Me vê uma Missão Integral aí com manteiga, por favor.
Me vê uma Missão Integral aí com manteiga, por favor.

O PORQUÊ DO TEXTO

Muitos me perguntam, se surpreendem, e alguns até se irritam comigo porque não acredito na Missão integral. Sempre me perguntam quais as minha razões para não crer nisso. Vai aqui, finalmente, minha posição sobre o assunto abaixo. Confira.

O REINO DE CRISTO NÃO É DESTE MUNDO

Eu não acredito que o Reino de Deus seja inerente a este mundo, creio que o Reino de Deus abrange este mundo, mas não é parte deste mundo; pelo contrário, este mundo é parte do Reino. Deus governa o mundo e o universo, mas em Cristo temos outro Reino fora deste mundo. Mais para frente, aqui no texto, eu explico melhor essa posição. O ponto aqui do parágrafo é que acredito que ajudar o próximo é dever do cristão, é Lei, não é Evangelho. Não creio que nenhuma ação social “traz o Reino”, mas o Reino já está aqui, na sua dimensão material, porém “trazemos o Reino” na sua dimensão espiritual pela pregação, não pela ação social. A Ação Social pode ser uma forma de testemunho, mas tem que haver o testemunho; sem testemunharmos claramente de Cristo, do perdão e da graça que Deus dá em Cristo na Cruz, não existe evangelização, apenas cumprimos nosso papel de fazer o bem, o que é nossa obrigação como seres humanos e como cristãos também.

OBRAS = LEI.

MISSÃO = EVANGELHO.

Temos sim que ajudar as pessoas, é nosso dever, não é nossa escolha. Temos que amar o próximo e servir uns aos outros, querendo ou não. E isso não é evangelismo, não é Evangelho, não é Missão. É Lei, é mandato, é imperativo, é algo obrigatório não só ao cristão mas a todos os homens. A ajuda material faz parte do reinado de Deus no Universo material. Assim como existem as leis da física, assim também existem as leis morais de Deus colocadas nos corações humanos (Rm1; Sl  37.31; Rm 2.15; Is 28.13; Jr 31.33). Qualquer um pode se envolver com causas sociais sem a fé, que vem pelo Evangelho, apenas pelo conhecimento da Lei que diz “ame o próximo” e assim agir bem com as pessoas. Aliás, entre os “não cristãos”, temos mais pessoas envolvidas com causas sociais no Brasil e testemunhando a fraternidade humana do que os cristãos. Fazer o bem social é dever humano e testemunha a Lei de Deus.

A missão do cristão não é Lei, é Evangelho, é comunicar o Evangelho, ou seja, o perdão dos pecados, a salvação, e dizer para as pessoas que quem salva é Deus. Isso um incrédulo não pode fazer, somente o cristão, que faz isso pelo poder de Deus, que é o Evangelho. É o próprio Deus chamando as pessoas para seus braços de amor e perdão e nós somos as ferramentas para isso. Então não cumprimos com a Missão de pregar o Evangelho a toda criatura fazendo trabalhos sociais, cumprimos a Lei desta forma, não o Evangelho, como o bom samaritano foi um exemplo de cumprimento da Lei e não de pregação do Evangelho. Uma coisa não exclui a outra. O Evangelho não exclui a Lei, nem a Lei exclui o Evangelho, por isso esta perspectiva bíblica de distinguir corretamente a Lei e o Evangelho ser perfeitamente para analisar as Escrituras, a vida, o cosmos, tudo, por essa ótica de Lei e Evangelho. A Lei é aquilo que devemos fazer e o Evangelho é simples notícia, não uma ação humana, mas simplesmente contar o que Deus fez e faz por nós, convergindo tudo na cruz de Jesus. Como diz a Bíblia: “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”. 1 Co 2:2

