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Deus quer mesmo o bem de uns e o mal de outros?

Tais tentativas de, através de nossa própria razão e força, perscrutar coisas que Deus não revelou nas Escrituras são pecado. Lutero diz o mesmo em suas palestras sobre o Gênesis: “Isto é como eu ensinei em meu livro “Da Vontade Cativa” [1] e em outros lugares, ou seja, que deve ser feita uma distinção quando se lida com o conhecimento, ou melhor, com o assunto da divindade. Porque alguém pode querer debater sobre o Deus oculto ou sobre o Deus revelado [isto é, Deus como o conhecemos através de Cristo, um Deus de misericórdia]. No que diz respeito a Deus, na medida em que Ele não foi revelado, não há fé, nem conhecimento, e nenhum entendimento. E aqui é preciso se atentar que fazer afirmações do que está acima de nós não é da nossa preocupação. Porque pensamentos deste tipo, que investigam algo mais sublime acima ou fora da revelação de Deus, são totalmente infernais. Nada mais é conseguido com esses pensamentos do que nos mergulhar em destruição “.

Doutrinas, tais como dupla predestinação, construída sobre a razão, mas não na Escritura, não fazem nada exceto aumento dúvida entre cristãos fiéis. Elas nos levam longe de contemplação da misericórdia de Cristo na cruz (onde Deus tem demonstrado visivelmente e poderosamente que Ele deseja que todos os pecadores sejam salvos) para a contemplação das coisas não reveladas nas Escrituras. “Essas são ilusões do diabo”, diz Lutero em suas palestras sobre Genesis “com as quais ele tenta levar-nos a duvidar e desacreditar, embora Cristo veio a este mundo para nos tornar completamente seguros. Para tanto desespero, eventualmente, deve seguir ou o desprezo de Deus, pela Bíblia Sagrada, pelo Batismo, e por todas as bênçãos de Deus através das quais Ele nos quis nos fortalecer contra a incerteza e a dúvida..”

Luteranos olham para Deus como revelado em Cristo; eles não especulam sobre aspectos não revelados da vontade de Deus. Consequentemente, os luteranos afirmam só o que eles vêem afirmado nas Escrituras. A Escritura nos diz que Cristo morreu pelo mundo inteiro (João 3: 16-17). Então eu acredito nisso. A Escritura também nos diz que Deus deseja que todos os homens sejam salvos (2 Pedro 3: 9). Então eu acredito nisso. Diz-nos também que Deus predestinou aqueles que serão salvos (Efésios 1: 3-6). Acreditamos nisto também. E, no entanto, a Escritura nos diz que nem todas as pessoas serão salvas (Mateus 25:41). Nisto também acreditamos. Estamos dispostos a aceitar o aparente paradoxo, que um Deus todo-poderoso que predestina os crentes sejam salvos e que sinceramente deseja a salvação de todos, no entanto, vai ver alguns não sendo salvos.

As Escrituras não ensinam que Deus predestinou para serem condenados aqueles que serão condenados. De fato, como a Fórmula de Concord adverte, “isso seria atribuir a Deus vontades contraditórias” (SD 11:35). Deus nos diz em Sua Palavra que Ele quer a salvação de todos; Ele não pode, simultaneamente, querer que alguns não sejam salvos. É claro, então, que, na medida em que luteranos ensinam a predestinação, nós não ensinamos isso da maneira que o mundo entende a palavra.

– Matthew Block, pastor luterano.

“Se eu estou predestinado, serei salvo, tanto faz se eu fizer o bem ou o mal. Se eu não estou predestinado, vou ser condenado, independentemente das minhas obras. “. . . Se as afirmações são verdadeiras, como os que defendem isso acreditam, a encarnação do Filho de Deus, o Seu sofrimento e ressurreição, e tudo o que Ele fez para a salvação do mundo são eliminados completamente. Para que serviu os profetas e toda a ajuda Sagrada Escritura? Para que servem, então, os sacramentos?

Estas são ilusões do diabo, com as quais ele tenta levar-nos a duvidar e desacreditar, embora Cristo veio a este mundo para nos tornar completamente firmes. Eventualmente o desespero  toma conta e acontece o desprezo para com Deus, a Bíblia Sagrada, o Batismo, e por todas as bênçãos de Deus através das quais Ele nos quis nos firmar contra a incerteza e dúvida. . . .

Cristo não é um cruel cobrador de ações, mas um perdoador de pecados do mundo inteiro.. Ele deu a Si mesmo por nossos pecados e com uma oferta jogou fora os pecados do mundo inteiro.. Cristo levou embora os pecados, não apenas de alguns homens, mas também os teus, os do mundo inteiro.. Não apenas os meus e os seus pecados, mas também os pecados do mundo todo foram colocados sobre Cristo…

Também é corretamente dito que, se Deus não quer a morte, deve ser colocada em nós mesmos e em nossa vontade a culpa de parecermos. “Corretamente”, eu digo, se você fala do Deus proclamado. Porque Ele deseja que todo homem seja salvo, vindo, como Ele faz, com sua Palavra de salvação para todos os homens; e por culpa da vontade o homem não o admite, como Ele diz em Mateus 23.37: Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!

