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Será que santos mortos, como a Mãe do nosso Salvador, podem ouvir nossas orações e nos ajudar intercedendo junto a Deus?

A INTERCESSÃO ATRIBUÍDA AOS CHAMADOS SANTOS, NO ROMANISMO, NÃO SE FUNDAMENTA NO ENSINO DA ESCRITURA, E CONTRADIZ A SINGULAR MEDIAÇÃO DE CRISTO, ALIÁS MARGINALIZADA, SE NÃO ANULADA

No que tange aos santos que, mortos na carne, vivem em Cristo, se lhes atribuímos alguma oração, não sonhemos com isso que eles mesmos tenham outro caminho de rogar a Deus senão Cristo, que é o único caminho [Jo 4.16]; tampouco que suas preces sejam aceitáveis a Deus em outro nome. E assim, uma vez que a Escritura volve nossa mente unicamente para Cristo, e já que o Pai celestial quer nele convergir todas as coisas [Ef 1.10; Cl 1.20], foi da máxima obtusidade, para não dizer da máxima insânia querer assim engendrar-nos acesso por meio deles para que fôssemos afastados para longe daquele à parte de quem nem a eles próprios se lhes patenteia qualquer entrada. Não obstante, quem haja de negar que isto foi feito por alguns séculos e que hoje é feito onde quer que floresça o papismo?

Para obter a benevolência de Deus, põem diante dele os méritos santos e, na maioria das vezes, pondo Cristo de parte, suplicam a Deus através dos nomes deles. Porventura, repito, não significa isto transferir para eles o ofício daquela singular intercessão que supra reivindicamos para Cristo? Ademais, quem, quer anjo, quer demônio, jamais atribuiu a qualquer dos homens sequer uma sílaba acerca de intercessão dessa natureza, que imaginam para eles? Ora, na Escritura não consta nada disso. Portanto, com que razão foi ela inventada? Incontestavelmente, enquanto o engenho humano busca para si, afoitamente, subsídios dos quais não é munido através da Palavra de Deus, põe à mostra cristalinamente sua carência de fé. Porque, se a consciência desses tais for invocada, os quais se comprazem na intercessão dos santos, descobriremos que isso não procede de outra parte senão porque laboram em ansiedade, como se aqui Cristo fosse deficiente, ou fosse excessivamente severo.

Acima de tudo, com essa perplexidade eles ultrajam a Cristo e o despojam do título de único Mediador, o qual, assim como lhe foi dado pelo Pai como singular prerrogativa, assim também não deve ser transferido a outrem. E de fato com isso mesmo lhe obscurecem a glória do nascimento e lhe esvaziam a cruz; enfim, tudo quanto ele fez ou sofreu, o esbulham e o defraudam de seu louvor quando, de fato, tudo tende que só ele seja tido na conta de Mediador. Ao mesmo tempo, rejeitam a benignidade de Deus, o qual lhes é exibido por Pai; pois, não lhes é Pai, a não ser que reconheçam Cristo como seu Irmão. Negam isto abertamente, salvo se refletirem em seu íntimo que ele nutre por eles fraterno afeto, do quê nada pode ser mais suave ou mais terno. Por isso, a Escritura no-lo oferece com exclusividade, nos remete a ele e nos sustém nele. Ambrósio afirma que “ele é nossa boca, através da qual falamos com o Pai; nossos olhos, através dos quais vemos o Pai; nossa destra, através da qual nos oferecemos ao Pai. A não ser que ele interceda, nem nós, nem todos os santos, temos alguma coisa com Deus.” Se objetam, dizendo que as preces públicas que nos templos proferem são concluídas com este apêndice, por Cristo, nosso Senhor, é isso frívolo subterfúgio, visto que não menos se profana a intercessão de Cristo quando é misturada às preces e méritos dos mortos, que se for omitida inteiramente, a referência seria meramente aos mortos. Além disso, em to- das as suas litanias, hinos e jaculatórias, onde não deixam nada de honra a conferir aos santos mortos, não se faz nenhuma menção a Cristo.

