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Deus odeia o pecado. Deus direciona sua ira ao pecador também. Deus se ira, ou odeia, quando cometemos o mal.  Mas o ódio, ou ira dele, é condicional e pode ser temporário.  Ele garante:

Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.
Salmo 30.5

E a Ira de Deus, ou ódio dele, é sempre justa e como consequência de pecado, não é incondicional, como ensinam alguns. E nós, humanos, não podemos ter esse sentimento, Deus é bem claro:

Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as conseqüências de um pecado.
– Lev 19:17

Eu fui investigar a palavra hebraica para ódio שׂנא (sane – ódio), eu não sou fluente em hebraico, conheço bem o básico dos meus tempos de frequentar sinagoga, das rezas que eu tive que aprender, então pesquisei e perguntei para quem é e descobri que a palavra para ódio é ódio mesmo, então é correto dizer que Deus sente ódio pelo pecador tb, como diz Salmo 5:

Tu não és um Deus que tenha prazer na injustiça; contigo o mal não pode habitar.

Os arrogantes não são aceitos na tua presença; odeias todos os que praticam o mal.
(cf vers 4 e 5)

A palavra ódio, no entanto, indica uma ira, um repúdio contra o pecado, direcionada ao pecador, mas este sentimento é justo e os “eleitos” não estão livres dele não. Quando erramos, suscitamos a ira e ódio de Deus, mas Ele nos perdoa pela fé em Jesus Cristo. Afinal, quem é justo, quem não pratica o mal? (Rm 3.23) Todos merecem o ódio de Deus e são inimigos de Deus por natureza, e a Bíblia chama também os eleitos de inimigos de Deus e filhos da ira por natureza. Sendo assim, não existem “castas” no cristianismo, a dos “eleitos” e dos “odiados”, isso é invenção humana, não é bíblico.

Os sentimentos de Deus são incompreensíveis aos seres humanos, mas Deus usa linguagem humana para entendermos o quanto Ele se desagrada quando cometemos o mal e o que sente por nós quando o desagradamos. As palavras “ira” e “ódio” são usadas por Ele para mostrar como Ele é santo e não aceita quando pensamos, dizemos e cometemos o Mal, ou seja, quando pecamos. Então pode parecer para nós, em nossa limitada carnalidade, que Deus “muda de idéia”, ou é um “tirano” em suas atitudes para nós. Mas não é o caso.

João Calvino, um advogado do século 16 que reformou a Igreja Cristã em Genebra e muitas de suas idéias influenciaram toda a Cristandade, tinha uma crença numa “dupla predestinação”, doutrina que eu não creio, creio numa predestinação única, somente para a salvação, o condenado tem total responsabilidade por sua condenação. Os que dizem que Deus não ama a todos, que Ele amaria só os eleitos, usam essa doutrina da dupla predestinação como base para afirmar que o sentimento de Deus pela humanidade é de amor por uns e ódio por outros, mas levam essa crença a níveis extremos ao ponto de, em nome dessa crença, acrescentar que Deus também ama só os eleitos, que Deus criou pessoas para a separação eterna dele e odeia essas pessoas sem que elas tenham feito nada, odeia incondicionalmente os que foram predestinados ao inferno, segundo eles, o que não tem precedentes na história da Igreja; Calvino, diferente deles, não usava seu pensamento de “dupla predestinação” para dizer que o amor de Deus era só por alguns. Sobre isso, ele declara:

“Não há nada mais indigno do que Deus ser acusado de tirania pelos homens, sendo que ele os defende como sendo a sua própria obra de suas mãos. Quando, portanto, Deus declara que todas as almas são dele, ele não se limita a reivindicar a soberania e poder, mas sim mostra que ele é afetuoso com amor paternal em relação a toda a raça humana, uma vez que ele criou e formou a todos; porque, se um trabalhador ama seu trabalho, porque ele reconhece nele os frutos de seu empenho, então quando Deus manifestou seu poder e bondade na formação de homens, ele certamente deve abraçá-los com carinho.

É verdade, de fato, que somos abomináveis aos olhos de Deus, por sermos corrompidos pelo pecado original, como é dito em outros lugares, (Salmo 14: 1, 2;), mas na medida em que somos homens, temos de ser queridos por Deus e nossa salvação deve ser preciosa aos seus olhos. Vemos agora que tipo de refutação isto é: todas as almas são minhas, diz ele: Eu formei tudo, e sou o criador de tudo, e por isso eu sou afetuoso com amor paternal para com todos, e eles devem sim sentir a minha clemência, a partir de o menor até o maior, do que a experimentar muito rigor e severidade. Finalmente, ele acrescenta, a alma que pecar, essa morrerá. Agora, Ezequiel expressa como Deus restringe os judeus de se atrever considerar por mais tempo que eles estão sofrendo imerecidamente, uma vez que nenhuma pessoa inocente morrerá; pois este é o significado da frase; ele não quer dizer que cada pessoa culpada deve morrer, pois isso iria fechar contra nós a porta da misericórdia de Deus, porque todos nós pecamos contra ele: Então isso significaria que não há nenhuma esperança de salvação, uma vez que todo homem deve perecer, a menos que Deus liberte os pecadores da morte. Mas o senso do Profeta não é duvidoso, como já dissemos, uma vez que aqueles que perecem não são sem culpa; nem eles podem trazer a sua inocência a Deus, nem acusá-lo de crueldade e de puni-los pelos pecados dos outros.”
– João Calvino,  comentário de Ezequiel 18