  • Martinho Lutero (citações extraídas dos comentários bíblicos de Gênesis, Gálatas e do livreto “Da Vontade Cativa”)

    PS.  Talvez você esteja pesquisando a dicotomia calvinismo-arminianismo e chegou aqui interessado na posição Luterana a respeito. Como você viu no texto acima, não cremos nem como os calvinistas nesse ponto da predestinação,nem como os arminianos. O luteranismo é anterior ao calvinismo e ao arminianismo. 

    Na Holanda, no século seguinte à Reforma Protestante, grupos calvinistas discutiram sobre como acontecia a predestinação. Tiago Armínio, que era calvinista membro da Igreja Reformada Holandesa e que foi aluno de Teodoro Beza, sucessor de Calvino em Genebra, pregou que a predestinação se dava por presciência, ou seja, Deus conheceu quem iria crer ou rejeitar a salvação e elegeu para a salvação e condenação conforme este pré conhecimento. 

    Os teólogos da Igreja oficial holandesa, que era adepta do calvinismo e tinha confissões calvinistas do século anterior como expressoes de fé, rejeitaram essa ideia. Com isso, desenvolveram toda uma teologia complementar ao ensino de Calvino da Dupla Predestinação, os cânones de Dort[2] que dizia que Deus predestinou as pessoas eternamente com base em seu decreto, em seu conselho divino, em sua irresistível vontade e resumiram num acróstico da TULIP, que no Brasil a maioria dos calvinistas têm como resumo de sua doutrina de dupla predestinação. 

    Os arminianos, a princípio, foram perseguidos violentamente e quase se extinguiram, mas seu conceito de eleição pela presciência ficou presente na Igreja Remonstrante holandesa, que se desligou da Igreja oficial por causa dessa controvérsia, e entre muitos batistas e anglicanos. No século seguinte, John Wesley, um anglicano fundador do movimento metodista, que deu origem após a morte de John Wesley à Igreja Metodista, popularizou o conceito arminiano de predestinação pela presciência e hoje a maioria dos evangélicos crêem próximos à forma que John Wesley interpretou o arminianismo. Muitos calvinistas adeptos da TULIP consideram uma grave heresia rejeitar qualquer ponto da TULIP e com isso chamam quem não é adepto da TULIP de arminiano até hoje, independente de ser mesmo arminiano ou não. 

    Os luteranos têm uma história cultural e teológica totalmente independente dessa controvérsia Holandesa do século XVII, não houve debate nesse sentido entre os luteranos, que já tinham suas confissões de fé terminadas e reunidas no Livro de Concórdia muitos anos antes.  Não se pode comparar luteranos com esses movimentos, porque são contextos geográficos e teológicos muito diferentes, não se pode fazer uma ligação teológica e cultural sobre a dupla predestinação entre o luteranismo e os calvinistas da TULIP, arminianos, anglicanos, batistas ou Metodistas.  Os luteranos tiveram sua própria história. Mesmo assim, muitos tentam “puxar a sardinha” para seu lado e dizem que luteranos são iguais aos “calvinistas”  ou “arminianos”. Luteranos se relacionam bem com outras denominações da Cristandade, como calvinistas, metodistas, batistas, pentecostais, católicos romanos, ortodoxos, mas tem sua própria história.

    Para tentar amenizar essa confusão que muitos fazem na internet, preparei uma tabela mostrando as diferenças entre essas vertentes eo luteranismo nas principais propostas delas. Não é uma tabela exata, é só um resumo, vai faltar coisas e outras podem ser mal interpretadas. Você vai ter que estudar melhor as diferenças para entender com mais precisão, mas como resumo vale para você conhecer e saber que luteranos não são iguais nem aos calvinistas, nem aos arminianos:

    1 –  Em português brasileiro, a obra” Da Vontade Cativa” está presente apenas no volume 4 das Obras Selecionadas de Martinho Lutero, pelas editoras Concórdia e Sinodal. Existe um livro que circula no meio calvinista chamada “Nascido Escravo” que dizem ser uma compilação desta obra de Lutero, mas ela é incompleta e adaptada, não se trata da mesma obra. 

    2- Os Cânones de Dort são documentos confessionais antigos da Igreja Holandesa e recebe este nome em referência a Dordrecht, cidade aonde aconteceu o Concílio aonde a Igreja Holandesa desenvolveu sua teologia da predestinação na época.

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