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Virou mantra entre muitos que se identificam como cristãos citar sacramentalmente um trecho das Escrituras para condenar trabalhos sociais de governos e dizer que quem não trabalha para conseguir seu sustento é vagabundo. E isso não é uma realidade só do Brasil. Inglaterra, Finlândia, Austrália, Noruega, Suécia, Dinamarca, Canadá, nos países de linha “social democrata” (linha de centro que combina políticas de Esquerda e de Direita) também tem benefícios sociais muito mais fortes até que o “bolsa família” do Brasil, chegando a reservar parte muito importante do PIB para distribuição social de renda também recebem críticas dos que são contra isso. E alguns cristãos acham que o modelo de capitalismo liberal, ou libertário, seria divino e usam até a Bíblia para criticar outros modelos, também geralmente usando o mesmo trecho das Escrituras. O trecho é este:

se alguém não quiser trabalhar, também não coma. 2 Tessalonicenses 3:10

Bom, há evidentes problemas na interpretação política que dão a esta passagem. Vou deixar essas bobagens de capitalismo x comunismo de lado pq nem capitalismo, nem comunismo são meu norte, alvo ou orientações de vida, as Escrituras o são. Hoje o capitalismo é um ídolo para muitos cristãos, assim como comunismo é para muitos ateus e não quero tomar parte disso. O Cristão deve ser cristão. Se quiser ser comunista, capitalista, etc, que seja, somos livres, mas devemos adaptar tudo que tiver nessa Terra à nossa fé. Se os capitalistas e comunistas radicais lessem a Bíblia com mais cuidado, entenderiam isto (1 Tess 5:21)

Vamos a algumas regrinhas básicas de hermenêutica bíblica:

Não se pode extrair uma doutrina com um trecho isolado das Escrituras (no caso, a de chamar os pobres de vagabundos e preguiçosos e dizer que a Bíblia ensina que quem trabalha mais come mais e quem não trabalha não pode comer), exceto no caso das instituições de Jesus, os sacramentos, aonde se preserva a forma descrita por Ele (porque foram instituídas pelo próprio Jesus – Dã), mesmo sem a Bíblia tratar essas formas com a mesma especificidade. As outras passagens precisam ser interpretadas com a própria Bíblia para se entender a doutrina que há nisso. Então não se pode usar esse versículo isoladamente dessa forma e criar uma doutrina, ou dizer que esse versículo foi escrito com o Espírito Santo pensando em confirmar o “capitalismo liberal” 2 mil anos depois, nem para dizer que quem recebe ajuda sem trabalhar é vagabundo e não deve receber ajuda (se fosse assim mesmo, a palavra “ajuda” nem se aplicaria, seria “salário” mesmo, já que foi conquistada por mérito, não por benevolência).poverty-in-africa-300x197

Usando a regra que a Bíblia se interpreta com a própria bíblia, por ser algo divinamente inspirado e NÃO SUJEITO às interpretações filosóficas, sociais e POLÍTICAS desse mundo, ou seja, não sendo um livro a ser interpretado pela ótica da Direita política (e esse termo é adotado por várias variantes que rejeitam as outras variantes: ex: Os liberais rejeitam os nazistas como Direita, que rejeitam os liberais tb, etc) – seja liberalismo, libertarianismo, anarco-capitalismo, nazismo, fascismo, Ku Klux Klan, etc.. (ou da Esquerda também, seja comunismo, socialismo, goulags, etc, que também se rejeitam entre si na hora de definir como Esquerda).. Bom, eu não tenho nada a ver com a briga de vcs para ver quem é realmente dono dos termos “Direita” e “Esquerda”. Não ligo mesmo se X ideologia é Direita ou Esquerda. Eu sou de centro e creio que as duas coisas tem pontos bons e ruins. Se matem aí para defender suas ideologias e termos, mas me deixem fora disso, meu ponto aqui é escriturístico, pela deturpação política de uma passagem que se faz hoje em dia, vcs que se resolvam quanto a termos e outras coisas que não me dizem respeito..

Voltando ao ponto, usando essa hermenêutica básica de interpretar a bíblia com a própria bíblia, podemos notar coisas interessantes. Vamos lá.

Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo. (2 Tessalonicenses 3:5)

Paulo começa as últimas recomendações aos irmãos de Tessalônica enfatizando no amor e na paciência, dons de Deus para serem distribuídos com nosso próximo. Quando você lê as pessoas usando o verso 10 deste capítulo (quem não trabalha não come) fala num contexto de amor e paciência com as pessoas, exatamente para evitar a rejeição sumária sem avaliação prévia de caso do próximo por supostamente ser “vagabundo” ao receber uma “ajuda” que não trabalhou por ela (no caso, o termo mais adequado seria “salário” mesmo, mas não é o qie a Bíblia indica).

Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu. (2 Tessalonicenses 3:6)

Então Paulo pede que se rejeite pessoas sim, que se afastem delas. Mas aqui está dizendo sobre pessoas pobres que não trabalham? Ou está dizendo daqueles que tem um mal comportamento e se passa por crente? Eu respondo. Aqui está dizendo sobre pessoas que estavam entre os cristãos e que buscavam receber os benefícios da vida cristã e equivocadamente achavam que poderia receber essa ajuda sem contribuir também com o que tinham, achavam que os cristãos poderiam sustentá-las sem contribuir para esse sustento coletivo. Era uma “distribuição de renda” dentro da igreja, mas Paulo aqui não fala de quantidade, não está trabalhando com base em “mérito” ou “salário”, mas que todos contribuíssem conforme podiam. Paulo já havia sofrido muito com pessoas aproveitadores (2 Coríntios 11:26) e queria alertar os irmãos de Tessalônica a respeito. Ser cristão na época podia significar não só benefícios espirituais como materiais também. Eusébio, bispo da Igreja de Cesaréia no final do século 3 e começo do século 4, nos conta em seu livro “História Eclesiástica” que os cristãos do norte da África eram chamados de “terapeutas”, devido ao forte trabalho social que eles realizavam por lá, em que distribuíam alimentos e cuidavam dos doentes até que sarassem, tudo de maneira gratuita e por amor. Os cristãos sempre tiveram essa marca, da gratuidade, apesar dos escândalos e falsos cristãos que envergonharam nossa religião pela história, mas o cristianismo deixou para a humanidade todo um legado de gratuidade no serviço ao próximo, como a Educação pública, os hospitais públicos, a ajuda humanitária aos necessitados, coisas em que mesmo os não cristãos hoje atuam fortemente, tendo sido a nossa religião a pioneira nestes trabalhos, por causa da nossa doutrina solidária de ajuda (2 Cor 8:1-5), não egoísta de retenção, como alguns a querem transformar.

hqdefaultEm Tessalônica não era diferente. A região estava passando por um período de grande fome e escassez de alimentos (Atos 11:28) e na cidade também estava acontecendo isso, além das perseguições que sofriam que tornavam as coisas mais difíceis ainda (2 Tess 1:4). Paulo mostra que a religião cristã estava crescendo entre eles e isso o deixava muito feliz, porque eles se ajudavam mutuamente como igreja nesses tempos difíceis (2 Tess 1:3). Porém Paulo percebe que irmãos recém conversos ou mais teimosos ainda não se comportavam genuinamente como cristãos, mas agiam ainda como se estivessem no mundo, estavam causando problemas entre eles e nesse versículo 6 do capítulo 3 da segunda carta aos tessalonicensses pede para não dar bola para eles; mais para frente pede para serem benevolentes ainda, mas evitar o prejuízo geral, sendo cautelosos com eles, além do cuidado de Paulo com falsos irmãos que estavam entre eles (2 Tess 2:1,2), por isso nas recomendações finais trata de como se comportar com eles. O versículo 6 do capítulo 3 fala sobre estes, não sobre os pobres que precisam de ajuda. Todos contribuíam e não era certo que uns usufruíssem da ajuda cristã sem contribuir, porque a comida já era escassa e eles dividiam tudo entre eles exatamente para que todos pudessem ter alguma dignidade. Os que tinham mais dividiam para que os que tivessem menos pudessem comer. Mas todos trabalhavam como Igreja para poder receber esse benefício, aqueles que não estavam ainda totalmente integrados no serviço cristão e não distribuíam seus alimentos também não poderiam usufruir, pois não contribuíam com o todo para que pudessem pegar alguma divisão. Então Paulo pede para deixá-los de fora da divisão e que se sustentem por si mesmos. Mas Paulo não ensina o egoísmo e a retenção, vamos continuar acompanhando:

Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nos, pois que não nos houvemos desordenadamente entre vós,

Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós.

Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes.

Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também.

Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs.

A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão. (2 Tessalonicenses 3:7-12)

Lendo assim o todo da recomendação de Paulo, sabendo agora o pano de fundo da passagem que é usada solta pelos que são contra os benefícios sociais de governos a pessoas necessitadas e “divinizam” sua opinião dizendo que a haveria uma “Lei de Deus” contra os benefícios sociais, tem como se concluir que Paulo estava aqui pensando em confirmar o capitalismo egoísta e que as pessoas só deveriam ser ajudadas apenas como remuneração de trabalho delas?? Vemos aqui que não é uma nova Lei de Deus que Paulo estaria trazendo que obriga os cristãos a serem capitalistas liberais, mas apenas uma recomendação inteligente para preservação dos recursos e incentivo à participação de todos na arrecadação de alimentos para distribuição entre eles.

Outro ponto a ser frisado, essa recomendação, e não uma nova Lei, é para a Igreja, que tem recursos limitados e em tempos de crise pode servir como ponto de auxílio entre irmãos, não para a política. Na política, não temos ZIMBABWEuma teocracia, mas a Lei moral de Deus, ou seja, o amor a Deus, ao próximo, a si mesmo, sintetizados nos 10 mandamentos ainda valem e isso é algo universal, independente da fé. Lembrando, a Lei de Deus tem 3 usos: Freio (uso político), Espelho (uso teológico) e Norma (uso prático). O primeiro uso é universal, todos os homens são moderados por Deus através de governos e autoridades, que servem como freio de Deus para nossas maldades e exortação a praticar o bem, no Reino da Mão Esquerda de Deus, ou seja, na operação divina nas sociedades humanas (Rom 13). Os dois outros usos são pela fé, no Reino da Mão Direita de Deus. A Fé nos serve de Espelho e nos faz enxergar pela Lei que somos pecadores condenados e precisamos de salvação, por isso clamamos a Jesus e recebemos de graça, por não seguirmos a Lei, a salvação. Então, depois de salvos, procuramos na Bíblia as orientações para seguir a vontade de Deus, esse é o uso de Norma da Lei de Deus, que nos orienta como agir em boas obras a fé que Ele nos deu, seguindo as aplicações morais da Lei, deixando as aplicações cerimoniais e jurídicas para trás como sombra. Neste ponto do uso político da Lei, a Bíblia diz que Deus levantou as autoridades para fazer o bem (Rom 13:4) e que esse bem deve ser guiado pelo amor ao próximo (Rom 13:8), então cada governo deve buscar o bem estar geral da nação, ou estará desobedecendo a Deus e prestará contas por isso. Usar uma passagem solta para que pessoas famintas e necessitadas sejam prejudicadas e chamadas de “vagabundas” ou “preguiçosas” porque têm menos oportunidades e bens materiais que os que assim as ofendem é que é realmente conta contra a Lei de Deus, como São Paulo fala na hora de explicar as funções do governo e do cristão diante do governo:

A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei. (Romanos 13:8)