A JUSTIÇA DA LEI

A justiça de Deus não é apenas social. Diante dos homens sim, Deus age com justiça social, promovendo o bem e freando o mal, pela Lei. O cumprimento da Lei também é Missio Dei, pois é é a imagem de Deus em Cristo em favor dos homens que evitou a destruição do mundo pelo pecado, mas Deus cuida de todos em nossas necessidades materiais e temporais, Ele se propôs a nos amar e cuidar de nós, fez disso seu propósito, sua “Missão” de estabelecer o cuidado do universo material e dos homens carnais pelos recursos naturais, nos abençoando com benefícios nessa esfera material e temporal como justiça, paz, comida, companheirismo, amizades, etc, todas as essas coisas são dons de um Deus amoroso que não nos destruiu logo no Éden, mas mandou Jesus para dar graça a todos para viverem aqui na Terra com recursos abundantes para sua sobrevivência e salvação pela Lei.

O ser humano foi afetado e condenado pelo pecado original no Éden, e recebeu pela Lei escrita em seus coração o dever de amar a Deus acima de tudo e o próximo como a si mesmo, logo após o pecado, Deus cuidou do ser humano pela Lei e nos deu diretrizes em nossos corações para ter uma vida abundante materialmente e sermos salvos da nossa condenação original ao seguirmos a Lei. Mas permanecemos rebeldes contra Deus, Deus então separou os patriarcas na fé para constituírem um povo que mostrasse ao mundo inteiro a graça de Deus e deu a Lei que já estava escrita nos corações humanos e tábuas de pedra também, grafadas com seu próprio dedo divino. Cuidou diretamente deste povo com leis e orientações, para que este povo fosse testemunho vivo, carta viva de Deus para todo o mundo, mas este povo também se rebelou e rejeitou a Deus.

A Lei, então, foi dada para nos salvar, mas não realiza a salvação, ela não nos dá poder para a cumprirmos, não há em nós o poder e nem a vontade necessários para cumpri-la, nós ainda estamos sob o poder do pecado original e ao não ouvir a Lei em nossas mentes dizendo para fazer o certo e evitar o errado, nos tornamos reféns do pecado atual também. Então o grande papel da Lei, como ensina Paulo em Romanos 3.20, é nos dar o conhecimento do pecado. Em Hebreus 7.19 a Bíblia é bem clara ao dizer que “a Lei não aperfeiçoa coisa alguma”. Então a Lei pode de Deus de amor a Ele e ao próximo são bons parâmetros para a Justiça, mas nós não cumprimos. Não se pode dizer que a Missão do Cristão é cumprir a Lei e servir as pessoas “sinalizando” o Reino pela Lei, porque todos falhamos em cumprir a Lei e por ela ninguém pode ser aceito por Deus, por mais bonzinho e consciente social que seja.. A Lei aponta para Cristo (Gl 3.24), porque ela por si mesma nada pode fazer em nosso favor.

A “Missio Dei” (vamos usar esse termo, vai, tá na moda) de justiça pela Lei no escopo material e terreno Ele realiza por qualquer pessoa, cuidando de todos através de autoridades, dos pais, dos professores, do trabalho voluntário de gente que ouve a consciência que clama por igualdade e fraternidade, pelos responsáveis por políticas públicas no Estado que podem agir em favor dos pobres e dos que precisam.. Tudo de bom moral e material que acontece aos homens é Deus agindo e interferindo na Criação pelo bem de todos que Ele ama e Ele ama a todos (Jo 3.16) e isso se dá pela Lei, mesmo sem fé, não é Evangelho, não é notícia, mas é ação, é atuação, é Deus dando disposição para cuidarmos uns dos outros com amor, como manda a Lei.

