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Um boato muito comum é que luteranos creriam na tal “consubstanciação”. Isso não é verdade. Cremos bem diferente. Confira o texto.

Por: Vilson Scholz

Certo dia presenciei uma conversa entre o pastor de uma igreja reformada (não luterana) e um pastor luterano. O assunto era a Santa Ceia.

Acontece que o outro pastor havia afirmado que o pão simboliza o corpo de Cristo. Quando o pastor luterano questionou essa afirmação, o outro pastor perguntou ao luterano o que ele, afinal, ensinava. A partir daquele momento, o diálogo foi mais ou menos o seguinte:

Pastor Luterano: Nós simplesmente afirmamos o que Jesus disse. Sem mais, nem menos.

Outro pastor: Mas e a doutrina da consubstanciação?

Pastor luterano: A consubstanciação é uma teoria filosófica, e nós evitamos filosofar a respeito de como Jesus poderia dizer que o pão é o seu corpo. O máximo que os nossos teólogos afirmam é que “em, com e sob” o pão e o vinho o comungante recebe o corpo e o sangue de Cristo.

Outro pastor: Ahã! Aí está: você disse “com”. Consubstanciação!

Pastor luterano: Negativo! Dizer “em, com e sob” é uma maneira de dizer que o pão continua sendo pão, mas que aquele pão (‘isto”) é também o corpo de Cristo. Não tentamos explicar o que não pode ser explicado. E essa palavra, “consubstanciação”, aparece em materiais escritos por gente de outras igrejas, querendo retratar o ensino dos luteranos. Os próprios luteranos não usam esse termo.

E foi por aí que terminou o diálogo. O outro pastor convencido de que os luteranos ensinam a consubstanciação, e o pastor luterano dizendo com todas as letras que esse termo não representa a posição luterana.

Qual é, então, o ensino luterano a respeito da Santa Ceia? A posição luterana, naquilo que ela tem de explicação das palavras que estão na Bíblia, aparece nas Confissões Luteranas. Para começo de conversa, nos catecismos de Lutero. Quanto a Santa Ceia, Lutero, em seu Catecismo Menor, traz uma resposta bem simples, e ao mesmo tempo profunda, para a pergunta “Que é o sacramento do altar?” Lutero escreve: “É o verdadeiro corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, sob o pão e o vinho, dado a nós cristãos para comer e beber, instituído pelo próprio Cristo“.

Você nota que Lutero diz “sob o pão e o vinho”. Este “sob” também poderia ser traduzido por “debaixo de”, “dentro de” (no alemão, “unter”). E, como alguém já observou, seria possível acrescentar mais uma série de proposições (em, com, sob, junto com, dentro de), sempre para manter o que Jesus disse, sem lhe impor uma interpretação, sem tentar explicar o mistério inexplicável: pão e corpo, vinho e sangue.

Um termo para a Santa Ceia que aparece em nosso Hinário (hinos 255..5; 256.2; 257.1; 260.10; 261.4) e que poderíamos usar mais – até mesmo porque é um termo bíblico – é Comunhão. Que comunhão é essa? Poderíamos pensar que se trata de uma comunhão entre os que participam da ceia ou da comunhão entre Cristo e o comungante. No entanto, o texto bíblivo de onde vem o termo nos leva a pensar um pouco diferente. O texto de 1 Corintios 10.16: “Não é assim que o cálice da bênção que abençoamos é a comunhão do sangue de Cristo? E não é assim que o pão que partimos é a comunhão do corpo de Cristo?” A leitura do texto mostra que se trata de comunhão entre o cálice (o vinho) e o sangue de Cristo. O termo “comunhão” indica que existe algo em comum. Neste caso, existe comunhão entre cálice e sangue de Cristo, entre pão e corpo de Cristo. Para que isso aconteça, o corpo e sangue de Cristo precisam estar presentes. (E, por extensão, ao recebermos os elementos, Cristo entra em comunhão conosco.) Tal comunhão não é criada pela Igreja ou pela fé daqueles que participam da Ceia. E, embora o texto bíblico não entre em detalhes, se precisarmos de um agente, este agente será o próprio Cristo. Ele é o verdadeiro celebrante e aquele que dá seu corpo e sangue na Santa Ceia.

*O dicionário define consubstanciação como “união de dois ou mais corpos na mesma substância”.

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Fonte: Mensageiro Luterano, Maio 2016 | Ano 99 | Nº 1.213

Extraído do blog Theologia Crucis. Blog exclusivo sobre Luteranismo aonde sou colaborador também. Visite e conheça.

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