O profeta Ezequiel, a quem Calvino comenta acima, nos traz a palavra de Deus sobre o amor de Deus por todos os homens:

Diga-lhes: ‘Juro pela minha vida, palavra do Soberano Senhor, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam. Voltem! Voltem-se dos seus maus caminhos! Por que iriam morrer, ó nação de Israel?
(Ezequiel 33:11)

Deus aqui mostra que tem amor por todos os homens e deseja a salvação de Todos, mas o triste fato é que todos os homens rejeitam esta salvação e preferem seus próprios caminhos, como diz o apóstolo São Paulo nos 3 primeiros capítulos de Romanos. Então Deus, pela graça, elege a muitos para a salvação, mas isso não significa que Ele não ame a todos. São Paulo, ainda na carta aos Romanos, no capítulo 9, também fala dos “vasos da Ira”, se referindo aos réprobos que irão para o inferno por rejeitarem a salvação de Jesus, mas buscaram a própria justiça por obras (Rom 9:31,32). Os vasos de ira são os incrédulos que são assim por suas próprias obras. Paulo mesmo explica todos somos filhos da Ira (Ef 2:3), não há nenhuma diferença entre o cristão e o perdido nisso. Mas Deus imputa a graça nos salvos. Mas a Ira e a graça de de Deus passam por todos os homens, acontece que uns são perdoados e outros não. Ou seja, “aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece. (João 3:36). Ainda citando Calvino, ele de novo defende o amor de Deus pela humanidade e coloca o motivo da condenação no mistério de Deus, segundo a dupla predestinação que ele acreditava, não num suposto “ódio incondicional” de Deus:

Se Deus deseja que ninguém se perca, por que é então que tantos se perdem? A isto minha resposta é que nenhuma menção é aqui feita do propósito oculto de Deus, de acordo com o qual o réprobo está morto em sua própria ruína, mas somente de sua vontade como é feito conhecido a nós no evangelho. Pois Deus ali estende sua mão sem diferenciação a todos, mas toma somente aqueles, para trazê-los a si mesmo, os quais ele escolheu antes da fundação do mundo. (João Calvino. Comentário de 2 Pedro 3.9)

Não há concordância bíblica e histórica que Deus ame só os eleitos.  Nem há mandamento que nosso amor seja “seletivo”, elegendo nós a quem devemos amar ou não. Por isso, devemos amar nosso próximo como a nós mesmos, espalhar a Palavra do perdão que recebemos, falar desta mensagem a todos os homens, não devemos ser arrogantes e presunçosos sobre quem é eleito ou não, pois é uma especulação infrutífera e cheia de soberba e arrogância. Quem elege e reprova é Deus, não nós, baseado na misericórdia dele, não em obras, não existe “sinergia” na salvação, não podemos fazer este tipo de julgamento das pessoas. Devemos levar a mensagem de Cristo para todos os homens e assim mostrar que estão todos destinados a Ira pelos seus próprios pecados, como consequência da lei que todos desobedecemos, pois todos somos amados e cuidados por Deus que nos dá o Sol, a chuva, a natureza e tudo que precisamos; contudo, não retribuído este amor, não agimos corretamente com Deus e com nosso próximo, somos ingratos e rebeldes com este Amor, mas na mensagem do Evangelho Jesus oferece perdão e salvação para aquele que crê.

Justino, Mártir cristão do século 2, já dizia que devemos buscar amar a todos sem discriminação ou preferências, conforme Deus ama e Jesus nos ensinou. Ele diz:

Cristo não veio chamar os justos e os temperantes para a penitência, mas os ímpios, intemperantes e injustos. De fato, ele disse: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores para a penitência”.

O Pai celestial prefere a penitência do pecador ao seu castigo.

Sobre amar a todos, ensinou o seguinte: “Se amais os que vos amam, que novidade fazeis? Os fornicadores também não fazem isso? Eu, porém, vos digo: Orai por vossos inimigos, amai os que vos odeiam e orai pelos que vos caluniam”
– São Justino Mártir, século 2.dc

E é isso que a Bíblia ensina, que o amor de Deus é por todos e por isso devemos amar a todos também sem acepção e discriminação de pessoas também.

Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.
Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.
Romanos 5:18,19

Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam
Atos 17:30

Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.
O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo.
1 Timóteo 2:3-6

Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.
Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.
Marcos 16:15,16

Termino com a reflexão de Lutero sobre o assunto:

Cristo não é um cruel cobrador de acoes, mas um perdoador de pecados do mundo inteiro.. Ele deu a Si mesmo por nossos pecados e com uma oferta jogou fora os pecados do mundo inteiro.. Cristo levou embora os pecados, não apenas de alguns homens, mas também os teus, os do mundo inteiro.. Não apenas os meus e os seus pecados, mas também os pecados do mundo todo foram colocados sobre Cristo.
Martinho Lutero. (Comentário de Gálatas)

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