Quando as coisas estão ruins, individualmente ou socialmente, aí você pode coloca a conta em nós, seres humanos pecadores, por sermos tão desobedientes à Lei e tão egoístas como seres humanos privilegiados que somos, pois pensamos mal, agimos mal, ou nos omitimos diante das injustiças, quando encontramos pessoas com dificuldades causadas pelos pecados da humanidade que cria sistemas injustos que marginalizam, trazem sofrimento e dor para milhões de outros humanos semelhantes a nós, tudo por causa do pecado, por não cumprirmos a Lei de Amor que Ele colocou em nossos corações, nossa postura diante de um indivíduo ou em nossas sociedades são sempre contaminadas pelo pecado, por isso o mundo é tão injusto e desigual. O cristão é chamado para um outro mundo, já e ainda não. O já é espiritual, estamos conectados com Deus em Cristo e recebemos os benefícios deste outro Reino pela fé, sem a Lei, mas pela Lei podemos agir como embaixadores deste outro Reino, não cumprindo a Lei perfeitamente, porque isso é impossível para nós, mas amando e fazendo o que pudermos (Rm 12.18), no âmbito da justiça humana, mas na justiça divina a Lei nada pode fazer.

Mesmo no âmbito humano Lei não redime ninguém diante de Deus, apenas orienta o bem e o mal para agirmos diante dos homens, e, principalmente, nos serve como espelho para nos enxergar como pecadores necessitados da graça de Deus. A Lei diz: Faça! Faça isso! Pense assim! Deseje aquilo! Não faça aquilo outro! Não deseje tal coisa! Ela é cheia de deveres e exigências boas.. A Missão Integral acaba se orientando pela Lei quando ela propõe “transformar” o mundo através de ações. Aí que não fecho com a Missão Integral. A Lei é boa, realizar boas ações é mandatório, mas não tem poder de redimir ou transformar o mundo. Já o Evangelho, isso é melhor ainda, não porque prega a “transformação” do mundo, mas dá a notícia que Jesus veio, morreu a nossa morte, ressuscitou, nos deu vida e voltará para nos buscar para um mundo melhor. Aí sim haverá transformação, na vinda de Jesus.

A JUSTIÇA DO EVANGELHO

Se olharmos só para as obras (Lei), não há esperança diante de Deus, porque somos todos falhos. Você cumpre a Lei de amor de Deus integralmente? Você é integralmente justo e age integralmente com justiça, equidade e bondade? Pois é, eu também não. Mas há uma justiça melhor ainda, a do Evangelho, acima de comida, bebida, políticas públicas, ideologias sociais, aquela justiça melhor ainda que a social que Jesus realizou ao morrer pelos nossos pecados e que nos traz perdão e paz no Espírito Santo (Rm 14.17) – A Justiça do Evangelho.

Ou seja, existem duas justiças, ou melhor, duas operações da Justiça divina que é uma só: a material (por obras, pela Lei, aonde somos falhos, imperfeitos e condenáveis) e a espiritual (pela fé somente, do Evangelho, aonde somos perdoados, reconciliados e aceitos por Deus par aa nossa salvação)

A Missio Dei do Evangelho, de levar a mensagem do Reino espiritual e da justiça espiritual em Cristo não é uma Missão Geral, mas é encarregada exclusivamente aos cristãos e administrada pela fé, trazendo justiça diante de Deus a quem crê na mensagem de justificação dos pecados de todos os homens pela graça em Cristo, dizendo aos homens que esta justificação é recebida somente por meio da fé, pois assim recebemos o cumprimento da Lei que Cristo realizou pela humanidade caída e separada de Deus, levando a reconciliação com Deus para todos, para quem crer e for batizado receber essa salvação, essa justiça (justificação) e ser santificado por Deus, todos esses benefícios pela fé somente. O Evangelho diz: Você não faz, você não consegue, você não pode, você está errado, mas Deus te ama e Jesus arcou com suas dívidas, você está perdoado e é bem vindo no Reino de Deus, pela fé..

Por isso tem que ter testemunho da fé em Cristo. É imperativo anunciar e comunicar o amor de Deus em Cristo, a obra reconciliadora com o Pai, o cuidado do Espírito Santo com a humanidade que Ele tanto ama, a graça que faz que sejamos aceitos por Deus somente pela fé, sem obras, são elementos que devem ser mencionados explicitamente, ou só se está pregando a Lei, somente ações e obras, não é pregação do Evangelho, que é todo sobre perdão, redenção, graça e fé.

