A Ordem desejada pelos conservadores e o Progresso dos progressistas podem dialogar (desconsidere o positivismo de Comte na imagem, estou falando de outra coisa)

​Ser um cristão progressista não é sinônimo de liberalismo teológico, de abrir mão de suas crenças na Bíblia como Palavra de Deus, como acusam muitos. Há muitos que fazem isso, mas não são todos. Talvez a maioria do que se encaixe hoje no rótulo de “cristão progressista” usado pelos evangélicos conservadores não se encaixa nessa realidade de liberalismo teológico e leitura crítica da Palavra de Deus. 

No meu caso, vou usar a lógica “simul justus et peccator” para explicar o que penso sobre o assunto.

Simul justos et peccator, resumindo tudo, significa que somos 100% justos e 100% pecadores.

Muitos quando falam em cultura e sociedade falam do bem, da justiça, de equidade, de moralidade, etc. Partindo do principio que o cristão é chamado a ser justo diante de Deus e dos homens, e crendo que isso acontece por meio de pensamentos, palavras e ações que consideram puros, santos, morais e justos, muitos grupos cristãos dizem que suas propostas são as que tornam as pessoas puras, santas, morais e justas, ou refletem essas coisas nas pessoas.

Hoje em dia, principalmente no meio evangélico pentecostal, protestante calvinista e até no católico romano, todas as propostas estão convergindo no que eles chamam de  “conservadorismo” para muitos, e “progressismo” para outros (essa onda de convergência e divisão, pra variar, veio importada dos EUA, por lá até luteranos entraram nessa dicotomia; por aqui, graças a Deus, ainda são poucos os luteranos que olham o mundo dessa forma binária, mas acho que a chance dessa dicotomia se popularizar ainda mais entre nós luteranos é real e temo muito por isso). Com isso, no meio cristão, se instaurou o “nós contra eles”. Quem não está no meu time, é meu inimigo, segundo essa forma que se popularizou hoje em dia e continua a crescer aqui no Brasil.

O resultado desse lance do “nós contra eles”, desse código binário do “conservadorismo versus progressismo”, é que cada um dos dois lados se considera como quem tem a verdade absoluta incontestável, a moralidade correta e a única direção possível e efetiva para o pensamento religioso, cultural e social das pessoas. Então os adeptos (não todos) costumam se considerar justos por causa das idéias e propostas que defendem e os demais recebem rótulos pejorativos e xingamentos porque não são justos, mas pecadores e merecem sentenças condenatórias.

Como se defendeu Barth uma vez diante do fundamentalismo dos neocalvinistas Francis Schaeffer e Cornelius Van Til dos quais ele recebia condenações e sentenças, a Teologia vira uma criminologia, ou seja, as sentenças são anunciadas, as pessoas são condenados e não há chance de defesa, ou você está do “nosso lado”, no “nosso time”, ou já está condenado. E aí procuram seus erros e pecados para mostrar quanto você é incapaz de ser um cristão, ou te acusam de coisas que estão contra as regras deles, não pecados necessariamente..

Isso acontece dos dois lados. Os progressistas dizem que se você não tem uma consciência social como a deles, você não é cristão de verdade, as sentenças condenatórias tiram qualquer possibilidade de defesa. Mesma coisa os conservadores, se você não apóia os projetos que eles defendem e não ataca quem ou o que eles atacam também, você recebe as suas sentenças condenatórias e sem direito à defesa. De qualquer lado, ou você é do time, ou você está “desviado”, não é “cristão de verdade”, não “entendeu o Evangelho” e blá blá blá, não há mais esperança para você, a não ser que você parta para o lado deles.

Eu não creio no “nós contra eles”. O justo não é inimigo do pecador, mas o justo também é pecador.

Eu me identifico com o lado “progressista” nessas esferas sociais, econômicas, culturais, enfim, nas coisas seculares, porque creio que o mundo está mudando e não adianta forçar as pessoas a não mudarem. O capitalismo se tornou um sistema injusto e excludente, as pessoas não crêem mais em verdades absolutas, a cultura hoje é plural e se reinventa a cada dia. Não adianta querer “conservar” um mundo homogêneo que não existe mais trazendo prejuízos ou sufocos tantas pessoas. Eu creio que eu tenho que me adaptar a este novo mundo plural, a esta “nova ordem mundial”, que está incerta ainda e em constante transformação. Acredito que o melhor é saber dialogar com os adeptos de novas idéias do que privá-los ou mesmo puní-los por terem idéias novas sobre a vida na polis, como prega, no final das contas, o conservadorismo. Também discordo do modelo revolucionário que força as transformações e combate os que não querem mudar. Deve haver espaço para quem quer inovar e para quem quer conservar.

