Jesus = 100% Homem e 100% Deus
Jesus = 100% Homem e 100% Deus

Hoje, boa parte dos evangélicos, e falo aqui dos Evangélicos em geral, calvinistas, pentecostais, neopentecostais, metodistas, luteranos, emergentes, etc, tem um sentimento anti-romano muito forte. Acreditam que se algo é ensinado pela Igreja Católica Romana, este algo deve ser visto com suspeita, ou mesmo rejeitado imediatamente. A péssima qualidade do ensino, a falta de diálogo e de troca de idéias e compartilhamento de informações em casa, nas igrejas e no nosso sistema educacional se reflete na falta de conhecimento que talvez a maioria dos evangélicos tenha da história da Igreja como um todo. No máximo, a maioria dos evangélicos conhece a história de sua igreja, denominação, seu grupo teológico, da reforma protestante, etc.. Porém ignoram os 1500 anos de história antes da Reforma, ou os mais de dois mil anos de história antes de sua denominação ou movimento.

Sendo assim, é muito comum por parte dos evangélicos ignorar o fato que a Reforma Protestante foi um movimento ocorrido do lado de dentro da Igreja Católica Romana e que não era intenção da maioria dos reformadores do século 16 criar uma nova religião, talvez se excetuando Zuínglio, os anabatistas e alguns reformadores calvinistas que acreditavam que não haveria mais como reformar a Igreja Romana e o certo seria “recomeçar” a cristandade, idéia essa que ganhou força entre calvinistas puritanos na Grã Bretanha no século seguinte à reforma, mas isso é coisa para outro textão.

A REFORMA

A ideia da Reforma (preste bem a atenção na palavra REFORMA, não era um Recomeço, mas uma Reforma) era apenas consertar o que estava ruim e revisar as doutrinas que haviam sido modificadas, que não estavam mais de acordo com as Escrituras. Os reformadores, então, reafirmaram os primeiros quatro concílios da Cristandade, ou seja usavam os primeiros concílios de Nicéia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia como ponto de convergência e unidade com os demais cristãos católicos romanos e ortodoxos orientais, porém sendo a Escritura, não o Papado ou o Patriarcado, a principal autoridade doutrinária da Igreja Cristã. Ou seja, não houve nenhuma “condenação ao inferno” dos demais cristãos não-protestantes durante a Reforma, nem uma ruptura com o cristianismo histórico, nem quebra de comunhão espiritual com eles, ainda que a comunhão institucional e litúrgica tenha ficado impossível (exceto pelos anabatistas, já citados anteriormente, que foi um movimento radical da Reforma, que romperam com os demais cristãos e criaram uma religião própria).

Por isso essa rejeição ao legado histórico do cristianismo anterior ao protestantismo não condiz com o Espírito da Reforma. Essa característica “anti-católica romana” bizarra do evangelicalismo brasileiro, aliás, tem produzido muito legalismo e até mesmo muitas heresias antigas, que foram eliminadas durante os séculos pela pregação da Palavra de Deus e união dos santos irmãos do passado na cristandade, voltam com força total entre evangélicos. Vemos muitas heresias que haviam sido extintas renascendo hoje no meio evangélical com outra roupagem ou no meio de discursos mais enfeitados, mas que na essência não muda de heresias que já foram analisadas pelos irmãos do passado e decidiram ao examinar as Escrituras há muitos séculos atrás que os cristãos deveriam rejeitar como doutrina. Heresias já há muito tempo passadas como gnosticismo, marcionismo, docetismo, modalismo e muitas outras ressuscitam entre evangélicos desavisados e sem conhecimento bíblico e histórico para rejeitar ensinamentos que já causaram muitos problemas nos primeiros séculos do Cristianismo, heresias que foram combatidas pelos irmãos com a espada da verdade da Palavra de Deus e hoje ressurgem sem serem combatidas entre cristãos, só porque quem as professa faz parte da panelinha dos “evangélicos”.