A justiça social é dever humano, em que falhamos muito e merecemos o inferno por causa das injustiças que cometemos. Somos rebeldes contra o nosso Criador e isso se manifesta também ao rejeitarmos em nosso coração suas criaturas, o nosso próximo, mas Jesus recebeu a justiça de Deus, nos justifica somente pela fé, sem obras sociais ou qualquer outra obra, e nos dá sempre novas chances de sermos mais justos e cumprirmos a Lei com o nosso próximo, já que diante de Deus está tudo resolvido na cruz, por isso ele nos perdoa quando falhamos. A justiça social ainda é campo da Lei, não do Evangelho, não é Reino de Deus no sentido de sermos aceitos por Deus em seu Reino espiritual. Não somos aceitos por Ele praticando justiça social, nem fazemos ninguém ser aceito por Deus praticando isso, a justiça de Deus em Cristo vem somente pela fé, sem obra nenhuma.. A justiça de Deus em Cristo não é “justiça social”, mas é puro perdão dos pecados.

LIBERDADE CRISTÃ

Quem me conhece sabe que sou super engajado em causas sociais e sempre que posso me envolvo com algo nesse sentido. Os mais fanáticos por política nessa onda “conservadora” atual vivem me enchendo o saco por causa disso e me mandando para o inferno, me chamando de “desviado”, tirando a minha “carteirinha de cristão” dizendo que não posso ser cristão e atuar socialmente como atuo, gente com a cabeça fechada demais nessas modas políticas atuais que não conseguem se abrir para o diferente, de tão teleguiados pela propaganda que recebem em igrejas, redes sociais, mídia de massa, etc..

Assim eles fecham as possibilidades de entendimento deles, pregam um legalismo muito forte na forma de entender questões sociais, dizendo que o cristão é obrigado a ter uma certa “cosmovisão”, ou com paranóias e teorias de conspiração, tipo as do “marxismo cultural” e bla bla bla, proibindo a liberdade cristã do Livre Exame sobre tudo  (1 Ts 5.21) e retenção do que for bom, com proibições parecidas com as do “index” da Idade Média, aonde a Igreja oficial proibia certos autores e certos livros de serem apreciados e examinados em nome da “pureza”.. Eu deixo falarem.. Não vou entregar a eles a Liberdade que Cristo pagou um preço tão caro para me dar e vou continuar envolvido com o que eu achar mais justo aqui na terra.. Já errei e tenho certeza que ainda vou errar muito, mas vou aprender a servir o meu próximo com a Liberdade, conforme as Escrituras me concedem, sendo limitado pelo Amor, não pelo legalismo. Por isso posso ouvir e examinar a Missão Integral, Teologia da Libertação, Cosmovisão Cristã, Teonomia, Kingdom Now, etc, com essa Liberdade, concordar com coisas e discordar de outras, mesmo que isso me cause problemas no “Tribunal da Santa inquisição das Redes Sociais” ou em qualquer outro lugar.. E te convido a fazer o mesmo com meu texto, examinar com liberdade, consultar a Bíblia se estou certo ou errado e tirar suas conclusões.

Não há na Bíblia uma lista de coisas a se fazer ou não fazer nessa área de sociedade, política, etc, não somos hebreus, não precisamos seguir as leis mosaicas para a área civil, como diz aquela seita hiper-calvinista da Teonomia, mas devemos filtrar tudo pela Lei do amor, como ensina o Novo Testamento (Rm 13). A caridade é dever de todo homem e o cristão não se distingue por ser caridoso. Existem espíritas caridosos, mulçumanos caridosos, hindus caridosos, budistas caridosos.. O cristão se distingue porque ele não é caridoso como devia e é perdoado e salvo por Deus mesmo assim..

NÃO ACREDITO NO CONCEITO DA MISSÃO INTEGRAL

Então é não acredito em Missão Integral. Quando seus proponentes dizem ser nossa Missão fazer o bem, não é o que acredito. É nosso dever, não nossa Missão. Não salvaremos ninguém com obras, mas somente com a pregação do Evangelho da fé..

