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Hoje em dia no Brasil há uma briga muito grande entre irmãos por causa de política. Bom, na Igreja Cristã sempre houve brigas entre irmãos, sempre há o pecado nos assediando e sempre cedemos às tentações de querer nos auto-afirmar sobre os outros, ou à tentação da intolerância e egoísmo e nos fechamos a entender os motivos de nosso irmão em Cristo ter sua opinião política, esquecemos que o mesmo sangue que nos lava lavou a ele também, que o mesmo espírito que nos aperfeiçoa, aperfeiçoa a ele também, ou aproveitamos a oportunidade para nos auto afirmar e mostrar nossa “sabedoria” e “pensamento evoluído” sobre o assunto quebrando o pau e esculachando gente que é da mesma família cristã que a nossa. É sempre assim. Se é não por um motivo, é por outro. Se não houver motivo, a gente inventa um. E uma das bolas da vez é a política. Durante a Reforma, não foi diferente, houve muita discussão e debate a respeito, até mesmo guerras e assassinatos entre irmãos na mesma fé por causa disso. Vamos entender o que houve.

Um dos pontos trabalhados pela Reforma foi a questão da relação entre a Igreja Cristã e o Estado. Na Igreja Católica, o Chefe da Igreja, o Papa é superior aos chefes de Estado. Segundo eles Deus é o Rei da terra, então é natural que o chefe da Igreja seja representante de Deus entre os estadistas também. Com as reformas que aconteceram durante a reforma protestante  (Isso mesmo! ReformaS! Não houve uma só. Cada região teve um estilo diferente de buscar por reformas na Igreja, com características diferentes e doutrinas diferentes), as pessoas não estavam mais sob obrigação de obedecer os mandos e desmandos dos padres, bispos, cardeais e do Papa, então se perguntavam se essa desobrigação também se estendia ao Estado.

Lembrando que na época o sistema na maioria da Europa era o feudalismo e as pessoas deveriam obedecer príncipes, reis, conselhos, enfim, cada região tinha seu sistema organizacional, alguns eram monarquistas, outros principados, outros mais democráticos, cada lugar tinha sua própria forma de governo e cada país tinha seus “feudos” (cidades, principados, reinos, condados, etc), por isso certos países, como a Suíça e a Alemanha,  não adotaram a Reforma Protestante na totalidade de seu território, na época. E lembrando também que as pessoas ainda não tinham bíblias e a maioria era analfabeta, então não tinham acesso às Escrituras sagradas e não sabiam por si mesmas a doutrina cristã, mas tinham que aprender dos clérigos e pregadores sobre as Escrituras, por isso não sabiam direito o que fazer a respeito do Estado.

As Reformas (Luterana, Zwingliana/Calvinista, Anabatista e Anglicana) deram respostas diferentes para essa questão, vejamos:

Reforma Luterana

Na reforma Luterana houve muita discussão sobre a separação Igreja e Estado, Lutero dizia que eram dois reinos, o da mão direita e o da mão esquerda, como ensinava Cristo diferenciou o Reino onde Deus trabalhava diretamente e onde Ele trabalhava através de César, um imperador pagão que Jesus não se levantou contra, mas também se sujeitou às suas leis civis. Os luteranos acreditavam que os cristãos não obrigados pelas Escrituras a se privar da vida política, mas poderiam participar e até mesmo governar, desde que não falassem em nome da Igreja, mas falassem por si e pelas suas crenças, para o bem do povo em geral, não apenas dos cristãos. Com o tempo, isso foi sendo reinterpretado em alguns lugares e certos países viraram Estados Luteranos, como os países nórdicos, e isso causou divisão entre os luteranos, entre os estatais e os não estatais. Até hoje as igrejas luteranas confessionais (tipo a IELB) não permitem que pastores e outros membros com cargo importante na igreja sejam tenham também cargos públicos, eles devem decidir entre um e outro, podendo se licenciar do cargo eclesiástico enquanto exerce o cargo público. Nas luteranas evangelicais, ou não confessionais (como a Confissão Luterana), não há essa restrição. No Brasil, já tivemos um presidente luterano, o General Geisel, por exemplo.. Mas apesar de ele ter tido um mandato questionável, não impunha suas crenças religiosas particulares ao Estado. Geralmente os luteranos são muito moderados nessa questão. O desafio é inverso: Tirar a influência do Estado sobre a igreja. Nos países nórdicos as igrejas luteranas lutam pela separação com o Estado, porque o Estado tem colocado pastores ateus e forçado o casamento gay por lá, causando um êxodo das igrejas oficiais.