Acredito que muitas idéias sociais e culturais novas podem ser boas, mesmo que religiosamente eu conserve as doutrinas antigas, há espaço para a pluralidade e a diversidade. Por isso conservar pode ser bom, progredir também pode ser bom. Há de se ter espaço para a pluralidade de cores, culturas, comportamentos, sem tirar o valor humano igualitário entre todos, asssim como as oportunidades, a liberdade, a dignidade e até, quando necessário, a segunda chance, a remissão e a recuperação social entre as pessoas, independente de suas escolhas de comportamento ou condições sociais, geográficas, econômicas e de saúde. Assim, não posso ser um conservador político, econômico, cultural e social, nem um revolucionário, acabo me considerando um progressista nessas questões seculares da vida na polis.

Na Teologia, me considero um conservador em minhas crenças cristãs. Creio em Cristo, a imagem do Deus invisível, a plenitude da Divindade Triúna, como o Caminho, a Verdade e a Vida, isso eu tenho como verdade absoluta, não abro mão. Creio na Bíblia como Palavra de Deus porque Deus se revela em Cristo e cada til e cada vírgula da Bíblia, Lei e Evangelho, apontam para Cristo, a Lei não como uma “cosmovisão cristã” ou “Teonomia” reconstrucionista, mas nos mostrando como pecadores e apontando para Cristo como Redentor e o Evangelho não como “Missão Integral” ou “Teologia da Libertação”, mas nos mostrando a obra consumada de Cristo e nos dando Cristo pela fé somente, sem obras. 

Eu não sou crítico com as Sagradas Escrituras, sou crente, mesmo reconhecendo que não entendo muitas coisas dela, porque são palavras de Deus escritas por homens inspirados pelo Espírito Santo, e não verdades humanas que eu sou capaz de decodificar e interpretar pela razão humana em tudo, tenho meus limites hermenêuticos humanos e temporais, mas creio sim na Bíblia como santa e suficiente revelação de Deus em cada letra em seus originais, porque cada letra aponta para Cristo, qualquer problema com manuscritos, textos, traduções e exegeses deve-se creditar ao homem, não ao Autor divino. 

Sou cristão de bases católicas e apostólicas pela historicidade definida nos credos ecumênicos do primeiro milênio, nos quais creio e tenho como símbolos de fé, sou cristão luterano que tem as confissões luteranas como expressões de fé bíblica. Eu não abro mão de conservar a minha fé e de apresentá-la ao mundo.

Mas meu conservadorismo pára por aí. A partir do momento que dizem para eu lutar politicamente pelo que creio, para que as pessoas aceitem essas verdades mesmo contra a vontade delas, qualquer intenção de aplicar de forma forçosa qualquer teologia ou cosmologia cristã (e temos muitas diversas também muitas divergentes entre si), aí já largo o conservadorismo de mão e volto para o progressismo. 

Politicamente, socialmente, culturalmente, o caminho é o diálogo com pecadores de forma horizontal, porque eu sou pecador também, saber lidar com as transformações e distinguir corretamente as esferas espiritual e material do Reino de Deus. Lutero colocava essas esferas em duas mãos de Deus. Ele exemplificava a atuação do cristão como peregrino na Terra ilustrando que na mão direita de Deus Ele está a esfera espiritual de sua criação, os anjos, a salvação, o Evangelho, a fé, etc; já na mão esquerda de Deus estão as coisas espirituais, como as leis da física, a moralidade e as instituições da Terra.

Eu acho ótimo esse modelo de Lutero. É Deus quem cuida de tudo, espiritual e materialmente, não são nossas obras que redimem coisa alguma, pelo contrário, somos pecaminosos e levamos pecaminosidade às coisas. Então não é meu papel mudar as coisas que Ele governa como se eu tivesse o dominio ou um “mandato” cultural, político, econômico, etc, sobre elas por ser cristão, ou uma “Missão” de atuar integralmente em todas as esferas vida das pessoas para estabelecer qualquer modelo social humano. 

Não há verticalidade na relacao do ser humano com seu próximo, ha funções e vocações diferentes, mas tudo na horizontalidade. Posso interagir com liberdade com as pessoas como peregrino e embaixador de um outro mundo aqui na Terra, seja concordando e propondo soluções conservadoras ou progressistas, tanto faz, não há um modelo civil ordenado por Cristo na Nova Aliança. Mesmo não pertencendo a este mundo, estamos aqui em igual valor com os que ainda rejeitam herdar o novo mundo que Deus prometeu aos que crêem. Deus nos manda amar como a nós mesmo, estabelece essa horizontalidade como mandamento. Creio ser pecado nos colocar acima de quem quer que seja, essa tentação de sermos superiores é operada pela antiga serpente hoje em dia como foi no Éden.