 

A INTERCESSÃO ROMANISTA DOS SANTOS ENGENDRA SUPERSTICIOSA VENERAÇÃO DESSAS CRIATURAS, ÀS QUAIS SE PRESCREVEM ATRIBUIÇÕES E HONRARIAS PRÓPRIAS DE CRISTO E DA DEIDADE

Mas, a obtusidade humana avançou tanto que aqui temos expressa disposição à superstição, superstição que, onde uma vez o freio se rompe, costuma não impor nenhum limite de seu transbordamento. Ora, depois que se começou a recorrer à intercessão dos santos, pouco a pouco, a cada um foi atribuída sua função própria, de sorte que, em razão da diversidade de encargo, passou-se a invocar ora este, ora aquele intercessor. Então os homens adotaram para si, individualmente, seus nomes particulares, cuja confiança, a que se entregaram, se equipara aos deuses tutelares. Não só foram constituídos deuses segundo o número das cidades, do que o Profeta censurava a Israel outrora [Jr 2.28, 11.13], mas até segundo a multidão de pessoas.

Ora, se é verdade que os santos têm a verdade de Deus como norma e regra de todos os seus desejos, e que nela têm postos seus olhos, qualquer que pronuncia outra oração além daquela que deseja que venha o reino de Deus, os avalia de uma maneira mui inconveniente, carnal e inclusive afrontosa. Do que muitíssimo longe está o que lhes imaginam: cada um, em seu afeto particular, é mais disposto para com seus cultores. Enfim, muitíssimos não se abstivera de horrendo sacrilégio, invocando-os não mais como patrocinadores, mas realmente como dispensadores de sua salvação. Eis a que ponto chegam os homens desventurados, quando se desgarram de sua legítima posição, isto é, da Palavra de Deus!

Deixo fora de consideração os mais crassos portentos de impiedade, nos quais, embora sejam detestáveis a Deus aos anjos e aos homens, entretanto deles nem mesmo se envergonham nem se sentem pesarosos. Prostrados diante da estátua ou pintura de Bárbara, ou Catarina, e afins, sussurram: Pai Nosso. Tão longe está que os pastores cuidem de curar ou de coibir tal desatino, que, atraídos pelo aroma do lucro, com seu aplauso o aprovam totalmente. Mas, ainda que afastem de si a odiosidade de crime tão hediondo, entretanto com que pretexto hajam de defender os rogos que dirigem a Elói ou a Medardo, para que do céu contemplem e ajudem a seus servos, ou à Virgem Santa que ordene ao Filho que faça o que pedem? Outrora, no Concílio de Cartago, foi proibido que se fizesse súplica direta aos santos diante do altar, e é provável que, embora os santos varões não pudessem conter totalmente o ímpeto do depravado costume, onde se aplicou comedimento ao menos para que as orações públicas não fossem viciadas com esta fórmula: São Pedro, ora por nósQuanto mais longe, porém, veio parar a diabólica insolência desses que não hesitam em transferir aos mortos o que era próprio de Deus, e de Cristo?

OS CHAMADOS SANTOS DO ROMANISMO, CUJAS FUNÇÕES AFINS NÃO SE EQUIPARAM ÀS DOS ANJOS, NÃO PODEM EXERCER A FUNÇÃO DE INTERCESSÃO

Mas, o que se esforçam por estabelecer – que intercessão dessa natureza parece estar apoiada na autoridade da Escritura –, nisto laboram em vão. Dizem que lêem com freqüência orações de anjos. Não só isso, mas também dizem que as orações dos fiéis são levadas por suas mãos à presença de Deus. Mas, se ficam satisfeito em comparar os santos, os quais se desobrigaram da presente vida, com os anjos, é preciso provar-se que estes são espíritos ministrantes, aos quais foi delegado o ministério de cuidar de nossa salvação [Hb 1.14]; aos quais se confiou o encargo de guardar-nos em todos os nossos caminhos [Sl 91.11]; para que andem a nosso redor [Sl 34.7]; para que nos avisem e nos consolem; para que, por nós, se postem de atalaia. Todas estas coisas são conferidas a estes, porém de modo nenhum àqueles.

Mas quão sem propósito é que os anjos se parecem com os santos falecidos, o que suficientemente se evidencia à luz de tantas funções diversas mercê das quais a Escritura distingue uns dos outros. Ninguém ousará desempenhar as funções de causídico perante um juiz terreno, a não ser que seja admitido a advogar; daí, de onde procede tão grande petulância a vermes que impinjam a Deus patronos aos quais na Escritura não se lê que fosse outorgado tal ofício? Deus quis incumbir os anjos do cuidado de nossa salvação, donde não só freqüentam as reuniões sacras, mas inclusive a igreja é seu teatro em que contemplam, extasiados, a variada e multiforme sabedoria de Deus [Ef 3.10]. Os que transferem a outros o que lhes é peculiar, por certo que confundem e pervertem a ordem estabelecida por Deus, a qual devia ser inviolável.