Uma citação explica como diferencio Lei e Evangelho na vida das pessoas:

“A Lei, inclusive o santíssimo Decálogo — os Dez Mandamentos divinos e perpétuos, não confere vida nem justiça. Pois, por mais que se ensine ou se observe a Lei, por meio dela não se purifica o coração. Pela observância da Lei se vence um pecado público com outro, oculto. A conduta exterior muda (por amor próprio, em busca de prêmio ou em fuga do castigo), mas o coração permanece o mesmo (falta de amor a Deus acima de todas as coisas). Por amor a si mesmo, alguns pecam abertamente contra a Lei e outros a observam exteriormente (confere justiça exterior), abstendo-se de conduta pecaminosa, mas não da inclinação interior ao pecado (concupiscência).

Para o cumprimento da Lei, é preciso que seja revelada, antes, a doutrina da fé, pois somente a fé purifica coração (confere justiça interior). O mandamento (Lei) nos ensina o que fazer, mas, daí, fazer o que o mandamento nos ensina é, para nós, pecadores, totalmente impossível. Somente o Evangelho (doutrina da fé) nos mostra como se torna possível cumprir a Lei: refugiando-nos na graça de Deus, rogando-lhe que inscreva nos corações, com o dedo do Espírito Santo, as letras vivas pelas quais podemos verdadeiramente clamar “Abba, Pai” (um novo coração).

O modo humano de ensinar o cumprimento da Lei é sobrecarregando as consciências com observâncias exteriores (letra, tradições), sem mudar o coração. O modo divino, porém, é criando um novo coração, pela dom da fé em Cristo (espírito, graça). Porque o conhecimento da Lei produz perdição (culpa/medo por causa do pecado ou falsa segurança baseada em obras), mas o conhecimento do Filho de Deus produz salvação (segurança unicamente na graça de Deus).

– Martinho Lutero (Comentário de Gálatas 1.13-16, OML VIII, 54-58, resumido/adaptado no blog lstrelow).

Ou seja, qualquer um pode cumprir a Lei e ajudar o próximo exteriormente, isso é dever de todo homem, mas isso não conta nada diante de Deus como justificação, que é somente pela fé, que vem pelo ouvir da Palavra de Deus, não pelo dinheiro, pelo alimento ou por uma posição política ou social.. O mais importante para a Missão é a parte espiritual, o evangelismo, falar do Evangelho de que ninguém consegue cumprir a Lei perfeitamente e Deus oferece redenção e justificação em Jesus Cristo. Isso é uma Missão realizada pelo próprio Deus. Então pela fé, dada por Deus, se entra num Reino que é espiritual e não é deste mundo.

A MISSÃO INTEGRAL NA PRÁTICA

A TMI acaba frisando mais nas questões sociais do que espirituais, por isso frisa mais na Lei do que no Evangelho. Então não concordo com essa linha de raciocínio escatológica da TMI de “transformar” o mundo. Não acredito que o mundo se tornará um lugar melhor, um “Reino de Deus” material e social. Creio que isso só na Nova Jerusalém, aqui teremos períodos bons e ruins, porque somos todos pecadores.

O que não significa que acho que a Teologia da Missão Integral seja uma heresia, que deva ser combatida pelo fogo, seus adeptos presos, torturados e mortos.. Calma! Não sou teonomista, nem “cosmovisão cristã”, essas coisas eu também rejeito, não acredito nelas.. Aliás, também me sou perseguido por quem faz parte desses movimentos dominionistas.. Meu lance é só que eu tenho minha esperança total no Reino dos Céus, não na Terra (Filipenses 3:20).. Daí pessoal estranha eu rejeitar esses movimentos, até mesmo ficam com raiva de mim.. Mas é o que acredito.. Vou fazer o que?

