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Por que os evangélicos brasileiros não usam imagens em suas igrejas??

Vou usar muito a palavra iconoclastia e suas variações aqui, então já explico logo o que é isso. Iconoclastia é “destruir ícones”, ou seja, ser contra imagens, ícones e representações. Iconoclastas são aqueles que são contra qualquer representação de Deus, de Jesus ou da Trindade, e muitos também são contra qualquer outra representação visual na Igreja, seja dos irmãos que morreram e foram um exemplo de santos perdoados e aperfeiçoados por Deus na história do cristianismo, seja de personagens bíblicos.

Dada a explicação nerd teológica, vamos lá.

Muitos vão se apressar e dizer que ter imagens é Idolatria e que isso fere logo o primeiro mandamento da Lei de Deus. Os iconoclastas usavam o mesmo discurso, mas as ações deles eram bem diferentes do evangélicos; para eles, qualquer representação do divino e de pessoas mortas seria pecado. Continue lendo após a imagem..

Mulher Samaritana que foi atendida por Jesus. Imagem do século 3 da Igreja Cristã de Dura Europos, o mais antigo templo cristão que se tem conhecimento.
Mulher Samaritana que foi atendida por Jesus. Imagem do século 3 da Igreja Cristã de Dura Europos, o mais antigo templo cristão que se tem conhecimento.

Bom, a Bíblia não proíbe fazer imagens, tirar fotos, assistir TV, olhar quadros, enfim, representar ou olhar para representações visuais das coisas. Deus até mandou fazer imagens de anjos na arca da aliança logo depois de proibir a adoração a imagens (Êxodo 25:17-22). O que a Bíblia condena é atribuir algum poder, espírito, sorte ou alma às imagens e pedir coisas a imagens como se houvesse algo nelas, ou que elas fossem algum ponto de contato com a entidade espiritual (deuses, santos mortos, pessoas mortas, pessoas vivas, etc), ou então pedir coisas a outras entidades espirituais que não a Deus, ou amar qualquer coisa terrena mais que ao próximo e a si mesmo, amor grande assim só deve ser devotado a Deus. Isso sim é que é idolatria e nisso condenamos os católicos, espíritas, adolescentes fãs de artistas gospel ou seculares e adeptos de qualquer religião, corrente de pensamento ou modismo social que assim que procedem, mas ter uma representação visual de algo não é condenado pelo Senhor. Aqui uma simples interpretação de texto, sem muita aplicação até de hermenêutica bíblica, já deixaria essa questão bem clara.

Altar e vitrais com imagens numa Igreja Presbiteriana de Stamford, nos EUA
Altar e vitrais com imagens numa Igreja Presbiteriana de Stamford, nos EUA

Os cristãos pela história não tiveram a mesma opinião que a maioria dos evangélicos brasileiros de hoje, apesar de alguns também terem pensado assim pela história, tenho que admitir, mas a maioria não via problemas em se ter imagens como representações de fatos e personagens históricos na Igreja e em casa, para lembrarem e se inspirarem nessas histórias bíblicas e de pessoas que partiram com Cristo deixando bons exemplos a serem seguidos. Foi só com séculos de andamento da Igreja Cristã que novos adeptos do cristianismo, vindo do paganismo, começaram a misturar as coisas e fazer orações para essas pessoas que morreram e estão (ou não) lá no Céu incomunicáveis com os vivos e acreditar que as imagens dessas pessoas mortas, ou do Senhor Jesus Cristo que vive para sempre, ao serem consagradas ou usadas durante orações seriam algum “ponto de contato” entre elas e a pessoa, santo morto (mais uma vez, quem morreu não pode se comunicar com os vivos, pedir algo a alguém que já morreu é inútil e pecado), ou alguma pessoa da Trindade representada pela imagem, ou trariam alguma sorte, teriam algum espírito, poderes mágicos ou algo assim..

Na Reforma Protestante, especificamente nas reformas Luterana e Anglicana, as imagens não foram abolidas das Igreja exatamente pelo valor pedagógico e inspirador delas. Para nós, protestantes, o ensino da Palavra de Deus tem papel fundamental na nossa fé e a iconografia (uso de imagens) serve somente para isto, para a educação cristã. Os simbolismos, representações, imagens e festas do culto cristão que foram desenvolvidos pela história do cristianismo, antes do protestantismo, foram mantidos com essa idéia de ensino pedagógico da Palavra de Deus, para as pessoas conhecerem e sempre lembrarem do que a Palavra de Deus ensina. Vamos lembrar que saber ler era um privilégio para poucos durante milênios da história humana, só ricos, nobres e aristocratas tinham esse privilégio nas civilizações humanas, foi até mesmo o próprio protestantismo que fez isso mudar, incentivando a educação pública e gratuita para que todos pudessem ler a Palavra de Deus e poder examinar por si mesmos (lembrando que examinar é diferente de interpretar. O exame é livre, a interpretação não. A Bíblia se interpreta com a própria Bíblia) as palavras de Deus na Bíblia, mas antes disso pela humanidade toda eram poucos os que sabiam ler e o ensino da Palavra de Deus se dava de maneiras diferentes, incluído aí o uso de imagens, pois poder ter acesso às histórias bíblicas era algo muito difícil e complicado para a maioria das pessoas, então ter imagens nas igrejas e em casa era uma maneira de ensinar e inspirar as pessoas segundo a Palavra de Deus e a história da Igreja.

