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Eu não tenho problema com regras. Tudo e todos têm suas regras. Eu tenho regras. A Igreja onde sou membro tem regras. Minha casa tem regras. A sociedade tem regras. A Bíblia tem regras. Você tem regras. O problema não são as regras.

Se eu e você quisermos ter um relacionamento (de amizade, profissional, religioso, etc, menos amoroso, claro, pq sou espada e noivo de uma mulher linda, maravilhosa e muito brava.. Haha), vamos naturalmente estabelecer regras. Certas palavras não poderão ser ditas, outras terão que ser ditas, certas atitudes serão cobradas, outras evitadas, são regras que estabeleceremos naturalmente.

O grande problema é você, ou eu, forçar regras um para o outro sem mútuo consentimento.

Se tivermos um objetivo comum, entraremos em acordo, teremos que entrar para andarmos juntos, mas se nossos objetivos, pensamentos e caminhos forem diferentes, ninguém pode forçar para ninguém suas regras pessoais.

Por exemplo, eu curto heavy metal. Já pensou se eu querer te obrigar a gostar das mesmas coisas que eu? A se vestir como eu? A raspar a cabeça como eu? Eu sou centro esquerda. Já pensou eu te obrigar a votar como eu? Pensar em política como eu? Dizer que seu pensamento político é incompatível com o cristianismo, mesmo que você se esforce ao máximo para adaptar sua visão política à fé e dizer que você não é um cristão verdadeiro pq vc não pensa em política como eu gosto?

É isso que o legalismo faz. Ele faz com que seus gostos pessoais se tornem regras, padrões e te faz querer que os outros sigam suas regras pessoais.

No campo da fé, de o conjunto de crenças que abraço para ter como resposta às questões sobre coisas a respeito de Deus, do Universo, da sociedade e questões pessoais é o cristianismo, e como cristão, minha regra é a Lei de Deus. Esta Lei é chamada por Tiago, irmão de Jesus, de “Lei da Liberdade” (Tiago 2:12) e eu seguir ou não esta lei é uma questão individual de fé. O Cristão não segue a Lei de Deus por coação, pelo menos não deveria seguir, mas por Liberdade. Davi explica:

E andarei em liberdade; pois busco os teus preceitos.
Salmos 119:45

Lutero desabafa assim sobre o legalismo:

Eu não posso aguentar o fardo de leis baseadas em interpretações da Palavra de Deus, já que a Palavra de Deus, que ensina a Liberdade acima de todas as coisas, diz para que eu não me deixe dominar..
(Martinho Lutero)

Lutero sabia muito bem qual era a Lei de Deus para os cristãos. Johann Shlaginhaufen, aluno de Lutero, explica:
Quando Martinho Lutero se referia à Lei [de Deus], ele se referia aos 10 Mandamentos.

O Catecismo de Lutero, que a gente usa na Igreja Luterana para ensinar a fé cristã às crianças e aos neófitos, explica que a Lei de Deus se concentra nos dez mandamentos e se resume em amar a Deus e ao próximo. Lutero faz a seguinte conclusão:

“Crês que és pecador? Creio, sou pecador. Como sabes isso? Eu o sei pelos Dez Mandamentos, que não guardei.”
(Catecismo Menor de Lutero)

De onde Lutero tirou isso que a Lei Moral para o cristão não é um monte de regras sobre música, roupas, cultura, política, etc, como muitos evangélicos definem seu código doutrinário pessoal ou denominacional cheio de regras sobre usos e costumes nestas coisas? Ora,  da Bíblia! Vamos ver:

A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei.
Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor.
(somente os 10 mandamentos aqui de novo)
Romanos 13:8-10

Essas leis me orientam como agir em todas as áreas da vida.  Por exemplo, eu não posso matar em nome da ideologia, não posso ter uma vida sexual fora do padrão monogâmico do sexto mandamento, mesmo que num show ou balada este seja o padrão, o meu é diferente, não posso desejar o mal das autoridades que Deus constituiu sobre mim, por mais que eu discorde ou não goste da maneira delas exercerem sua autoridade, são inúmeras as aplicações da Lei Moral de Deus. E tenho a consciência, como cristão, que não estas leis não são para me tornar um “verdadeiro cristão”, mas sou um verdadeiro cristão pelo verdadeiro ato de Jesus na cruz que perdoa meus pecados e hoje sou cristão por meio da fé somente, sem obras. Como cristão, essas leis são naturais para mim, porém continuo transgredindo por causa da minha natureza carnal e caída ainda presente, mas eu não sou punido ou justificado por seguir leis e regras, mas somente pela fé, elas são apenas orientação cristã para a vida. E são só elas, nãos as invenções que fazem e chamam de “padrões”, “compatível com o cristianismo”,  “cosmovisão cristã”, “Lei de Deus” e etc..

Aí muitos me cobram ou exigem, dentro de suas interpretações particulares sobre o que é cristianismo, muitas vezes até com a melhor das intenções, mas baseados em leituras da Bíblia equivocadas e sem critérios, ou com critérios particulares, ou as vezes deturpando a Palavra de Deus com heresias, querendo me obrigar a acreditar em certa coisa, vestir de certo modo, falar de certa maneira, votar ou odiar certo partido e diversas outras exigências e imposições que para eles servem como “atalhos” obrigatórios no Caminho da Fé Cristã, usando o termo “Lei de Deus” ou “Evangelho” para obrigar os outros a agir e pensar conforme a vontade deles. Paulo trabalha esse dilema. Ele diz:

Por que minha liberdade deve ser julgada pela consciência dos outros?
1 Coríntios 10:29

Em outro lugar, Paulo é enfático:
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão.
Gálatas 5:1

Sendo assim, só me submeto a uma regra de fé e prática pessoal, que é a Bíblia, porque acredito que nas Escrituras que encontro Vida Eterna, como ensinou Jesus, e acredito na Bíblia como perfeita revelação de Deus, não por imposição de terceiros. Eu passei a crer assim de dentro para fora, ou seja, Deus me amou sendo ainda morto em meus pecados e me vivificou para crer, não foi uma obra minha, nem de terceiros, mas o próprio Deus agiu dentro de mim me convencendo do pecado e do juízo para assim me dar a salvação, porque Ele já havia me amado e adotado como filho dele desde o ventre da minha mãe, sendo eu ainda um pecador.