DOIS REINOS, OU MELHOR, DUAS MÃOS NO REINO DE DEUS

Esse entendimento sobre o Reino de Deus em suas duas mãos, terrena e espiritual, que eu acredito, vejo também em pensamentos semelhantes em muitos cristãos pela história.. No princípio os cristãos eram unânimes que o Reino de Deus não era deste mundo e por isso eram martirizados e morriam por causa disso, mas também criam que Deus é o Rei deste mundo e que nada foge ao seu controle.

REINO ESPIRITUAL

Justino de Roma, no século II, em sua Apologia, mostra como era a crença cristã sobre o Reino no começo:

“Até vós, apenas ouvindo que esperamos um reino, logo supondes, sem nenhuma averiguação,  que se trata de reino humano, quando nós falamos  do reino  de Deus. Isso aparece claro pelo fato de que, ao sermos interrogados por vós,
confessamos ser cristãos, sabendo como sabemos que tal confissão  traz consigo a pena de morte.
De fato, se esperássemos  um reino humano, o negaríamos para evitar a morte e procuraríamos  viver escondidos, a fim de conseguir o que esperamos; mas como não depositamos nossa esperança no presente, não nos importamos que nos matem, além do que, de qualquer modo, haveremos de morrer.”

As pessoas acreditavam que ao entrar na salvação pela fé, automaticamente estavam na congregação dos salvos, na Igreja de Cristo, a mão direita desse Reino de Deus, e a Igreja não é uma “colônia do Reino de Deus na Terra”, isolada e separa do mundo, mas um aspecto, um regimento do Reino divino que só se entra pela fé, não por obras, ação social ou visão política, como essas teologias sociais e políticas dizem hoje em dia, ditando regas de “cosmovisão cristã” ou de “integralização da missão”. Não são obras, regras, “missões” ou “cosmovisões” que nos colocam no Reino espiritual de Cristo, mas somente a fé. Porque o plano de Deus é que sejamos um, como Ele é Um com o Pai e com o Espírito Santo. E que nós sejamos um só corpo também, a Igreja dEle.

Então ao sermos regenerados pelo Espírito Santo em nosso espírito no batismo e recebermos novas vontades e uma nova vida, vivemos em uma dupla cidadania, não mais como pertencentes a este mundo, mas como peregrinos (1 Ped 2.11) e embaixadores (2 Cor 5.20), não como “dominadores” ou “transformadores” para “estabelecer” o Reino de Deus aqui no Mundo, mas somos apenas representantes de um Novo Reino de Outro Lugar, convidando as pessoas a receber o Rei pela fé e proclamando a salvação deste mundo mal e seu destino final e a entrada neste novo Reino. Os cristão antigos diziam que o Reino de Deus não era deste mundo, mas também que Deus era dono deste mundo. O Reino de Deus era total, mas também era espiritual, eles separavam o Reino, por isso podemos separar nessas duas mãos, a material e a espiritual, quando lemos sobre o Reino na Bíblia Sagrada, como faziam os cristão antigos.

Assim que os cristãos começaram a ter poder político, muitos começaram a pensar que deveríamos trazer os valores e a mentalidade deste reino espiritual que entramos pela fé para este mundo também, aplicando o Reino aqui na Terra em forma de programas sociais ou leis civis que “trouxessem” ou “implantassem” esse Reino ainda na Terra. Então muitos começaram a esperar um “Reino de Deus na Terra”.

Essa idéia de “Reino de Deus na Terra”, no sentido de conseguirmos criar uma “Colônia da Nova Jerusalém” por aqui, redimindo a humanidade através da Ação Social, nunca entrou na minha cabeça. Acima coloquei minhas crenças e razões para não crer assim, mas tem uma citação que talvez esclareça mais ainda o que penso a respeito do Reino.