Houve sim, novamente tenho que admitir, esforços para que as pessoas não confundissem as imagens com canais de comunicação com Deus ou com pessoas mortas e em alguns lugares aonde a Reforma Protestante aconteceu, como a Genebra de Calvino e Zurique de Zwinglio, houve a retirada de imagens e ícones que representassem a Palavra de Deus e dos santos mortos que deram exemplo durante a história da Igreja, com o temor de idolatria ou invocacao espírita desses mortos. Os mais radicais da Reforma, os anabatistas, também retiraram imagens dos locais aonde se instalaram e pelo radicalismo deles até queimaram igrejas, quebraram imagens e destruíram tesouros históricos por esse temor com a idolatria. Porém mesmo nas regiões calvinistas e Zwinglianas, exceto pelos anabatistas, muitas igrejas e locais mantiveram suas imagens como forma pedagógica de mostrar a Palavra de Deus.

Mais pra frente, na Grã Bretanha, um grupo super radical chamado de “puritanos”, também teve essa orientação iconoclasta, mas também foram exceção no protestantismo mundial; a maioria dos protestantes, luteranos, os calvinistas e os anglicanos não tinha esse problema com ícones e representações.

Púlpito de uma Igreja Batista na Georgia, país do Leste Europeu
Púlpito de uma Igreja Batista na Georgia, país do Leste Europeu

E porque no Brasil temos tanto problema, então, com imagens?? Bom, é só aguçar um pouco a observação para vermos que por aqui a idéia não é bem a “iconoclastia”. Ora, se a idéia é fugir da idolatria e das representações que os iconoclastas julgam desnecessárias ou até mesmo pecaminosas, então por que as igrejas pentecostais e neopentecostais tem a foto do lider deles na placa da Igreja? Por que as páginas calvinistas no Facebook sempre colocam imagens de pregadores atuais, reformadores, puritanos e outros “santos reformados” junto com as frases motivacionais calvinistas?? Enfim, a idéia não é muito “iconoclasta”, ao que parece.

Na verdade, isso tem um pano de fundo histórico. Mesmo os protestantes brasileiros, como os calvinistas e metodistas, que no resto do mundo geralmente são diferentes, por aqui sofrem muita influência do pentecostalismo e do evangelicalismo no Brasil, além da influência puritana que também pôde contribuir a esse estranho costume iconoclasta deles. Eu fui calvinista, posso afirmar que a influencia evangelical dos pentecostais é determinante na cultura dos calvinistas brasileiros, com os metodistas é a mesma coisa, é só observar.  Hoje como luterano consigo ver melhor estando de fora como a cultura evangelical é dominante no pensamento não só dos evangélicos, como da maioria dos protestantes brasileiros e a cultura evangelical daqui foi formada por uma história brutal de conflitos com os católicos, que até hoje se refletem no pensamento evangelical brasileiro. Pode ver que em muitos outros países a maioria dos evangélicos não têm essa característica de pavor com imagens e são mais próximos aos protestantes históricos que aceitam a iconografia geralmente sem problemas, apesar das exceções.

O lance todo tem uma particularidade brasileira, ou mesmo latino americana, pois em outros países houve problemas parecidos de conflitos entre evangélicos e católicos e são também de uma cultura evangélica iconoclasta, e isso vem desde o começo do século XX, quando os evangélicos americanos, que disseminaram a religião evangélica por aqui, chegaram, aonde já estavam muitos protestantes por aqui também. No começo foram até que bem tratados, apesar de sérias restrições legais a eles no Brasil, como acesso a certos serviços públicos da época, como cemitérios, hospitais e escolas. No Sul, onde luteranos mantiveram a convivência pacífica com católicos e não aderiram às modas evangélicas que aconteceram no século XX, a separação entre evangélicos e católicos não foi tão rígida; aqui em SP e mais pra cima foi, principalmente no nordeste, apesar de termos tido até um presidente protestante no Brasil mais pra frente, o Café Filho, que era presbiteriano, mas a segregação religiosa acabou se estabelecendo.