Um cristão, então, não pode forçar o outro a acreditar em algo. Não pode brigar e odiar o próximo porque ele não pensa igual. Muito menos se tornar inimigo do próximo que discorda dele em nome da fé cristã. A Lei nos diz o que fazer, mas podemos errar ao interpretar as Leis de Deus, ou as nossas; podemos aplicar essas regras de maneira errada, ou podemos fazer a coisa certa, porém nosso próximo pode não concordar conosco e Deus é o único que pode transformar o pensamento de uma pessoa, nós não podemos forçar isso a ninguém.

Temos que lembrar também que acima da Lei está o Evangelho. É muito importante para quem estuda teologia saber diferenciar bem Lei e Evangelho, ou seja, o que é Lei por toda a Bíblia e o que é Evangelho por toda a Bíblia também. Vou explicar:

Podemos usar as leis de Deus, as leis civis locais e também regras de convivência entre amigos, família e Igreja para pedir limites e fazer com que as pessoas respeitem estes limites necessários para a convivência humana. Por exemplo um pastor corrupto, um político desonesto, um familiar grosseiro e intrometido, um amigo com uma vida imoral e egoísta, casos que trazem muitos problemas a nós e a quem amamos e que podemos intervir com as regras que conhecemos para o nosso bem pessoal, o do nosso próximo e para nós posicionar com nossa fé cristã bíblica e histórica. Mas não podemos com essas regras fazer alguém acreditar ou concordar com a mesma coisa que a gente. Podemos fazer respeitar, acatar, aceitar o que é regra, mas acreditar e concordar não. A pessoa pode sentir um remorso, ter um momento de consciência e depois voltar a praticar aquilo que ofende a Deus, ao nosso próximo e a nós, porque a mente dela, o espírito dela, não pode ser tocado por regras, como a Bíblia diz:

“Por isso as pessoas que têm a mente controlada pela natureza humana se tornam inimigas de Deus, pois não obedecem à lei de Deus e, de fato, não podem obedecer a ela.”
Romanos 8.7

A natureza humana é inimiga de Deus. Para nossa carne, Deus é um “estraga-prazeres”, um “chato”, alguém que só quer “acabar com a festa” do pecado e dos “prazeres”. Depois de cristãos, temos nosso espírito regenerado e compreendemos pela Lei que somos pecadores, mas ainda temos a natureza humana carnal em nós e vivemos em constante luta interna entre nossa carne inimiga de Deus e nosso espírito regenerado e apaixonado por Deus (Gálatas 5.16-21). Não somos salvos por fazer o que a Lei manda, porque não fazemos e nosso próximo também não, independente de ser salvo ou não, mas por que Jesus nos amou e pela graça, por meio somente da fé, nos salva, nos regenera e voltará para julgar a todos no Juízo Final e nos inocentar (justificar) de todo nosso pecado. E essa obra é única de Jesus, feita primeiro internamente, se refletindo em nossos pensamentos em obras; essa obra dEle é chamada de “Santificação” (separação) do pecado, nos fazendo mudar nossas abordagens, pontos de vista e atitudes com o tempo, nos aperfeiçoando com o tempo e completando essa obra somente no Céu, aqui na Terra ainda nos permite ser tentados pela nossa própria natureza carnal e cair muitas vezes em pecado por causa da nossa própria natureza, por nossa própria vontade e responsabilidade, para que ninguém se glorie, mas toda glória pela salvação seja dEle. A salvação e a santificação do cristão não vêm através da Lei de Deus, ou de regras humanas inventadas e impostas com discursos genéricos que são deturpações de termo bíblicos como “aparência do mal” ou “escandalizar”, ou “Lei de Deus”, ou “Evangelho” e etc. A salvação e tudo de bom que Deus nos dá é dom de Deus e isso não é parte da Lei, mas do Evangelho que Jesus pregou, é uma boa notícia, não tem nada a ver com regras, porque não seguimos as regras como devemos. Mas Deus nos ama e nos abençoa por sua graça apenas, nos ajudando a seguir seus mandamentos, mesmo sendo filhos para o bem geral da Igreja e do resto da humanidade porque Ele ama a todos, mas a seus efeitos deu seus dons de salvação e santificação. Isso pelo Evangelho, não pela Lei.

Por isso não podemos forçar ninguém a acreditar em nada, porque não nos compete fazer isso, isso é trabalho de Deus, mesmo que seja necessário muitas vezes estabelecer regras, ou seguir regras já estabelecidas, ou ainda fazer valer essas regras para o bem de todos, mesmo que nós ou a pessoa que seja limitada num dado momento pelas regras não concorde com elas. Mas fazer concordar e aceitar as regras não é possível para nós. Vamos respeitar a opinião alheia e parar de nos sentir melhores que nosso próximo porque eles têm um ponto de vista diferente do nosso.

Assim vamos seguindo, aos trancos e barrancos, como pecadores regenerados que busca melhorar, Aquele que “veio pregar liberdade aos cativos, E restauração da vista aos cegos, A pôr em liberdade os oprimidos” (Lucas 4:19)

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