“Sobre a distinção entre o reino de Cristo e de um reino político já foi bastante explicado [para o consolo extraordinariamente grande de muitas consciências] na literatura de nossos escritores, [ou seja], que o reino de Cristo é espiritual [na medida em que governa Cristo, pela Palavra e pela pregação], a saber, a partir do coração do conhecimento de Deus, o temor de Deus e da fé, a justiça eterna, e a vida eterna, enquanto isso permite-nos exteriormente usar legítimas ordenanças políticos de todas as nações que vivemos, assim como nos permite usar a medicina ou a arte de construir, ou comida, bebida, ar. O Evangelho não veio trazer novas leis sobre o estado civil, mas ordena que obedeçamos as leis atuais, se eles foram enquadrados por pagãos ou por outros, e que nesta obediência devemos exercitar o amor.. (Fórmula de Concórdia das Igrejas Luteranas – Artigo XVI: Da Ordem Política)

Vou exemplificar melhor esta ideia do Reino de Deus estar distinguido em duas mãos:

Em sua mão esquerda, Deus comanda tudo pela Lei e pela razão. Ele determinou leis naturais para a organização e andamento do universo, todos os movimentos da Criação na natureza, nas estrelas, nas constelações seguem leis naturais. Na Terra, também temos leis na natureza e ao homem também foi dada a Lei Natural para se movimentar moralmente, que Deus expressa na Bíblia nos 10 mandamentos e Jesus as resume no amor a Deus e ao próximo. Por isso as questões sociais e políticas devem ser debatidas no campo da razão e soluções devem ser encontradas seguindo um fluxo natural e racional que determine o bem comum a todos. Não há redenção nesse regimento da mão esquerda. Todos somos pecadores e, por mais que a gente dê o nosso melhor, sempre seremos imperfeitos, sempre alguém vai se ferir e sempre seremos egoístas e cairemos no discurso da antiga serpente de que somos “superiores” (iguais a Deus), porque nossa natureza foi alterada pelo pecado. Neste regimento da mão esquerda, podemos colocar todas as passagens bíblicas que falam do Reino e do Domínio de Deus sobre a natureza é sobre os homens, creio que Ele usa seres humanos para o bem ou freia a maldade humana com suas leis naturais e a razão humana.

A redenção da humanidade e seu relacionamento com Deus estão na mão direita do Reino de Deus. Neste regimento, Deus controla a vida espiritual e a Igreja. Quando falo de Igreja, me refiro à Igreja Invisível, ou seja, dos santos em Cristo, dos justificados, santificados e salvos em Jesus pela fé. Não se pode julgar a fé, então não posso dizer que fulano ou beltrano está nesse Reino ou não, se é cristão ou não, mesmo que tenha más obras e maus exemplos. Deus quem salva, perdoa e justifica.

REINO MATERIAL

Existem denominações cristãs, como a Igreja Católica, Luterana, Presbiteriana, Igreja Pentecostal, etc. Essas fazem parte do regimento mão esquerda, porque são instituições humanas, organizadas e administradas pela razão. Eu posso dizer que fulano não é luterano, se ele não segue as regras que a minha igreja estabelece, posso dizer que alguém não é cristão, se ele nega as doutrinas fundamentais da fé cristã que estão expressas claramente na Palavra de Deus e nos credos ecumênicos da cristandade, como por exemplo se ele nega a Trindade, aí cabe alertar os desavisados que ele não está agindo e ensinando como um cristão. Com isso, eu posso agir dentro da minha denominação ou como cristão para proteger os menos instruídos de falsos cristãos, ou “dar uma dura” em algum cristão que esteja agindo ou ensinando de maneira errada, fazer aquele debate teológico ou dar aquela bronca. É assim que uma igreja faz sua disciplina, colocando sanções ou mesmo excluindo pessoas de algumas atividades por causa de mau comportamento. Isso segundo o regimento da mão esquerda, mesmo usando as Escrituras com sua Santa Lei.

É preciso tomar muito cuidado para não fazer isso por questões secundárias, como muitos cristãos estão fazendo hoje nas redes sociais com política, excomungando irmãos por suas preferências políticas, econômicas e sociais. Isso é agir irresponsavelmente misturando as duas mãos do reino de Deus e dando uma de intermediário entre Deus e os homens. O cristianismo não precisa de nenhum “Papa” atravessando a intermediação que Jesus faz entre Deus e os homens, não podemos agir dessa forma como muitos fazem hoje em dia.