Se a minha relação com meu próximo é de uma perspectiva horizontal, me considero igual, nem pior, nem melhor, então posso interagir com liberdade, somente recusando o pecado e posso testemunhar da realidade transcendental do Criador às pessoas sem forcá-las a mudar, mas.como uma oferta graciosa para crerem no Senhor Jesus. Então, ao invés de dominar ou transformar o contexto delas para que elas creiam na mensagem cristã pela força, minha perspectiva é que se elas virem a crer e ter seus pensamentos cativados por Cristo, não será por meio de ferramentas humanas e carnais, mas pelo Espírito de Deus diretamente. Não vai ser um modelo cultural, político, ético, social, enfim, de obras humanas que trará a redenção e a transformação quenas pessoas precisam, mas é a obra consumada de Cristo, a operação do próprio Espírito Santo pela Palavra e sacramentos.

Por isso eu não entro mais no “nós contra eles”, já fiz muito isso e vi que não é bíblico fazer isso. Há um chão comum entre nós progressistas cristãos que crêem na Bíblia (provavelmente a maioria) com os conservadores (entre os quais muitos também são críticos com a Bíblia, pois o fundamentalismo não deixa também de ser uma leitura seletiva e crítica das Escrituras). Há mais em comum entre nós do que diferenças, mas a partir do momento que as diferenças são mais importantes do que o chão comum e há excomunhão por questões não relacionadas à fé, como política, cultura, economia, etc, aí é impossível o diálogo. 

Se um cristão conservador me diz que não sou cristão de verdade porque eu sou de Esquerda na política, como acontece comigo aqui na internet quase todo dia, o que sobra de comum? O chão comum é tirado dos nossos pés e caímos num limbo de troca de acusações e farpas, fica impossível estarmos de pé um na frente do outro, porque não há mais chão. Para ele é mais importante a opinião política do que a fé. A política se torna uma confissão de fé e a confissão de fé católica (universal) e apostólica (bíblica e histórica) vira secundária ou até irrelevante. 

Podemos crer nas mesmas verdades absolutas da fé cristã, mas para ele as questões atuais da política também são absolutas, para mim não, então para ele eu não posso ser um cristão porque não preencho os requisitos necessário de fé política para ser um cristão, sou um “desviado”, um “ideólatra”, etc. Para mim, os requisitos foram todos preenchidos por Cristo e eu e ele recebemos de graça e pela fé somente a nossa “carteirinha” de cristão e isso já está consumado, não são questões atuais de política que justificam o ser cristão ou não.

Isso não é privilégio de conservadores só não. Entre progressistas também muitos colocam questões políticas, sociais e culturais como sendo a justiça necessária para ser cristão. Se você foi contra o impeachment da Dilma, você não é cristão de verdade. Se você é de Direita, você não é cristão de verdade. Se você não apóia certa causa que eles apóiam, pronto, perdeu a “carteirinha” de cristão também. É exatamente o mesmo legalismo, mas com outro conteúdo dentro.

Isso tudo não é nada bíblico. A Bíblia é clara que o que nos dá a “carteirinha” de cristão não são obras, mas somente a fé. E a fé nos torna justos porque Cristo é Justo e nos substitui em nossas falhas. O apóstolo João é bem claro que se dissermos que não pecamos, somos mentirosos e fazemos Deus de mentiroso também, mas se confessamos nossos pecados, ou seja, que somos pecadores, Ele é fiel e justo para nos perdoar nossos pecados. 

Por isso somos justos sim pela fé cristã, mas não por ser conservadores, nem por sermos progressistas, mas porque Cristo é justo e Deus nos recebe em Cristo como cristãos, não por causa de obras, política, cultura, consciência social, etc. E ao mesmo tempo somos tão pecadores como qualquer outra pessoa, seja não cristã ou cristã também, seja liberal, conservador, progressista, quem for. Não podemos negar isso ou fazemos Deus um mentiroso. Há esperança para qualquer pecador, colocar a justificação do cristão em obras e idéias conservadoras ou progressistas é tirar a salvação do pecador e excluir bilhões que Ele ama em Cristo da graça de Deus por causa de questões elementares como cultura, sociedade, economia e política..

Esse “nós justos” contra “eles pecadores” não edifica em nada, só “escandaliza”, só faz cair o pecador. Creio que nós 100% justos e 100% pecadores, por isso podemos ter um chão comum com as pessoas sem acepção.

Claro que se a pessoa não quer chão comum, não adianta, Jesus mesmo manda limpar até o pó das sandálias e tomar distância, mas temos que tomar cuidado antes de transformar a nossa teologia em criminologia e dar sentenças a quem Deus tanto amou ao ponto de entregar seu Filho por eles como entregou por nós também. Se não há ponto comum na política, na cultura, na consciência social, então que o amor de Cristo por seus filhos simul justus et peccator seja esse ponto comum..

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