Bandeira preta porque sou gótico e trevoso até para falar de política.

Nas áridas terras do Hatebook, acontece uma batalha espiritual sem fim entre “conservadores” e “progressistas”. No meio evangelical, essa treta toma proporções bíblicas e dá um mal exemplo enorme. Muita gente desanima da fé e até sai da igreja com tanta treta entre irmãos, acaba sendo atingida pelo tiroteio entre os dois lados.

Esses tempos mesmo teve uma treta entre esses dois povos naquele campo de batalha azul e branco que me chamou a atenção, com os “papas” dos dois lados excomungando uns aos outros, dizendo que não são “cristãos de verdade” por não estarem de acordo com suas regras.

De um lado nessa treta, a “Missão Integral”, que hoje acomoda os “cristãos progressistas”. A Teologia da Missão Integral não pode ser chamada de progressista em si mesma, pois teve uma origem num esforço conjunto de teólogos evangélicos de diferentes ideias e visões políticas do mundo todo em formar uma missiologia conjunta, ela tem vários aspectos e é bem evangelical, ou seja, foi desenvolvida e atende as igrejas evangélicas formadas do século XIX pra cá nas sombras dos movimentos avivalistas dos EUA e dos esforços missionários angloamericanos, mas também é recebida em círculos protestantes mais antigos e tradicionais, e tem também conservadores adeptos..

Só que no Brasil, com a atual polarização política, a maioria dos que se dizem conservadores resolveram abandonar este movimento, por ter na liderança de seus principais eventos um número grande de evangélicos progressistas e não quererem se misturar com eles.

Eu não curto essa ideia de Missão Integral, mesmo em sua origem, acredito que mistura Lei e Evangelho e não consigo ver os resultados evangelísticos próprios de suas propostas. O que vejo de bom em meio à Missão Integral, são coisas que vejo fora disso também e que tem várias outras explicações fora da Teologia da Missão Integral, então eu não sou muito simpático a isso [1], mas eu não deixo de considerar os adeptos disso como meus irmãos, ser adepto ou não da Missão Integral não é uma coisa essencial à salvação.

Do outro lado, a “cosmovisão cristã” abriga boa parte dos evangélicos autodenominados conservadores. Assim como a Missão Integral, a “cosmovisão cristã” não é propriamente um movimento, mas uma ideia. Diferente da MI, a cosmovisão cristã nasce entre calvinistas, já com um forte proselitismo calvinista que acredita que outras visões cristãs, nominadamente o luteranismo [1] e o catolicismo, são incompletas e só o neocalvinismo seria a única possibilidade de “cosmovisão cristã”. Isso na sua origem, hoje em dia o leque se abriu e qualquer outra teologia que não seja no viés neocalvinista de nomes como Kuyper, Rookmaker, Dooyeweerd, Bavinck e outros seria incompleta e não oferece uma teologia cosmológica completa que resolve todos os problemas de todas as esferas da existência.

Talvez o fato do neocalvinismo holandês e sua “cosmovisão cristã” ser um lance relativamente contemporâneo ao fundamentalismo protestante nos EUA, e ter tido tanto sucesso nesse meio, não seja mera coinscidência e por isso seja menos aberto nos seus postulados (ainda que sua abrangência vá para fora do calvinismo).

Não é um movimento tão ecumênico como a MI, mas no Brasil é aceito por evangélicos de diversas vertentes teológicas, do neopentecostalismo ao luteranismo (infelizmente). Essa ideia eu acho péssima! Mas também não deixo de considerar os adeptos disso meus irmãos, ser adepto ou não da “Cosmovisão Cristã” não é uma coisa essencial à salvação.

Digamos que eu tenho um lado nessa treta entre conservadores e progressistas, mesmo não sendo adepto dessas duas teologias mais usadas como escopo religioso dos dois grupos, digamos que eu estou mais para o lado dos “progressistas”.