É NECESSÁRIO FAZER A DIVISÃO CORRETAMENTE

Eu não posso organizar, administrar e decidir quem entra e quem sai do Reino Espiritual da mão direita de Deus. Isso só pertence a Deus. Se eu vejo alguém agindo mal, dando mau testemunho, eu posso agir segundo o regimento da mão esquerda, mas também devo agir segundo o regimento da mão direita, que é regido pela Escrituras na sua parte que diz respeito ao Evangelho, preciso ter em mente a Lei para identificar que esse alguém está incrédulo e afastado da fé e que precisa receber a Palavra de Deus para perdão dos pecados da parte de Deus, mas é Deus quem julga e quem salva, não eu.

Neste caso, neste regimento da mão direita, eu só posso pregar a Palavra de Deus, Ele que organiza, administra e decide quem entra pela fé neste Reino. A porta de entrada neste Reino é a fé, e Deus estabeleceu seus meios de dar a fé – Palavra e Sacramentos, e isso é algo que pertence a Deus, não a nós. Todos são convidados e bem vindos a esse Reino, não cabe a nós decidir quem está ou não nele. Eu só posso oferecer, ensinar e aprender da Palavra de Deus também. Nesse Reino há redenção e perdão e seus preceitos de Evangelho são loucura para a racionalidade humana caída no pecado.

É assim que divido o Reino nessas duas mãos. A Missão Integral não faz essa divisão, mistura Lei e Evangelho, propõe a redenção como algo terreno, social, diminuindo ou excluindo mesmo o perdão dos pecados em Jesus pela fé, por dar uma ênfase muito grande na Ação Social. Ela se utiliza da razão para administrar o Evangelho, que é loucura para os humanos caídos, e das Escrituras para administrar as esferas naturais do ser humano, como se houvesse redenção possível através de mentalidade, filosofia, razão e obras, o que não existe. É curioso que todos os movimentos que ei conheço que misturam Ação Social e Evangelismo fazem a mesma coisa. Missão Integral, Teologia da Libertação, Teonomia, Cosmovisão Cristã, esses todos fazem a mesma coisa, procuram redimir a humanidade pela Ação, pela razão, o Evangelho da graça e da fé toma papel secundário, ou mesmo é excluído desse processo.

RESSALVA

Claro que não são todos excluem o Evangelho e a fé. A obra é de Deus, não deles, nem minha, mas a maneira que explicam essa obra acaba sendo enquadrada numa “Teologia”, como eu fiz agora ao enquadrar a minha na “Teologia dos Dois Reinos”. Daí eu to colocando aqui a minha posição sobre a TMI e o porque não me envolvo com isso.

CONCLUSÃO

Então não acredito na Teologia da Missão Integral, mas não considero como “desviados” quem pensa assim. É apenas uma forma de pensar o Reino e de atuar aqui na Terra em nome deste Reino de Deus e esta forma eu não vejo nas Escrituras. Mas a Lei manda amar o próximo. Acredite que isso é Missão, Evangelho, ou é Obrigação, Lei, o importante é seguir nessa direção, mas sem esquecer que devemos amar a Deus acima de todas as coisas, como infelizmente alguns esquecem e colocam a humanidade em primeiro lugar.. Mas não deixando de lado a fé cristã bíblica, da Lei de amor a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo, e da redenção e justificação somente pela graça por meio da fé como diz o Evangelho, estamos juntos na mesma caminhada..

E antes que digam que não conheço direito a Missão Integral, que não li o pacto de Lausanne, que não sei do que tô falando (sempre dizem isso.. Haha), já informo que estou envolvido em forte amizade, carinho e amor mútuo com líderes e adeptos de Missão Integral desde 2006 e participo com eles de eventos com essa tônica desde esta época também. Conheço a Missão Integral com riqueza de detalhes.. Só não concordo com ela.. Amo e respeito quem pensa assim, pq considero uma questão secundária e não uma heresia, mas não sou adepto disso, pelas razões que coloquei no texto..

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