Persistem, com a mesma prontidão, em citar outros testemunhos. Disse Deus a Jeremias: “Se Moisés e Samuel se postassem diante de mim, ainda assim minha alma não se inclinaria para este povo” [Jr 15.1]. Teria Jeremias, perguntam, falado acerca de mortos, se não estivesse certo de que intercedem pelos vivos? Não obstante, eu concluo, em contrário, como por este texto se vê claramente que nem Moisés nem Samuel intercederam então pelo povo de Israel, é sinal de que os mortos não oram pelos vivos. Pois, quem dos santos se imputaria o empenho pela salvação do povo, deixando Moisés de fazê-lo enquanto vivia, o qual a todos os demais superou neste aspecto, por ampla distância?

Portanto, se porventura se põem a correr atrás dessas sutilezas frívolas – os mortos intercedem pelos vivos, porquanto o Senhor disse: “caso eles intercedessem” –, eu muito mais garbosamente argumentarei deste modo: Na extrema necessidade do povo, não era Moisés que estava a interceder, acerca de quem se diz: “caso intercedesse.” E assim se faz patente que a bondade e paterna solicitude de Moisés não intercedem por ninguém, uma vez que todos se encontram bem distantes da humanidade. Aliás, eles conseguem isto com suas cavilações: eles se ferem com essas armas com as quais se julgavam excelentemente equipados. Com efeito, é por demais ridículo torcer assim uma afirmação simples, porquanto o Senhor está apenas declarando que não haverá de poupar as abominações do povo, ainda que sucedesse que Moisés e Samuel viessem a ser seus patronos, a cujas orações se mostrasse de tal modo indulgente.

Este sentido se revela com muita clareza à luz de uma passagem semelhante de Ezequiel: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles por sua justiça livrariam apenas suas almas” [Ez 14.14]; onde não há dúvida de que desejasse indicar: “se acontecesse de dois deles voltarem a viver”, pois o terceiro ainda vivia nesse tempo, isto é, Daniel, o qual, sem a menor sombra de dúvida, estava na primeira flor da adolescência e é incomparável exemplo de piedade. Deixemos, pois, de parte aqueles que a Escritura mostra claramente haverem terminado sua carreira. Por isso, Paulo, quando fala a respeito de Davi, não ensina que ele ajuda a posteridade com orações, mas apenas que serviu à sua época[At 13.36].

IMPROCEDÊNCIA DA TESE DE QUE OS SANTOS QUE DEIXARAM ESTA VIDA CONTINUAM A AGIR EM NOSSO FAVOR, JÁ QUE NÃO SUBSISTE NENHUMA COMUNHÃO ENTRE NÓS E ELES

Novamente objetam: Portanto, despojaremos de todo e qualquer desejo piedoso àqueles que em todo o curso da vida nada aspiraram senão piedade e misericórdia? E como eu não quero perscrutar mais curiosamente o que eles fazem ou a que se dedicam, portanto não é de modo algum provável que sejam levados de um lado a outro pelos desejos vários e particulares; o contrário disso, com firme e inamovível vontade aspiram ao reino de Deus, a qual consiste não menos da perdição dos ímpios, do que da salvação dos fiéis. Se isto é verdadeiro, não há dúvida de que também sua caridade está contida na comunhão do corpo de Cristo, e que ela não se estende mais do que permite a natureza dessa própria comunhão.

Ora, pois, mesmo que eu admita que os santos orem desse modo por nós, entretanto, nem por isso renunciam a seu sossego, de sorte que se deixem distrair pelos cuidados terrenos, e muito menos deverão por isso ser invocados por nós, diretamente. Tampouco se segue que se deva fazer assim só porque os homens que vivem na terra podem mutuamente recomendar-se uns pelas orações dos outros [1Tm 2.1,2; Tg 5.15, 16], pois este empreendimento serve para fomentar neles a caridade en- quanto repartem e mantêem reciprocamente, entre si, suas necessidades. E de fato fazem isso isto em conformidade com o preceito do Senhor, não sendo destituídos de sua promessa, dois elementos que têm sempre os primeiros postos na oração.

Todas as razões desta espécie deixam de aplicar-se em relação aos mortos, os quais, quando o Senhor os subtrai de nosso convívio, não nos deixa nenhuma comunicação com eles [Ec 9.5, 6] e, quanto é licito seguir às conjeturas, tampouco a eles conosco.