Na troca de farpas, acabo sendo atingido mais pelos ataques dos conservadores. Na maioria das brigas, eu fico mais ofendido com essa galera, por conta de certas acusações que eles fazem e com a forma com que eles excomungam os outros e dizem que não são “cristãos de verdade” com tanta facilidade, na maioria das vezes por questões secundárias.

Mas hoje eu vou ser crítico com o meu lado também

Eu concordo com quem está de fora dessa dicotomia besta que foi criada de poucos anos pra cá e vê o mesmo falso moralismo que se vê no conservadorismo, mas do lado progressista. O falso moralismo do “meu” lado é tão intenso e prejudicial como o do lado conservador.

Eu me considero progressista em assuntos sociais, como política, cultura, economia, etc; ao mesmo tempo que me considero conservador na teologia, em certos assuntos morais (como aborto, sexualidade, etc), prefiro o antigo ao novo, mas considero a religião, o sexo e a maior parte da moralidade como assuntos privados e particulares, por isso me alinho mais com a turma progressista do que com a conservadora. Tenho repulsa a qualquer forma de teocracia ou aristocracia.

Acredito que nós, religiosos, devemos ter espaço na política, mas espaço democrático, sem imposições e aceitarmos a existência de quem pensa diferente e que tenham seus espaços também. Sou contra o fundamentalismo e a ideia de impor nossas questões, deve haver debate e respeito aos processos democráticos, porque é este o sistema em que vivemos.

Não consigo me alinhar com os “gurus” e ícones do novo conservadorismo, nem do antigo. Quanto mais a galera conservadora manifesta suas ideias, mais vou achando isso uma péssima ideia. Porém é difícil olhar os problemas do meu lado também e ficar calado em nome da “amizade” e “boa vizinhança”.

Aqui eu tenho encontrado coisas bem ruins, como antissemitismo, anticristianismo, fundamentalismo de posições, liberalismo teológico, ideologias suplantando a ciência, imposições de novos valores sem o devido diálogo, falta de aceitação e respeito com quem prefere os antigos valores, cagação de regras à torta e à direita aqui desse lado.

É bem complicado às vezes ser da turma progressista.. Mas me mantenho progressista na política e em questões sociais, mesmo que teologicamente eu seja não só conservador como confessional.

Ou seja, sou bem resolvido em muitos valores pessoais, principalmente os religiosos, para mim muitos estão fechados e são inegociáveis, mas em questões de políticas públicas, naquilo que a minha fé não me me apresenta um entendimento específico sobre questões específicas, é no lado progressista que vejo que trabalham certos temas específicos da forma que eu acredito que é certo de serem trabalhadas, com compaixão e equidade. Temas como trabalho, distribuição de renda, racismo, feminismo (apesar dos problemas e absurdos em nome disso, considero o feminismo não só uma coisa boa, mas uma necessidade), a pobreza, etc, e vejo ótimas ideias no lado progressista.

O teólogo luterano Edward Koehler explica minha confessionalidades sobre questões políticas:

Origem. O poder e autoridade de todo governo têm sua origem em Deus. “Não autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas ” (Rm 13.1-2; Pv 8.15; Dn 2.21; Jr 27.5-7)
A forma de governo é determinada pelos seres humanos… A Bíblia fala dos direitos e deveres do governo, mas em parte nenhuma advoga qualquer forma particular. Pode ser, por isso, Monarquia absoluta ou limitada, oligarquia ou democracia, ou qualquer outra forma dque o povo escolha. A Bíblia também não nos diz de que maneira o poder do governo deve ser conferido, se hereditariamente ou por designação, ou através de eleição… A consciência dos cristãos não está presa a qualquer tipo especial de governo, mas os cristãos devem considerar como ordenação de Deus toda forma que realmente possui e exerce o poder e autoridade do governo.
O governo civil controla, em certa medida, a conduta exterior da pessoa já que ela afeta outros homens ou o bem-estar público. Olha o indivíduo em relação à sociedade. Contudo, há certas questões pessoais e particulares sobre as quais o governo não tem jurisdição. A principal delas é a religião de alguém, ou sua relação com Deus. Sendo poder temporal, o governo civil não se ocupa com o bem-estar espiritual dos cidadãos e não tem o direito de ditar-lhes a quem devem adorar e o que devem crer. A cura de almas não é entregue ao governo civil. O governo civil não trata com os seres humanos na esfera espiritual, mas na secular, sendo, por isso, guiado em seu trabalho pela razão, não pela Escritura. “Pois a administração política trata de coisas diferentes das do Evangelho. O magistrado defende não as mentes, porém os corpos e as coisas corpóreas contra manifestas injustiças, e reprime os homens coma espada e penas temporais” (Confissão de Augsburgo, Art XXVIII, 11, Livro de Concórdia).