CRISTOLOGIA

Na época da Reforma essa questão cristológica, ou seja, o entendimento sobre Jesus Cristo e suas naturezas humana e divina, e outros estudos sobre Ele, foi retomada também e foi por causa das divergências no campo da Cristologia, que geraram consequências em várias partes da teologia do período da Reforma, principalmente no entendimento sobre sacramentos, liturgia e soteriologia, que os protestantes se dividiram em Luteranos e Reformados (calvinistas e zuinglianos), mas isso também é assunto para outro textão, você pode fazer suas pesquisas aí em sites confiáveis de teologia se tiver interesse. Não vou me aprofundar nesse aspecto histórico da coisa não. Quero frisar no problema cristológico atual.

Uma das heresias atuais no meio evangélico é a negação de que Maria é a Mãe de Deus. Na bronca com os católicos, porque entre eles há a heresia de venerar (adorar) a Mãe de Deus como co-redentora e co-mediadora, dividindo a Glória de Jesus com ela, muitos evangélicos negam, até mesmo sem querer, a indivisibilidade das duas naturezas de Cristo: a Humana e a Divina, o que é ponto fundamental da doutrina cristã.

NESTORIANISMO

No século 5, o patriarca Nestório, de Constantinopla, preocupado também que Maria não recebesse a honra que era só de Cristo, dizia que Maria não era a Mãe de Deus, mas apenas mãe de Cristo. Só que isso deu um bafafá enorme e rendeu implicações bem complicadas e heréticas neste posicionamento, como vemos hoje também nos evangélicos que declaram, mesmo que não tão na cara como Nestório, que Jesus teve duas naturezas divididas, que Maria foi mãe só da natureza humana e não da divina. Ou seja, se Maria é apenas mãe da natureza humana de Jesus, então Cristo está dividido (1 Cor 1.13) não era Deus encarnado quando Maria O concebeu pelo Espírito Santo, era apenas humano e o Filho de Deus ficava ao lado, ou dentro de um corpo, como um parasita fica num hospedeiro e Jesus não era Deus em sua passagem na Terra, apenas um corpo que portava Deus. Por mais que a pessoa que negue que Maria é mãe de Deus não queria dizer isso, é a consequência de se dividir as duas naturezas, mesmo sem a intenção de fazer isso.

Dividir de qualquer forma e em qualquer momento as naturezas de Jesus vai contra o ensino bíblico sobre o Messias, que cremos ser Deus, o Deus conosco Emanuel, por isso o termo “Mãe de Deus” foi usado para dizer que Jesus é Deus, sempre foi Deus Eterno, nunca se dividiu e o que foi concebido pela Virgem Maria é Deus, o mesmo Filho de Deus da Eternidade, não é correto dividir as naturezas de Cristo. Foi isso que decidiu o Concílio de Éfeso, que é o concílio aonde é oficializada a expressão “Mãe de Deus”, concílio aceito também durante a Reforma pelos protestantes.

OS CREDOS ANTIGOS

Essa comunicação dos atributos humano e divino em Cristo teve seu entendimento consolidado no credo atanasiano, elaborado um século antes da controvérsia nestoriana, que nós luteranos rezamos em nossas liturgias também, que explica:

“A fé verdadeira, por conseguinte, é crermos e confessarmos que nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e homem.

É Deus, gerado da substância do Pai antes dos séculos, e é homem, nascido, no mundo, da substância da mãe.

Deus perfeito, homem perfeito, subsistindo de alma racional e carne humana.

Igual ao Pai segundo a divindade, menor que o Pai segundo a humanidade.

Ainda que é Deus e homem, todavia não há dois, porém um só Cristo.

Um só, entretanto, não por conversão da divindade em carne, mas pela assunção da humanidade em Deus.

De todo um só, não por confusão de substância, mas por unidade e pessoa.

Pois, assim como a alma racional e a carne é um só homem, assim Deus e homem é um só Cristo;”

(Credo Atanasiano, versão do Livro de Concórdia).

São Cirilo pediu a Nestório que revisse suas posições sobre Cristo e sobre a Santa Maria ser a Mãe de Deus. Cirilo escreveu para Nestório explicando o entendimento dos demais cristãos sobre o assunto, explicando o porque do termo Mãe de Deus, que é parte dos documentos do Concílio de Éfeso, que os protestantes aceitaram e hoje alguns negam:

“Este é o registro da verdadeira fé professada em todos os lugares. Assim vamos descobrir como os santos pais acreditavam. Eles também ousaram em chamar a santa virgem de mãe de Deus, não que a natureza do Verbo ou sua Divindade tenha a origem de seu ser a partir da santa virgem, mas porque nasceu dela o seu Santo Corpo e nela recebeu sua Alma, com que o Verbo estava hipostaticamente unido e é dito ter sido gerado na carne. Estas coisas vos escrevo no amor em Cristo, exortando como um irmão e apelando a você diante de Cristo e dos anjos eleitos, para manter e ensinar essas coisas conosco, a fim de preservar a paz das igrejas e que os sacerdotes de Deus permaneçam em uma ligação ininterrupta de concórdia e de amor.”