Não estou aqui divinizando os programas sociais como o Bolsa Família do Brasil, ou a distribuição de renda dos países com maior IDH do mundo, como Canadá, Noruega, Finlândia, Dinamarca, etc.. Todos temos em nós ainda o “pecado original” e toda maneira de lidar com o próximo pode ser melhorada, avaliada e criticada. Não estou dizendo que vc deve ser a favor desses programas sociais porque a Bíblia mostraria que esses programas são parte da vontade de Deus. Não. Cada sociedade e época tem suas realidades e demandas diferentes. Deus nos livrou da Lei Mosaica pq sabia que as leis concernentes à Nação de Israel não se aplicam em outras culturas e épocas, por isso as tratou como sombra, mas não a expressão exata da vida cristã, que nos traz liberdade dessas leis nacionais de Israel (Hebreus 10:1). Jesus disse que o reino dEle não é deste mundo e não deu novas leis para seguirmos, nem orientou os apóstolos a fazerem isso. Então neste momento Deus modera este mundo em sua Lei moral e nos dá liberdade e responsabilidade de andar em seus caminhos de maneira criativa para atendermos as pessoas conforme as diferentes épocas, culturas e lugares. Você pode ser contra ou favor dos programas sociais e ter suas opiniões a respeito. Você pode ser capitalista, comunista, liberal, socialista, etc. Mas não pode diminuir a Palavra de Deus à sua ideologia política.. O que estou querendo mostrar aqui é que você não pode divinizar sua opinião e dizer que se a pessoa não seguir sua opinião ela está indo contra a Bíblia, porque Deus não deixou novas leis além da moral para os governos seguirem e esta passagem que muitos usam como se fossem uma nova lei para os Estados não se trata disso na verdade.

The Rich And The Poor

Durante a história da Igreja, a interpretação sempre foi essa, rumo à generosidade e à assistência não ap individualismo ou ao “liberalismo capitalista”. C. S. Lewis mostra bem que essa interpretação de generosidade e boa vontade com o próximo é a correta no seu livro “Mere Christianity” (Cristianismo Puro e Simples):

No trecho do Novo Testamento que diz que todos devem trabalhar, ele dá uma razão para isso — “a fim de ter algo a dar para os necessitados”. A caridade – dar para os pobres – é um elemento essencial da moralidade cristã: na assustadora parábola das ovelhas e dos cabritos, ela parece ser a questão da qual depende tudo o mais. Hoje em dia, certas pessoas dizem que a caridade não é mais necessária e que, em vez de darmos para os pobres, deveríamos criar uma sociedade em que não existissem pobres. Elas não deixam de ter certa razão no que se refere à construção de uma sociedade assim, mas quem tira disso a conclusão de que, nesse meio tempo, pode parar de doar, se afastou de toda a moralidade cristã. Não acredito que alguém possa estabelecer o quanto cada um deve dar. Creio que a única regra segura é dar mais do que nos sobra. Em outras palavras, se nossos gastos com conforto, bens supérfluos, diversão etc. se igualam ao do padrão dos que ganham o mesmo que nós, provavelmente não estamos dando o suficiente. Se a caridade que fazemos não pesa pelo menos um pouco em nosso bolso, ela está pequena demais. É preciso que haja coisas que gostaríamos de fazer e não podemos por causa de nossos gastos com caridade. Os casos particulares que afetam parentes, amigos, vizinhos ou empregados, de que Deus, por assim dizer, nos força a tomar conhecimento, exigem muito mais que isso: podem inclusive nos obrigar a pôr em risco
nossa própria situação. Para muitos de nós, o grande obstáculo à caridade não está num estilo de vida luxuoso ou no desejo de mais prosperidade, mas no medo — na insegurança quanto ao futuro. Temos de saber que esse medo é uma tentação. As vezes, também o orgulho atrapalha a caridade; somos tentados a gastar mais do que devíamos em formas vistosas de generosidade (gorjetas, hospitalidade) e menos com aqueles que realmente necessitam do nosso auxílio.

É isso.. Particularmente, eu tenho minhas opiniões sobre programas assistenciais e de distribuição de renda pelo Brasil e pelo mundo, mas eu receio que após fazer uma explicação usando a Palavra de Deus e depois aplicar minha opinião poderia dar margem a algum mal entendido e soar como se estivesse cometendo o mesmo erro que mostrei acima, de usar as Escrituras para minhas ideologias pessoais, por isso acho que não cabe neste texto aqui que eu apresente minhas idéias e conclusões sobre estas coisa, já que estou tratando sobre hermenêutica e não com foco em política.

Sendo assim, tire você suas conclusões sobre política, economia, sociedade, etc, mas tome muito cuidado na hora de usar a Palavra de Deus em suas ideologias, você pode estar pecando na melhor de suas intenções. Melhor aprender a separar as coisas: Lei e Evangelho e também separar Reino da Mão Direita e Reino Mão Esquerda na atuação de Deus na Terra.

Deus te abençoe.

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