O governo pode permitir o que Deus proíbe e proibir o que Deus permite, mas não pode ordenar o que proíbe, e proibir o que Deus ordena. Se o faz, devemos obedecer antes a Deus do que as pessoas (At 5.29)

Dito isso, com essa liberdade cristã de escolher o melhor sistema que sirva a sociedade como um todo, eu não escolho me encaixar na turma dos “conservadores”. Não acho suas propostas viáveis e prefiro as soluções propostas do lado progressista para políticas públicas.

E na turma dos conservadores têm um agravante, os que usam o nome de Deus para falar de política. Estes geralmente acreditam que questões de políticas públicas, forma de governo, sistema econômico, etc, já estão fechadas e dogmatizam essas questões como se suas propostas fossem dogmas a serem aceitos de forma obrigatória para os cristãos, ou mesmo por não cristãos, porque o próprio Deus, segundo estes, teria determinado o modelo que eles defendem, aí reinterpretam e fazem leituras da palavra de Deus segundo seus dogmas políticos. Aí é problemático demais, vira uma questão de fé, não só de escolha política, então tenho que bater o pé e dizer não a esse tipo de abordagem de temas políticos.

Isso também acontece do lado progressista e é igualmente um saco, usar o nome de Deus para falar de política e usá-lo como “garoto propaganda” de bandeira ideológica é um mal terrível.

Por isso me sinto livre para criticar o meu lado também, a Esquerda, principalmente esquerda pós moderna que tem pregado muitas vezes o ódio e a exclusão de pessoas está me deixando bem preocupado e indignado. Por exemplo quando querem o mal de pessoas só por serem de Israel (sionistas, segundo eles), quando maltratam os neopentecostais gratuitamente e não quer que estes cidadãos brasileiros tenham espaço na vida pública (eu também sou contra os abusos que os neopentecostais têm cometido na política, mas como fã da democracia, acredito que se deve combater os abusos, não os neopentecostais), quando quer impor seus novos valores no grito: é “apropriação cultural” pra cá, é “empoderamento” pra lá, é “todo homem é estuprador” acolá..

Olha, isso cansa! São conceitos muito abstratos que só servem à academia, para artistas pagarem de bons moços e boas moças, e a textões de Facebook, mas não vejo como soluções para resolver problemas reais.. Sei lá, acredito na espontaneidade. Que tal deixar quem sofre falar, ao invés de falar por eles?
Enfim, já to até vendo que esse meu textão aqui vai me causar problemas, mas é o que tenho sentido em relação ao progressismo. De coração.

Das outras vezes que comentei minhas frustrações com o meu lado, os comentários foram, resumindo tudo:

“- Ah, Surian. Você não pode falar essas coisas, toma aí um monte de links para vc pensar diferente..”

Ou seja, eu não posso pensar nada fora das “regras”, eu não posso nem me sentir como me sinto, até minhas conclusões devem ser teleguiadas por ideologias.. Cara, isso é igual o conservadorismo, cosmovisão “cristã”, essas coisas que me incomodam tanto.. Se não curto legalismo nessas coisas, não vai ser no progressismo que eu vou curtir também.. Uma coisa é fazer um contraponto, mostrar um outro lado, outra coisa é não deixar que eu tenha as minhas próprias opiniões sobre estes assuntos. E nisso, o progressismo é igualzinho o conservadorismo.