(Carta de São Cirilo a Nestório, patriarca de Alexandria, durante o Concílio de Éfeso, que negava que as duas naturezas de Cristo estivessem unidas no mesmo ser.)

Nestório se negou a rever suas posições, então foi convocado o Concílio de Calcedônia, aonde discutiram o assunto e Nestório foi destituído do patriarcado, declarado herege e com isso nasceu mais uma divisão do cristianismo, na época, o Nestorianismo, ramo do cristianismo que ainda hoje conta com milhares de adeptos no norte da África e no Oriente Médio, mas no resto da Cristandade ela ficou praticamente extinta por muitos séculos. O Concílio de Calcedônia terminou com essa definição sobre o assunto, que hoje não é só a fé de católicos e ortodoxos orientais, mas também dos protestantes luteranos e anglicanos, que diz assim:

Seguindo então, aos Santos Padres, unanimemente ensinamos a confessar um solo e mesmo Filho: nosso senhor Jesus Cristo, perfeito em sua divindade e perfeito em sua humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem (composto) de alma racional e de corpo, consubstancial ao Pai pela divindade, e consubstancial a nós pela humanidade, similar em tudo a nós, exceto no pecado, gerado pelo Pai antes dos séculos segundo a divindade, e, nestes últimos tempos, por nós e por nossa salvação, engendrado na Maria virgem e mãe de Deus, segundo a humanidade: um e o mesmo Cristo senhor unigênito; no que têm que se reconhecer duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisas, inseparáveis, não tendo diminuído a diferença das naturezas por causa da união, mas sim mas bem tendo sido assegurada a propriedade de cada uma das naturezas, que concorrem a formar uma só pessoa. Ele não está dividido ou separado em duas pessoas, mas sim é um único e mesmo Filho Unigênito, Deus, Verbo, e Senhor Jesus Cristo como primeiro os profetas e mais tarde o mesmo Jesus Cristo o ensinou que si e como nos transmitiu isso o símbolo dos padres.”

(Definição de Fé do Concílio de Calcedônia)

E agora essa heresia nestoriana é ressuscitada também no meio evangélico, quando dizem que Maria não é a Mãe de Deus. Por mais que a intenção seja combater a idolatria, o alvo principal em se negar que Maria é a Mãe de Deus acaba sendo Cristo, ao separar suas naturezas. Devemos permanecer bíblicos, como foram os pais da Igreja neste assunto, e não dividir as natureza de Jesus. Quando afirmamos que Maria é a Mãe de Deus, estamos querendo dizer que Jesus é Deus, Ele não era um espírito que foi morar num corpo, mas Ele foi feito corpo através do ventre de Maria, bendita entre as mulheres. Condenamos também qualquer idolatria que se faça com a Mãe de Deus, ela é a mais bendita e agraciada da história humana, merece honra e é um lindo exemplo para nós seguirmos de devoção e amor por Deus, mas Jesus é nosso único redentor e único mediador. Porém não podemos cair em heresias que já foram condenadas em outros tempos, que são anti-bíblicas, porque discordamos de exageros que se fazem com relação à Santa Maria, Mãe de Jesus, o Deus Filho Todo Poderoso (Mt 1.23).

 

A Fórmula de Concórdia das Igreja Luteranas responde essa questão:

“Em virtude dessa união e comunhão pessoal das naturezas, Maria, a Virgem laudatíssima, não deu à luz um mero homem, mas um homem que verdadeiramente é Filho do Deus Altíssimo, conforme testifica o anjo. Demonstrou sua majestade divina até no seio materno, com o fato de haver nascido de uma virgem não injuriada em sua virgindade. Razão por que ela deveras é a mãe de Deus, e não obstante permaneceu virgem.”