Ora, se alguém alegar que, uma vez que foram unidos conosco em uma só fé, que nos amaram com o mesmo amor, perguntarei: quem nos revelou que tenham orelhas tão longas, que se estendam até nossas palavras, e olhos tão perspicazes, que vejam nossas necessidades? Aliás, tartamudeiam, em suas trevas, qualquer coisa sobre o fulgor da face divina a iluminá-los, no qual, como em um espelho, do alto os santos contemplam as coisas humanas. Afirmar tal coisa, porém, principalmente com a confiança com que ousam eles fazê-lo, que é senão, mercê dos sonhos embriagados de nosso cérebro, querer penetrar e irromper nos secretos juízos de Deus à parte de Sua Palavra, e calcar aos pés a Escritura, a qual com freqüência declara que a compreensão de nossa carne é inimiga da sabedoria de Deus [Rm 8.6, 7], condena, inteiramente, a vacuidade de nosso entendimento [Ef 4.17], e que, posta por terra toda nossa razão, quer que seja por nós visualizada somente a vontade de Deus.

IMPROCEDÊNCIA DO ARGUMENTO DE QUE A INVOCAÇÃO DOS PATRIARCAS, NO ANTIGO TESTAMENTO, É EXEMPLO REAL DA INVOCAÇÃO DOS SANTOS

Não obstante, torcem mui perversamente outros testemunhos da Escritura que adotam para defender esta sua falsidade. Ora, pois, dizem eles, Jacó roga que seu nome e o de seus pais, Abraão e Isaque, sejam invocados sobre sua posteridade [Gn 48.16]. Vejamos, primeiramente, de que natureza é esta forma de invocação entre os israelitas. Com efeito, não imploram a seus pais que lhes tragam ajuda; ao contrário, instam com Deus a que se lembrem de seus servos, Abraão, Isaque e Jacó. Portanto, seu exemplo em nada respalda àqueles que costumam dirigir a palavra aos próprios santos.

Na verdade, visto que esses broncos, no embotamento em que se encontram, não apreendem nem o que significa invocar o nome de Jacó, nem por que ele deva ser invocado; não é de admirar se também na própria forma titubeiam de maneira tão pueril. Esta frase ocorre nas Escrituras não uma só vez. Ora, Isaías [4.1] diz o nome dos homens é invocado pelas mulheres, enquanto os têm na condição de maridos, sob cuja proteção e guarda vivam. Portanto, a invocação do nome de Abraão sobre os israelitas se situa nisto: enquanto atribuem a ele a origem de sua raça e o honram por ilustre memória como seu genitor e pai. Aliás, tampouco Jacó faz isto porque esteja solícito quanto a propagar a celebridade de seu nome, mas porque sabia que toda a bem-aventurança dos pósteros consistia na herança do pacto que Deus estabelecera consigo e, porque vê que lhes será o sumo de todos os bens, roga que sejam contados em sua estirpe; pois isto outra coisa não é senão lhes transmitir a sucessão do pacto. Eles, por sua vez, enquanto em suas orações induzem lembrança desta natureza, não se acolhem às intercessões dos mortos; pelo contrário, lançam diante do Senhor a memória de seu pacto, no qual o Pai clementíssimo promete haver de lhes ser propício e benévolo em consideração a Abraão, Isaque e Jacó.

Por outro lado, quão pouco os santos se reclinam nos méritos dos Pais, comprova-o a voz pública da Igreja no Profeta: “Tu és nosso Pai, e Abraão nos desconheceu, e Israel nos ignorou. Tu, ó Senhor, és nosso Pai e nosso Redentor” [Is 63.16]. E enquanto de fato assim falam, ao mesmo tempo adicionam: “Volve-te, Senhor, por amor de teus servos” [Is 63.17]; contudo, não cogitam nenhuma intercessão, mas volvem o ânimo para o benefício do pacto. Ora, pois, quando temos o Senhor Jesus, em cuja mão o eterno pacto de misericórdia nos foi não apenas concluído, mas também confirmado, o nome de quem anteponhamos, de preferência, em nossas orações? E, uma vez que estes bons mestres querem, com estas palavras, que os patriarcas sejam constituídos intercessores, desejaria saber deles por que, em tão grande multidão, Abraão, o pai da Igreja, não granjeia de fato entre eles sequer o mínimo lugar? E sabe-se sobejamente bem de que refugo tomam para si seus advogados. Respondam-me se é consistente que Abraão, a quem Deus antepôs a todos os outros, e a quem elevou ao sumo grau de honra, seja negligenciado e suprimido. Sem dúvida, como fosse evidente que tal uso fora desconhecido à Igreja antiga, aprouve, no afã de esconder a novidade, silenciar quanto aos patriarcas primitivos, como se a diferença de nomes escusasse o costume recente e bastardo.