Então, com essa liberdade civil e cristã de escolha de lados, eu escolho ser conservador na Teologia, sem me filiar à turma conservadora na política, e ser um pregressista na política, mesmo com todos os problemas, mas suas propostas ainda vejo como sendo as melhores e a abertura desse lado para buscar soluções diversas e diferentes muito maior, sem, porém, me sentir obrigado ou tentado de forma alguma a abraçar o progressismo teológico,

Bom, eu não sou político, não sou filiado a nenhum partido, nem pretendo me filiar, nem fazer militância de ideologia ou partido nenhum, tenho coisas mais importantes hoje a me ocupar, mas eu sou cidadão e tenho minhas percepções e conclusões sobre tudo, como todo mundo, e nisso eu quero ser livre, dessa liberdade eu não abro mão.

Espero que a rapaziada mais nova faça melhor que nós hoje e nossas tretas inúteis  e infindável, e suas militâncias tragam o bem para o país, que tenham mais liberdade para pensar por si mesmos em questões sociais, seja de um lado ou de outro..

Notas:

[1] – Eu escrevi um texto mais detalhado com meus problemas com a Teologia da Missão Integral. Se você quiser conferir, >> clique aqui <<

[2] – Abraham Kuyper, um dos principais nomes citados pelos neocalvinistas e prosélitos da “Cosmovisão Cristã”, deixa bem clara a ideia de supremacia, ou mesmo exclusividade, do Calvinismo sobre outras idéias, como o Luteranismo, afirmando abertamente que “o Calvinismo reivindica incorporar a idéia cristã mais pura e acurada do que poderia fazer o Romanismo e o Luteranismo”, rejeitando que nossa teologia dos dois reinos seja uma visão de mundo e acusando que “o Luteranismo restringiu-se a um caráter exclusivamente eclesiástico e teológico, enquanto que o Calvinismo coloca sua marca na Igreja e fora dela, sobre cada departamento da vida humana”.. e então exalta “o Calvinismo como o criador de uma cosmovisão inteiramente própria” (KUYPER). Com isso, na grande maioria das vezes que você ver esse termo “Cosmovisão Cristã”, pode se tratar neocalvinistas que estão, na verdade, não propondo o cristianismo e suas doutrinas fundamentais definidas nos 7 concílios ecumênicos do primeiro milênio, ou outros critérios universais dos cristãos, mas o calvinismo como uma teologia dominante e teologia de domínio da vida secular, ou seja, se trata de legalismo. Mesmo os que não têm o Calvinismo em mente, pelo vínculo da Cosmovisão Cristã com o neocalvinismo, já se torna problemática pela negação enfática dos dois reinos e outras teologias mais antigas que propõem os cristãos como servos uns dos outros ao invés de dominadora da cultura e da sociedade sob pretexto de redenção de coisas, enquanto Jesus veio redimir pessoas.. É preciso muito cuidado. Há muita boa intenção nos que falam de uma “Cosmovisão Cristã”, mas estes elementos de exclusivismo e dominação não podem ser ignorados quando você se relacionar com eles, pois pode ser que estejam querendo te “converter” ao Calvinismo, ou impor sobre você o que eles acreditam sobre cultura, política, sociedade, teologia, etc.. Aí é bom evitar assuntos nesses temas com eles, senão podem brigar com você por pensar diferente deles.
Referências

KOEHLER, E. W. A. A Summary of Christian Doctrine, chapter 45. St Louis: Concordia publishing house. Ebook kindle edition.

Também disponível em português em: KOEHLER, E. W. A. Sumário da Doutrina Cristã, cap. 45 – Governo Civil. Trad. Arnaldo Schüler. 3ª ed. Porto Alegre: Concórdia, 2002.

KUYPER, Abraham. Calvinismo. Eletronic eBook Edition, Acessado em 16/07/2017. Semeadores da Palavra. ISBN 858688645 9.

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