvida…
– Martinho Lutero
(Luther’s Works Vol 5 – Lectures on Genesis Chapters 26-30, p.32). St. Louis: Concordia Publishing House, 1968. Tradução: Thiago Surian)

Para Lutero e a Ortodoxia Luterana da Fórmula de Concórdia, não temos que ficar nos preocupando com este tema, pois a salvação não está em nós, mas está fora de nós, não é evidenciada por obras, no sentido de sustentada, como se só pudéssemos ter consolo e certeza de nossa salvação se tivermos uma fé ortodoxa, obras morais exemplares e outras coisas em nós, como muitos afirmam ao se preocuparem com a eleição, mas a operação da nossa salvação se dá fora de nós, pela Palavra e pelos sacramentos. Pelo batismo temos a certeza da eleição, assim como pelo corpo e o sangue de Jesus recebidos na santa ceia e também por ouvir a Palavra de Deus. É assim que, por estes meios externos que recebemos a fé e podemos ter a certeza que somos salvos, e que isso se dá pelo poder e pela graça de Deus, não por nossas obras, que Ele nos escolheu e nos ama.

Por isso é melhor deixar as especulações sobre a predestinação de lado e se preocupar com coisas mais importantes, como a suprema arte do cristão:

“Fazer essa diferenciação entre Lei e Evangelho é a arte suprema no cristianismo, que todos os que se gloriam ou adotam o nome ‘cristão’ deveriam saber e dominar” – – Martinho Lutero (Weimarer Ausgabe {WA} 36, 9, p. 28-29)

CONCLUSÃO

Eu escrevi este texto por causa das dúvidas sinceras e também para apresentar a doutrina luterana para quem não conhece muita coisa a respeito deste assunto. Os Calvinistas e os arminianos são nossos irmãos amados, como são os católicos e ortodoxos, e não há sentido nenhum para um conflito entre nós, porém a fé é uma questão individual, não podemos sacrificar nossa fé no altar da amizade. Cremos assim, de maneira monergista, mas sem determinismo, sem racionalismo e sem “elitismo”, porém temos outras prioridades em nossa doutrina e tratamos dos assuntos conforme a necessidade e contexto, e temos muito mais coisas para tratar e trabalhar no que foi revelado em Cristo e descrito na Palavra de Deus, então é perda de tempo especular sobre a vontade oculta de Deus acerca da predestinação.

POST SCRIPTUM (PÓS TEXTÃO)

Já me antevendo: Pela experiência, já sei que muitos calvinistas e arminianos não gostam que “gente de fora” comente o que eles acreditam, com muitos luteranos também é assim. Então acredito que vai ser inevitável que alguns digam que não fiz um bom retrato das crenças deles.

Não é um retrato fiel, admito. É um resumo. E todo resumo fica faltando muita coisa e se torna impreciso em outras. Não brigue comigo deixei alguma coisa de fora ou te deixei descontente com alguma forma imprecisa que eu tenha apresentado algum ponto. Eu teria que fazer um trabalho acadêmico para ser mais acurado, escrever um livro, levar muito tempo de pesquisa e coleta de material. Eu só quis fazer um post de blog, o que você pode contestar, questionar, fazer sua própria pesquisa e conferir pelas minhas citações e outras bibliografias a acuracidade do que escrevi aqui. Eu procurei não modificar nada do que trabalhei, mas posso ter falhado em um outro ponto e estou aberto a sugestões de revisões do texto.

E também talvez você, calvinista ou arminiano, pense diferente em algum destes pontos, mas eu resumi o que é “oficial”, o que instituições calvinistas e arminianas importantes e reconhecidas dentro destes movimentos apresentam como sendo explicação “oficial” dos temas que abordei na comparação. Outro ponto é que, como relatei na minha pequena autobiografia, eu fui adepto por muitos anos tanto do arminianismo popular, como do calvinismo de TULIP. Acho que pude aprender alguma coisa nestes movimentos para interpretá-los, né?

De qualquer forma, preferi referências bibliográficas virtuais (exceto aonde não foi possível encontrar) para vocês olharem e conferirem o que estou dizendo. Abaixo mais bibliografia para você pesquisar sobre o assunto:

Calvinismo:
Os Cânones de Dort (Sobre o Pecado original, Expiação Salvação)

Os cânones de Dort no site da Igreja Presbiteriana do Brasil

Sobre Graça:

Graça Comum em Artigo Acadêmico do Mackenzie

A Confissão de Fé de Westminster (Sobre Eleição)

Download em PDF da Confissão de Westminster no site da Igreja Presbiteriana do Brasil

Arminianismo
Creeds of Christendom, Volume III, do autor Philip Schaff, livro impresso que eu tenho. (Sobre Pecado Original, Eleição, Expiação, Salvação)
O mesmo conteúdo (eu conferi) pode ser encontrado aqui:

Biblioteca de Teologia online dos EUA, com citação fiel dos artigos do arminianismo (remonstrância)

Artigos de fé da Igreja Metodista Unida (Sobre a Graça). Foi John Wesley, principal nome do movimento metodista que culminou nesta denominação, após a morte dele, quem resgatou o arminianismo e foi a través da Igreja Metodista, de onde surgiram movimentos como o pentecostalismo, Adventismo e outros, que o arminianismo se tornou o entedimento soteriológico mais popular entre os protestantes.

http://www.umc.org/what-we-believe/our-wesleyan-heritage

Luteranismo.
Aqui é mais fácil. No luteranismo confessional, tudo converge no Livro de Concórdia:

Livro de Concórdia (gratuito em formato digital, mas só em inglês)  e Livro de Concórdia em português (em papel, para comprar)

As citações aqui utilizadas do Livro de Concórdia são dessa versão em português

Caso haja curiosidade e pouco tempo para ler tanta coisa, indico o “Sumário da Doutrina Cristã”, que resume as crenças expressas no Livro de Concórdia. Para comprar em português:

http://www.editoraconcordia.com.br/produtos/produto.php?id=1736

Para comprar para o kindle, mas só em inglês:

http://www.amazon.com.br/Summary-Christian-Doctrine-Presentation-Teachings-ebook/dp/B0050PQZTU/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1445589651&sr=8-2&keywords=Summary+of+christian+doctrine

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