Mas, o que alguns objetam de suplicar-se a Deus a que, “por amor de Davi” [Sl 132.10], tenha misericórdia do povo, de tal modo isso não lhes respalda ao erro, que o mesmo Salmo é plenamente eficaz para refutá-lo. Ora, se considerarmos o lugar que ocupou a pessoa de Davi, veremos que neste lugar ele é separado da companhia de todos os santos, para que Deus confirmasse e ratificasse o pacto que com ele estabelecera. Assim, não só se tem mais consideração pelo pacto do que pelo homem, como também a intercessão singular de Cristo é figurativamente expressa. Ora, o que foi peculiar a Davi, até onde ele era tipo de Cristo, certo é que não pode competir com outros.

O FATO DE DEUS OUVIR AS ORAÇÕES DE SEUS SANTOS NESTA VIDA NÃO PROVA O PODER DE SUA INTERCESSÃO APÓS A MORTE, ANTES NOS DESAFIA A ORAR COMO FIZERAM

Mas o que a alguns realmente impressiona é que freqüentemente lemos que as orações dos santos são ouvidas. Por quê? Obviamente, porque oraram. “Em ti esperaram”, diz o Profeta, “e foram salvos; clamaram, e não foram confundidos” [Sl 22.4, 5]. Oremos, pois, também nós, segundo seu exemplo, para que, à semelhança deles, sejamos ouvidos. Estes, porém, contrariamente arrazoam, em contraposição a tudo que é próprio, dizendo que ninguém será ouvido, senão os que já foram ouvidos. Tiago o expressa muito melhor! “Elias”, diz ele, “era um homem semelhante a nós, e orou fervorosamente para que não chovesse, e por três anos e seis meses não choveu sobre a terra. Orou novamente, e o céu deu chuva, e a terra deu seu fruto” [Tg 5.17, 18]. Por quê? Porventura infere Tiago que houvesse em Elias alguma prerrogativa singular à qual nos devamos acolher? Longe disso! Ao contrário, ele ensina o perpétuo poder da oração pia e pura, com o fim de nos exortar a que oremos de modo semelhante. Porque entenderíamos mal a prontidão e benignidade de Deus em ouvi-las, se com tais experiências dos santos não nos firmarmos com maior confiança em suas promessas, nas quais garante que seu ouvido estará atento para ouvir não a um ou a outro, ou mesmo a uns poucos, mas a todos que invocarem seu nome.

E por isso tanto menos admite escusa de sua ignorância, porque parecem desprezar, por assim dizer, deliberadamente a tantas advertências da Escritura. Porventura foi Davi freqüentemente livrado pelo poder de Deus para apropriar-se dele, de modo que fôssemos livrados por seu sufrágio? Ele mesmo se expressa de modo muito distinto: “Os justos esperam por mim, até que me recompenses” [Sl 142.7]. Igualmente: “Os justos verão, e se regozijarão, e esperarão no Senhor” [Sl 52.6; 64.10]; “Este pobre clamou a Deus, e ele lhe respondeu” [Sl 34.6]. Muitas são as orações desta natureza nos Salmos, nas quais ele apela a Deus para que, por esta razão, conceda o que está a implorar, para que os justos não sejam envergonhados; antes, por seu exemplo, sejam animados a orar bem. Agora, estejamos satisfeitos com um só exemplo: “Por isso, todo santo orará a ti em tempo oportuno” [Sl 32.6]; passagem que cito com muito mais prazer, porque estes indoutos advogados não se acanham em haver vendido sua língua mercenária a serviço do papado, evocando-a para provar a intercessão dos mortos. Como se realmente outra coisa quisesse Davi senão mostrar o fruto que provirá da clemência e da benignidade de Deus, quando concede o que lhe é pedido.