Para os protestantes vindo dos EUA, batistas, presbiterianos, metodistas e alguns luteranos, essa segregação nem era um problema, eles nem queriam se misturar mesmo, não eram em geral muito evangelistas, missionários ou compartilhadores da fé, a maioria veio para cá no final do século XIX para fugir da “sociedade liberal” americana e da grande Depressão de 29, na segunda leva de americanos protestante e evangélicos por aqui, mas tenho que reconhecer que tivemos alguns bons evangelistas nessa época também. Mas no geral não eram proselitistas como os pentecostais, ou mesmo evangelistas, eram mais isolados, e estes protestantes não pentecostais se separaram tanto dos católicos como dos evangélicos, muitos consideravam até o pentecostalismo uma seita, uma nova religião.  No Sul não tinha tanta mistura de religiões, então também não houve muitos conflitos religiosos, luteranos descendentes de alemães e católicos conviviam numa boa.

Púlpito de uma Assembléia de Deus nos EUA
Púlpito de uma Assembléia de Deus nos EUA

Já os pentecostais de SP para cima eram muito missionários e com o crescimento desse movimento no Brasil a coisa começou a incomodar o católicos, que passaram a perseguir os pentecostais. Muitos eram mortos, expulsos de casa, ser evangélico era como um crime capital para muitos católicos, padres organizavam turbas para expulsar evangélicos, incentivavam atitudes terríveis contra esses, foi uma “caça às  Bruxas” terrível que está bem escondida nos “anais da história” do Brasil. Na época da Ditadura essa perseguição atingiu seu ápice, com até protestantes entrando na onda de perseguir e por isso prendendo (com ação direta do Estado), torturando, matando e perseguindo os evangélicos pentecostais.. Isso durou até meados dos anos 80, mais ou menos, com restícios ainda na década de 90. Eu cresci em lar pentecostal, eu ia na igreja e via os testemunhos de missionários pentecostais que voltavam baleados ou mutilados do interior do país, isso quando não eram presos e só soltos sob a promessa de não voltarem mais lá para exercer atividade religiosa, sofrendo perseguição de padres, coronéis e autoridades governamentais católicos e até mesmo protestantes que não gostavam do movimento pentecostal. Aqui em SP hoje se sabe como muitos evangélicos e protestantes sofreram escondido em igrejas e universidades protestantes por serem considerados “subversivos”, quase nunca por motivos políticos, apenas de fé, por flertarem com idéias e comportamentos evangelicais ou defenderem uma ação social forte, como faziam os pentecostais, o que era considerado subversivo na época.

Então os evangélicos passaram a rejeitar a Igreja Católica como rejeitam o diabo, associando a ICAR ao diabo, passaram a atribuir qualquer coisa que tivesse relação com a ICAR como “romanismo” e idolatria. Os evangélicos aqui são herança do movimento holiness do EUA, que é uma mistura de puritanismo (vertente radical  iconoclasta do calvinismo) e metodismo, então não estavam habituados à iconografia, nem tinham acesso a estudos sobre a história da Igreja, a maioria dos evangélicos no Brasil era de analfabetos e pobres. Daí criou-se essa cultura de rejeitar tudo que lembre a Igreja Católica e até hoje quase ninguém questiona o pq isso é assim, além do analfabetismo bíblico e histórico que ainda permeia a maioria dos cristãos, independente da denominação.. Essa cultura que se criou de aversão ao catolicismo impactou as igrejas tradicionais também. As igrejas tradicionais foram incorporando a cultura evangelical da experiência como determinante na vida cristã, da simplicidade e abertura litúrgica, da renovação cultural conforme a demanda temporal e social e isso foi positivo para igrejas tradicionais no Brasil, porém muitas coisas negativas também vieram com a cultura evangelical e entre elas o trauma com o catolicismo.

É claro que não concordo com a iconoclastia evangélica brasileira, mas a história por trás disso é bem triste e reverter isso não vai ser fácil..

Para os academichatos, segue uma bibliografia para vcs pesquisarem e não me encherem o saco:

http://www.usp.br/revistausp/74/12-antoniogouvea.pdf

http://www.dailycatholic.org/history/councils.htm

http://orthodoxchurchfathers.com/fathers/

Obras Selecionadas de Martinho Lutero, Volumes 1 – 7, editoras Concórdia e Sinodal.

Cristianismo Através dos Séculos; Earle E. Cairns.

Inquisição Sem Fogueiras; João Dias de Araújo, publicado via Instituto Superior de Estudos da Religião

http://justandsinner.blogspot.com.br/2011/11/lutherans-and-use-of-images-part-1.html

http://fullhomelydivinity.org/icons.htm

http://www.mackenzie.com.br/6994.html

http://www.unicap.br/coloquiodehistoria/wp-content/uploads/2013/11/5Col-p.1107-1122.pdf

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