— Fórmula de Concórdia, Declaração Sólida VIII, 24 Livro de Concórdia, p. 638

Dentro da Teologia Luterana, trabalhamos a comunicação dos atributos de Cristo em 3 gêneros, os gêneros idiomático, majestático e apotelesmático. São uns nomes estranhos para quem não está acostumado com teologia e cristologia, mas vale a pena conferir o que esses gêneros com nomes difíceis querem dizer. Olha só:

COMUNICAÇÃO DOS ATRIBUTOS DIVINOS

No gênero idiomático, tudo sobre Cristo se aplica às duas naturezas, mas não como característica própria das duas naturezas, mas que as características de uma natureza só são atribuídas à toda pessoa de Jesus. Por exemplo: Jesus é eterno, toda a pessoa de Cristo é eterna e isso é comunicado da natureza divina à humana, portanto mesmo que Jesus tenha feito 30 anos de idade em sua passagem na Terra, Ele era eterno.

No gênero majestático, Jesus como Deus comunica suas ações divinas à natureza humana. Jesus em seu ministério terreno não deixou de ser onipotente, onipresente e onisciente, mas isso não era atributo inerente, ou seja, que vinha da natureza humana, mas era comunicado da natureza divina à natureza humana. Então Jesus como 100% humano também é onisciente, onipresente e onipotente por comunicação de seu atributo divino à sua natureza humana. Assim como a alma dá vida ao corpo, assim também Cristo comunica seus atributos divinos à sua natureza humana, mas a alma não está separada do corpo, não somos alma morando num corpo, somos alma e corpo (Tg 2.26). Assim também Jesus não é um Deus morando num corpo humana, mas é 100% Deus e 100% Homem.

E então, no gênero apotelesmático, a comunicação é entendida pela resultado que Cristo alcança como Homem-Deus. “O Verbo se fez carne para o expresso propósito de salvar a humanidade pecadora. Tudo quanto o Salvador faz para a alcançar este propósito bendito não pode ser atribuído a qualquer das natureza de maneira exclusiva, mas deve ser atribuído a ambas conjuntamente.” (Koehler, Sumário da Doutrina Cristã, pg 93). Ou seja, tudo que Jesus fez e faz, é atribuído às suas duas naturezas. Ele é o Salvador como Homem-Deus, Ele morreu como Homem e como Deus, Ele nasceu como Homem e como Deus. Tudo é comunicado entre as duas naturezas a partir da natureza divina que se encarnou em amor por nós e nos redimiu e salvou como oferta perfeita de um Cordeiro Divino, morto pelo pecador, compassivo e que concede a paz aos que crêem nEle.

CONCLUSÃO

Por isso o negar que Maria é de fato a Mãe de Deus traz muitos problemas para se entender as naturezas de Jesus e seu papel Redentor da humanidade, pois Ele é 100% Deus e 100% Homem, se Ele tivesse se dividido (1 Co 1.13), então não seria o Messias prometido, o Emanuel que se encarnou para nos salvar. Por isso é bom tomar muito cuidado com o que ouvimos e lemos em livros ou na internet, não importa quem diga, o importante é o testemunho das Escrituras, que nos apresentam o Messias Emanuel, que não caiamos em heresias antigas que não deveriam ser encontradas mais entre nós.

Termino esse textão com Martinho Lutero:

Queira essa doce mãe de Deus conquistar-me o espírito capaz de interpretar de forma proveitosa e profunda esse cântico, para que dele (…) todos nós possamos tirar uma compreensão proveitosa e uma vida louvável, e para que assim, na vida eterna, possamos louvar e cantar esse Magnificat (o cântico que Maria entoou ao receber a notícia do anjo que seria a Mãe do Deus Salvador – comentário entre parêntese meu) eterno. Que Deus nos ajude. Amém.”

Queremos ter em toda honra a amada virgem e santa mãe, como ela na verdade é digna de ser honrada. Mas não queremos honrá-la, fazendo-a igual ao seu filho Cristo. Pois ela nem foi crucificada nem morreu por nós. Por isso que se honre a mãe Maria como se queira, mas só que não seja honrada com a honra com que se deve honrar a Cristo. E esta é também a causa pela qual o Senhor afasta de si a sua mãe. Pois ele quer ser sozinho aquele a quem devemos seguir.

– Martinho Lutero.

 

(Surian)

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