E é preciso sustentar, de modo geral, que a experiência da graça de Deus, tanto por nós, quanto por outros, não é uma ajuda diminuta em confirmar-se a fidelidade de suas promessas. Não recito as muitas passagens onde Davi põe diante de si os benefícios de Deus como fator de confiança, porque prontamente ocorrerão aos leitores dos Salmos. Jacó ensinara isso mesmo, com seu exemplo: “Menor sou eu que todas as beneficências, e que toda a fidelidade que fizeste a teu servo; porque com meu cajado passei este Jordão, e agora me tornei em dois rebanhos” [Gn 32.10]. É verdade que ele se refere à promessa, todavia não a só à promessa, senão que, ao mesmo tempo, acresce o efeito, para que no futuro possa mais animosamente confiar que Deus haverá de ser o mesmo para consigo. Porquanto Deus não é semelhante aos mortais, que se entediam de sua liberalidade ou cuja capacidade se exaure; pelo contrário, deve ser estimado por sua própria natureza, como judiciosamente o faz Davi: “Tu me redimiste”, diz ele, “Senhor Deus da verdade” [Sl 31.5]. Depois que a Deus tributa o louvor de sua salvação, acrescenta ser ele veraz, porquanto, a não ser que fosse perpetuamente semelhante a si mesmo, o argumento que se tomaria de seus benefícios não seria suficientemente sólido para confiar nele e o invocar. Quando, porém, sabemos que sempre que nos assiste ele dá exemplo e prova de sua bondade e fidelidade, não há por que temer que nossa esperança nos arraste à vergonha ou nos engane.

CONSIDERAÇÕES FINAIS EM REFUTAÇÃO À DOUTRINA DA INTERCESSÃO DOS CHAMADOS SANTOS DO ROMANISMO

Seja a conclusão de tudo isso o fato de que, quando a Escritura nos recomenda que o invoquemos como o ponto capital no culto de Deus – pois estima mais este dever que todos os demais sacrifícios –, de nós exige este mister da piedade, é um manifesto sacrilégio dirigir a outros a oração. Donde, também no Salmo, se diz: “se estendemos nossas mãos para um deus estranho, porventura Deus não esquadrinhará isso?” [Sl 44.20, 21]. Além disso, quando Deus quer ser invocado só pela fé, ele ordena expressamente que as orações se conformem à regra de sua Palavra; final- mente, quando a fé fundamentada na Palavra é a mão da oração correta, assim que se desvia da Palavra, a oração necessariamente se corrompe. Com efeito, já de- monstramos que em toda a Escritura esta honra é reservada exclusivamente a Deus.

No que diz respeito à função da intercessão, também já notamos ser ela ofício peculiar a Cristo, e que nenhuma outra oração é agradável a Deus senão aquela que este Mediador santifica. E ainda que os fiéis mutuamente ofereçam orações diante de Deus em favor dos irmãos, já mostramos que isso nada derroga à intercessão única de Cristo, já que todos recomendam a Deus tanto a si mesmos, quanto aos outros, nela igualmente se apóiam. Além disso já ensinamos que isto é nesciamente atribuído aos mortos, aos quais jamais lemos ser ordenado que orem por nós. A Escritura nos exorta com freqüência as obrigações mútuas deste exercício; no en- tanto, dos mortos nem sequer uma sílaba. Tiago, com efeito, enfeixando estas duas injunções, que entre nós confessemos nossos pecados e oremos uns pelos outros [Tg 5.16], tacitamente exclui os mortos.

Conseqüentemente, é suficiente esta única razão para se condenar este erro: que o início da oração correta provém da fé; que a fé, porém, procede de ouvir a Palavra de Deus [Rm 10.14, 17], onde nenhuma menção se faz da fictícia intercessão dos santos, visto que a superstição engendrou para si, temerariamente, patronos que não foram divinamente providenciados. Porque, embora na Escritura haja muitas formas de oração, não se encontrará nela um só exemplo que confirme a intercessão dos santos falecidos, sem a qual no papado não se tem por verdadeira e eficaz nenhuma intercessão. Ademais, é evidente que esta superstição nasceu da falta de fé, porque ou não se contentaram com Cristo como intercessor, ou o despojaram inteiramente deste mérito. E este último ponto facilmente se prova à luz de sua impudência, porquanto não pugnam, com outro argumento mais forte, ser-nos necessário o patrocínio dos santos senão em objetar que somos indignos de acesso íntimo a Deus.

De fato confessamos ser isto mui verdadeiro, mas daí concluímos que eles não fazem caso algum de Cristo, pois têm sua intercessão como algo de nenhum valor, se não a acompanham com a de São Jorge, a de São Hipólito e a de outros espantalhos semelhantes.

 

– João Calvino – Institutas da Religião Cristã; Livro 3

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