Reforma Zwingliana e Calvinista

Na Reforma calvinista/zwingliana (uma completou a outra) a visão era também pela separação da igreja com o Estado, mas sem eliminar a influência da igreja para com o Estado. 

Zwinglio vivia metendo o bedelho em Zurique e Calvino em Genebra. Eles escreviam sempre sobre como eles achavam que o Estado deveria se comportar e incentivavam os adeptos dessa Reforma a exigirem tais pontos defendidos por eles junto ao Estado, por isso a Reforma calvinista foi muito influente nos países aonde ela se instalou, e os teólogos calvinistas tiveram uma influência muito forte sobre os estadistas. O Sínodo de Dort, depois da morte de Calvino, que determinou os 5 pontos do calvinismo, foi um evento oficial do Estado, por exemplo. 

Na Inglaterra os puritanos lutaram à mão armada contra os católicos e anglicanos (apesar de terem existidos anglicanos puritanos também), no golpe do Oliver Cromwell, mas a ditadura puritana por lá não foi nada popular, e entre eles mesmos havia muitos conflitos e o esquema deles não pegou. Na Bélgica e na Holanda o calvinismo foi algo extremamente popular, mas também foi algo oficial e estatal. Nos EUA também houve muita influência calvinista na guerra da independência e formação da República deles. Os calvinistas, principalmente os puritanos e os pós-milenistas, acreditam que o Reino de Deus que Jesus falava também se estendo ao Estado, que os cristãos devem entregar os governos estatais para Cristo, e os meios políticos são válidos para isso.. 

A teologia do pacto, de João Calvino, também insinua que as leis de Deus devem ser seguidas por não crentes e isso também incentiva os calvinistas a pensarem numa atuação política de colocação de sua fé no Estado, como aconteceu no passado. Mas é claro que nem todos os calvinistas pensavam, ou pensam dessa forma. Voltando à época da vida de João Calvino, no norte da Suíça, na região de Heidelberg, muitos calvinistas tinham um pensamento mais próximo ao luteranismo e não davam tanta importância à teologia do pacto e também tinham o estado como um reino separada da igreja e não tinham o estado como aliado na propagação da fé cristã como os calvinistas mais ao sul, ou na Inglaterra e na Holanda. Na França, os huguenotes e os burgueses calvinistas que participaram da Revolução Francesa exigiam um Estado Laico (leigo), onde o povo tomasse as decisões, não apenas os reis, príncipes e teólogos. Na Inglaterra e Holanda, a Igreja Batista teve uma mistura entre calvinistas, arminianos e anabatistas em sua formação, fazendo uma doutrina sobre a relação da igreja com o Estado bem próxima à luterana, de que o cristão não deve falar em nome do da Igreja quando em cargo público, mas as primeiras igrejas batistas tiveram uma confissão calvinista em grande parte delas, inclusive muitos puritanos, como John Bunyan, eram batistas, mas tinham a questão da separação da Igreja com o Estado como muito importante para eles, mesmo acreditando na teologia do pacto de João Calvino.

Reforma Anglicana

Na reforma Anglicana a união entre a Igreja e o Estado é total. O chefe do Estado, o rei, é também o Chefe da Igreja. Esse ponto também foi reformado entre os anglicanos, mas diferente das outras reformas. Na Igreja Católica, o Chefe da Igreja, o Papa é superior aos chefes de Estado. Segundo eles Deus é o Rei da terra, então é natural que o chefe da Igreja seja representante de Deus entre os estadistas também.. Na Reforma calvinista, a igreja ainda tem primazia sobre o estado, mas não há um chefe que decida sobre o Estado, mas a igreja como um todo deve reger o Estado através da influência, pois o chefe da Igreja é Cristo. Na reforma luterana, Deus já comanda o Estado, inclusive através de pagãos, o cristão pode exercer serviço público e influenciar o Estado, ou mesmo comandá-lo, mas lembrando que Igreja e Estado são reinos diferentes, um não pode dominar sobre outro, pois servem para coisas diferentes. Na Reforma Anglicana Igreja e Estado se diluem e devem estar sob o mesmo comando, o rei e a rainha.

Reforma Anabatista

Na reforma Anabatista (que não tem nada a ver com a igreja batista, são movimentos diferentes), a separação com o Estado era total. eles tinham um sistema eclesiástico e um ensinamento social mais “anarquista”. Ninguém deveria ser autoridade sobre ninguém, fosse na Igreja, fosse no Estado, a intenção era abolir totalmente o “clericalismo”, somente Cristo era o cabeça. Eles não deveriam servir o Estado em nada, nem pagar tributos, nem nada. Tinham um pensamento extremamente radical.. Só que na prática eles tinham conselhos de anciãos que serviam como autoridades sobre todos e eram a liderança tanto eclesiástica como social entre eles e ninguém pode contrariar às decisões desses anciões quando tomadas em assembléia (ou mesmo fora das assembleias  dependendo da comunidade). Eles foram muito radicais e enfrentaram vários problemas com isso, sendo mortos por católicos, calvinistas e luteranos que os perseguiram até à morte em muitos lugares e dizimaram o movimento deles, por intolerância contra o pensamento social e religioso deles.

Conclusão

Isso tudo mostra que a reforma teve sim muitos problemas e demorou muito para ser aperfeiçoada. Tire você suas conclusões sobre qual o modelo melhor sucedido em aplicar o ensino bíblico, mas veja como os maus exemplos que aconteceram entre os anabatistas, puritanos, calvinistas, luteranos e anglicanos são algo que não devemos imitar, mas buscar aperfeiçoar nossa vida dentro dessa questão.

Então tenha você seu ideal na política, seja Esquerda, Direita, Conservador, Progressista, Comunista, Capitalista, whatever, pense no que é melhor para prosperidade, justiça e crescimento de sua sociedade, mas não use isso como munição contra o seu irmão.

Pois temo que, ao visitá-los, não os encontre como eu esperava, e que vocês não me encontrem como esperavam. Temo que haja entre vocês brigas, invejas, manifestações de ira, divisões, calúnias, intrigas, arrogância e desordem.
2 Coríntios 12:20

Esse tal mostra um interesse doentio por controvérsias e contendas acerca de palavras, que resultam em inveja, brigas, difamações, suspeitas malignas
e atritos constantes entre pessoas que têm a mente corrompida e que são privados da verdade, os quais pensam que a piedade é fonte de lucro.
De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro,
pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar;
por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos.
1 Timóteo 6:4-8

Livros sobre o assunto que já li e usei esses dias na pesquisa desse pequeno texto (antes que os academichatos me encham o saco):

  • Uma Breve História do Cristianismo – Geoffrey Blainey. Editora fundamento
  • O Cristianismo Através dos Séculos, Uma História da Igreja cristã – Earle E. Cairns. Editora Nova vida.
  • Livro de Concórdia – Editora Sinodal. Editora da ULBRA. Edita Concórdia
  • Quem Foram os Puritanos? …e o que eles ensinaram? – Errol Hulse. Editora PES
  • Obras Selecionadas de Martinho Lutero, Volume 5 – Editora Concórdia. Editora Sinodal.
  • A Vida e a Morte de João Calvino – Theodoro de Beza (Tradução de Waldyr Carvalho Luz). LPC Publicações
  • As Institutas da Religião Cristã – João Calvino (tradução de Waldyr Carvalho Luz). Editora Cultura Cristã.
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